Reportagem Linha sul

Integração e progresso aconteceram através da ferrovia

No Crato, o Largo da Rffsa é tombado pelo Iphan. Nos prédios, funcionam auditório, galeria e a Secretaria de Cultura. No mesmo complexo, há a Biblioteca Pública e estão sendo construídas duas salas de cinema
00:00 · 17.03.2018 por Antonio Rodrigues - Repórter

"Doutor, bota o trem de volta, doutor, é o transporte do pobre. De Juazeiro vou para o Crato, do Crato para Fortaleza. Era uma beleza aquele trem do Crato para Fortaleza", cantava nostálgico o compositor milagrense Jonas de Andrade, o popular Bilinguim, na canção "Doutor, cadê o Trem?", gravada em 1994, pouco depois de encerrar o transporte de passageiros no Cariri. Última região a receber a Estrada de Ferro de Baturité, no início do século XX, o trem chegou graças ao desejo de integração e progresso.

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O plano inicial, ainda no Império, era que a estrada de ferro, que terminou em Crato, chegasse a Petrolina (PE) e de lá fosse integrada ao sistema hidroviário pelo Rio São Francisco. Deputados diziam que a vinda da ferrovia era uma forma de "amarrar" a região ao Ceará, já que o Cariri foi, até o fim do século XVIII, parte de Pernambuco. No entanto, a historiadora e professora da Universidade Regional do Cariri (Urca), Isabel Cortez, acredita que era uma motivação econômica, das disputas das províncias. Muito da produção local ia para o Rio Grande do Norte. "Não é só amarrar o Cariri, mas que essa produção fosse garantida para o Ceará", diz.

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A Prefeitura de Juazeiro do Norte apresentou projeto do Centro Cultural e do Museu do Trem, no prédio da antiga estação ferroviária, que fica ao lado da Estação do VLT 

Isabel acrescenta que a estrada de ferro, fazia parte de um projeto de integração nacional do Império, que tinha medo que as províncias se tornassem independentes. Na época, havia uma centralização maior e a ideia era levar a estrada de ferro a Pernambuco e, de lá, integrar com Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Mas nos discursos políticos a estrada de ferro aparece relacionada à questão econômica: tinha que ligar uma zona de produção agrícola a um porto. O Ceará apresentado como espaço de produção, destacando as "ilhas verdes" de Baturité e Cariri. No Sul do Estado, era evidenciada a produção de cana-de-açúcar. "Existia, mas não era tão grande como em outras regiões. O que sustentava era o algodão, que não estava previsto", explica Isabel.

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O prédio da antiga Estação de Barbalha hoje é utilizado como terminal rodoviário para ônibus intermunicipais e interestaduais 

Este discurso permaneceu até a seca de 1877, que acabou levando muitos retirantes para Fortaleza reclamar seus direitos e pedir ajuda à Província. Antes agrícola, agora a justificativa para estrada de ferro era filantrópica. "Foi a única do mundo de socorro aos retirantes da seca", pontua a historiadora. Eles fizeram parte da frente de trabalho para a construção da estrada de ferro.

No século XX, as estradas de ferro já não possuíam o mesmo investimento. Na época, o Brasil já se afastava economicamente da Inglaterra. No dia 8 de novembro de 1926, a Estação de Crato foi inaugurada e, no dia seguinte, o mesmo aconteceu em Juazeiro do Norte. Por outro lado, em todo País, o governo de Washington Luiz passava a aplicar recursos em estradas de rodagem.

Padre Cícero

A princípio, Juazeiro do Norte não teria estação. A cidade escolhida era Barbalha, que tinha forte produção de cana-de-açúcar. No entanto, o Padre Cícero foi para Fortaleza e conseguiu, com o seu prestígio político, trazer o equipamento para seu Município. A terra de Santo Antônio ficou de fora. Mas, em 1940, conseguiu um ramal. Mesmo assim, o transporte funcionou por pouco tempo. Segundo os barbalhenses, um acidente com o trem matou uma família inteira e traumatizou a cidade, finalizando o trajeto.

