Reportagem Várzea Alegre

Irmãs Rosinha e Ceilda: fontes de resistência

Rosinha e Ceilda, de Várzea Alegre, são irmãs e portadoras de deficiência congênita, mas encontraram no artesanato (redes de dormir com varandas em crochê) o caminho para o sucesso (Fotos: Helene Santos)
00:00 · 09.12.2017

Mulheres, de origem humilde, moradoras da zona rural, órfãs de mãe e portadoras de uma atrofia nos membros superiores e inferiores. Rosinha, Ceilda e Cileide são exemplos de vida e de superação, pois souberam transformar as dificuldades em oportunidades. Ainda crianças, começaram a fazer crochê para ajudar no sustento da família. Continuam até hoje trabalhando com artesanato (redes de dormir), fonte de renda e de resistência.

Das três irmãs, somente Rosinha e Ceilda continuam nessa luta para gerar ocupação e renda na comunidade onde vivem, no Sítio Mocotó, em Várzea Alegre, na Região Sul do Ceará. Cileide, considerada a designer, e responsável pelas finanças, faleceu em fevereiro de 2012, em decorrência de problemas de saúde. Mesmo enfraquecidas pela ausência da irmã, Rosinha e Ceilda não desistem de acreditar e continuar na missão de trabalhar e ajudar o próximo.

Maria Miguel de Oliveira, a Rosinha, 58 anos, guarda na memória as inúmeras barreiras que precisou superar para provar a sua capacidade. "Muitas pessoas, até mesmo da família, dizem que acreditam na gente, mas acreditam entre aspas", compara. Contudo, ela nunca teve medo de enfrentar a vida. Quando ficou órfã, tinha 11 anos e 9 irmãos pequenos, os quais ajudou a criar. "Meu pai foi um herói. Ele adaptou a nossa pia, o degrau da casa e até uma máquina de costura".

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Sempre ativa, Rosinha fundou a Associação Comunitária do Sítio Mocotó, em 30 de maio de 1989. Por meio da iniciativa, conquistou espaço e admiração dentro e fora da comunidade. Em 2007, viajou ao México, onde representou o Brasil, sendo a única artesã com necessidades especiais no evento. Em 2009, contou sua trajetória na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque.

Com toda a vivência, Rosinha lamenta o preconceito e a falta de acessibilidade para as pessoas com baixa estatura. "Percebi isso nos museus, hotéis, aeroportos e até restaurantes. Teve uma ocasião em que eu não consegui tomar banho, pois não tinha como entrar na banheira, eu não alcançava", detalha.

Certa vez, em Fortaleza, ao embarcar em um ônibus, o motorista disse que o veículo não era adequado para transportar aleijado, mas ela não se intimidou diante do gesto preconceituoso. São tantas as histórias que Rosinha deseja, quando completar 60 anos, em 2019, lançar um livro contando toda sua vida como professora, artesã, agente de saúde, evangelizadora, empreendedora e deficiente física. "Está tudo escrito e registrado, só falta organizar".

Francisca Reinaldo, a Ceilda, 54 anos é outra guerreira. Não viaja tanto como Rosinha, mas, quando deseja algo, igualmente vai à luta. Seu maior sonho era obter a carteira de habilitação e comprar um carro adaptado. Passou anos economizando para ter o dinheiro.

"Nem minha família acreditava na minha capacidade, ninguém me apoiava", diz. Em 2009, ela passou três meses em Fortaleza, fez a autoescola, tirou a carteira e comprou o carro. Destemida, ainda pretende cursar uma faculdade, tendo como lema: "Quem tem a vontade, tem a metade", afirma Ceilda.

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