Reportagem

Imagens reveladas pelo toque

Ao lado das alunas bolsistas Giovanna Silva e Ana Carolina Roldan, o professor do curso de design da UFC Roberto Vieira desenvolveu projeto para introduzir a pessoas cegas o conceito de fotografia enquanto arte
00:00 · 17.06.2017

Olhar muito além do sentido da palavra visão. Olhar com o toque das mãos, com sentimento, com reflexões. Dessa forma, o projeto Fotografia Tátil promoveu uma exposição com sete imagens transformadas em painéis, visando, assim, promover a inclusão da arte para as pessoas cegas.

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Na materialização das peças, feitas em placas de madeira, foram utilizadas técnicas de corte e gravação a laser, usinagem com máquinas fresadoras de controle numérico computadorizado e impressão 3D.

Segundo o coordenador do projeto, Roberto Vieira, diversos esforços têm sido realizados para tornar a fotografia uma ferramenta de inclusão social para pessoas cegas, seja por meio do ato de fotografar sem o sentido da visão, seja pela produção de peças para apreciação pelo sentido do tato.

"Tais medidas visam introduzir a esse público o conceito da fotografia enquanto arte", explica Roberto, professor do Curso de Design do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará (UFC). Esse projeto conta ainda com as bolsistas Ana Carolina Roldan, do curso de Arquitetura, e Giovanna Silva, do Sistemas e Mídias Digitais.

Mais recursos

Para Ana Carolina, a proposta é gerar uma reflexão mais ampla sobre os aspectos de mobilidade da cidade e também da acessibilidade das pessoas cegas. "Ainda pretendemos incluir a audiodescrição e música para melhorar a compreensão", completa a aluna. Por enquanto, recursos como o braile e de monitoria estão sendo utilizados como suportes.

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O avanço da tecnologia, contudo, tem permitido a produção mais automatizada das fotografias táteis. A proposta, segundo o professor, é aperfeiçoar as técnicas que já foram testadas e incluir novos recursos para ampliar a autonomia dos cegos. "Isso seria feito por meio de objetos e maquetes auxiliares e recursos de áudio e visão computacional".

Segundo ele, este trabalho, iniciado em 2015, visa enriquecer a experiência de imersão do usuário cego por meio da tecnologia e ampliar o debate acerca da acessibilidade e inclusão social. (C.P.)

Projeto de Fotografia Tátil utiliza recursos tecnológicos para levar arte às pessoas sem a visão. As imagens, aplicadas em painéis de madeira, proporcionam sensações únicas

Fontes de informação e acessibilidade

Se diz que o universo do conhecimento oferecido pela leitura é tão abrangente que é como se nos desse uma lente contra a miopia daquilo que não enxergamos ou não queremos ver. Mas se a visão, como algo anterior aos olhos, é propulsora de conhecimento, é isso o que mobiliza o leitor Martônio Carneiro, todos os dias acessando o site do Diário do Nordeste para se informar "do que acontece no mundo".

Ler para conhecer. Como qualquer um, não fosse o auxílio do programa de áudio para dizer que o Ceará "sofre apagão nos 45 minutos finais e leva a virada do Santa Cruz". Ele, torcedor do Fortaleza, não sofreu por isso, mas vê um outro mundo de possibilidades depois da tecnologia. E está tão indignado quanto muitos com a política brasileira.

O desenvolvimento de novos aplicativos que facilitam a leitura de textos em telas de smartphones e computadores é um problema a menos para quem vive num país, estado e cidade com tão pouco acessibilidade, diante do que pode oferecer.

Em Fortaleza, o Centro de Profissionalização Inclusiva para a Pessoa com Deficiência (Cepid) é, para muitos cegos e não só eles, onde se tem maior 'acesso à acessibilidade'.

Com sua Gráfica Braile, propicia ao público um convite de casamento adaptado, ou um documento que sai da tinta para o alto relevo; da tela para a caixinha de som no ouvido.

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No Cepid, uma das tecnologias à disposição de pessoas cegas é a linha braile. Funciona como um transcritor eletrônico para o braile dos textos que estão na tela

Uma máquina de braile perfura o papel em branco que, ainda branco, toma-se de palavras, pensamentos, acessíveis ao toque. O jeito não artesanal é uma impressora eletrônica, que confecciona o braile em qualquer documento.

Aberto ao público

Mas se o homem inventou essa conexão para os que não enxergam, tudo tem um preço: a máquina de uso manual não sai por menos de R$ 3 mil. Outra, ao custo superior a R$ 20 mil, digitaliza instantaneamente em braile o texto escrito na tela do computador, como esta matéria, por exemplo, para quem não estiver lendo no impresso.

"O braile é o princípio de tudo. Temos vários meios eletrônicos disponíveis, mas da mesma forma que o jornalista não abre mão do bloco e do papel, nós também não abrimos mão do toque. Mas sou sincero em dizer que é isso porque não pode ser pelos olhos", afirma Martônio.

Conforme Bete Angelim, gestora de Núcleo no Cepid, o espaço está aberto ao público e, tendo gráfica, proporciona maior adesão de quem procura ampliar a acessibilidade, seja com o braile num cartão de visitas ou mesmo documentos pessoais.

A transcritora Sheila Bastos comemora que tenha havido uma maior adesão da sociedade pela informação com acessibilidade. E se chega um convite de casamento com todo requinte, o alto relevo ganha ainda mais em importância no papel em branco. "A gente recebe, transcreve, e o Martônio revisa".

Para essa transcrição gratuita, com impressão, o que se pede é que o cliente leve o próprio papel em tamanho A4 e espessura 40kg. Do lado de fora do Cepid, vizinhos não sabiam que ali dentro, um espaço já sabido que recebe pessoas com deficiência, também se pode "ler" jornal como qualquer outra pessoa.

No mundo já transformado em aplicativos para computadores e celulares, muitos cegos levam o pendrive no bolso com o programa que adapta à leitura. Assim, podem instalá-lo em qualquer computador para ter acesso a leituras e ao trabalho. É como uma chave que abre a porta da informação. (Melquíades Júnior)

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