O prédio da antiga estação hoje é utilizado como terminal rodoviário para ônibus intermunicipais e interestaduais. Tombado por Lei Municipal e pertence à Prefeitura.

Com a ferrovia em declínio, o transporte de passageiros foi encerrado na década de 1980 e de cargas, até o fim da década de 1990. Madeira, gasolina e carvão eram trazidos para o Cariri, enquanto a região ainda distribuía muita cerâmica e gesso, produzidos no Crato e nas cidades vizinhas, incluindo Pernambuco. "O Crato não sofreu muito com o fim porque já tinha ligação por várias rodovias que garantiam a movimentação de pessoas e da economia", diz.

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A Estação de Aurora, desde 2009, abriga a Biblioteca Pública e, no anexo, a Escola de Música Esmerindo Cabrinha. Há projeto para instalar um café-estação 

Nostalgia

Da estrada de ferro, sobrou a lembrança. O trem marcou a infância de idosos e adultos, como o advogado Raimundo Soares que, aos seis anos, pegava carona nos trens de carga. Com velocidade baixa, muitas crianças se aventuravam entre os vagões e produtos: "Era um risco. Tinha que pegar escondido. Mas não lembro de nenhum acidente de criança com trem".

Nos arredores da linha, em Crato, se formaram muitas comunidades, como a do "Gesso", conhecida como o local que depositava este tipo de carga transportada no trem. Foi lá que se concentraram muitos cabarés, como o de Glorinha, Chica Braga e Alice, os mais famosos na década de 1970 e 1980. No entanto, havia os menores, que recebiam muitos estudantes e trabalhadores assalariados.

'Museu do Trem'

O secretário de Cultura de Juazeiro do Norte, Renato Fernandes, esteve em Fortaleza apresentando o projeto para a criação do Centro Cultural e do Museu do Trem, no prédio da antiga estação ferroviária. A ideia é que se torne um espaço de exposição permanente, contando a história da estrada de ferro no Cariri e do Ceará. Ele se reuniu com o presidente do Sindicato da Rede Ferroviária Federal (Rffsa), Marcos Cabeleira, e Hamilton Pereira, engenheiro aposentado da antiga estatal e memorialista.

Cariri Criativo

No Crato, o Largo da Rffsa é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Nos prédios, funcionam auditório, galeria e a Secretaria de Cultura. No mesmo complexo, há a Biblioteca Pública e estão sendo construídas duas salas de cinema. Mensalmente, a Feira Cariri Criativo movimenta o espaço com venda de produtos da economia solidária. Além disso, o evento reúne shows, recitais poéticos, performances e exibições de filmes. Cerca de 200 pessoas, por dia, circulam na feirinha.

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Em Missão Velha, a estação passou a sediara Secretaria de Cultura e biblioteca em 2011. Um dos armazéns deverá abrigar uma escola de arte e cultura

"Conseguimos atrair pessoas que não costumam frequentar a Rffsa normalmente. E isso, para nós, se caracteriza como o início de uma ressignificação desse espaço público, a partir do uso criativo, dessa movimentação cultural", conta a coordenadora do projeto, Cleo do Vale.

Em Missão Velha, a estação era ociosa até 2011, quando foi reaberta como sede da Secretaria de Cultura e biblioteca. Segundo o titular da Pasta, Moreira Paz, um dos armazéns será aberto, neste mês, para a criação de uma escola de arte e cultura. Ele acrescenta que a estrutura da estação está bem conservada, mas precisa de alguns reparos.

A Estação de Aurora, desde 2009, abriga a biblioteca pública e, no segundo anexo, a Escola de Música Esmerindo Cabrinha. "Também queremos construir um café-estação", diz o secretário de Cultura, José Cícero Silva.

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