Reportagem Funcionários

Idioma ainda é barreira no atendimento

00:00 · 14.04.2018

Antes de desfrutar das praias e de outros atrativos turísticos da cidade, um dos obstáculos a serem enfrentados pelos turistas estrangeiros na Capital e ainda mais no interior do Ceará é o idioma. Seja nas barracas de praia, bares e restaurantes ou mesmo no meio de transporte, é fácil constatar que ainda há uma deficiência significativa de profissionais bilíngues no Estado - de forma que a comunicação chega a acontecer, muitas vezes, por meio de gestos com as mãos.

A presidente da Associação dos Empresários da Praia do Futuro (AEPF), Fátima Queiroz, estima que, de cerca de dois mil funcionários que trabalham nas barracas da área nesta baixa estação, somente em torno de 10% fala outra língua. "Umas cinco ou seis barracas que têm um público maior de estrangeiros têm um percentual maior (de bilíngues). Mas nas que atendem mais turistas locais e nacionais, às vezes acontece uma saia justa", aponta.

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Na maioria dos restaurantes e bares da cidade não é diferente, problema que é reconhecido por Moraes Neto, presidente do Sindicato de Restaurantes, Bares, Barracas de Praia, Buffet's e Similares do Estado do Ceará (Sindirest-CE). "Muitas casas têm profissionais que falam duas, até três línguas, mas não é muito significativo. As pessoas que estão à frente, no atendimento, precisam falar mais de uma língua não só nas grandes casas", admite o presidente.

O problema se repete até mesmo nas agências de viagens. O presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagem no Ceará (Abav-CE), Colombo Cialdini, também atesta que o setor ainda precisa se qualificar de forma intensa, especialmente na questão de idiomas. "Quem pretende sobreviver no mercado está vendo isso. Tem que deixar de ser agente que só emite passagem para ser consultor de viagens", pondera.

Capacitação profissional

Para reverter esse cenário, associações de diversos segmentos do trade turístico oferecem cursos ou convênios com escolas de idiomas para seus associados. Outros têm parcerias com o Sistema "S" com a mesma finalidade, do qual fazem parte o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Serviço Social do Comércio (Sesc), Serviço Social da Indústria (Sesi) e Serviço Nacional de Aprendizagem do Comércio (Senac), entre outros.

De acordo com a Prefeitura de Fortaleza, será lançado até o final do primeiro semestre a Rede Municipal de Qualificação (Remuq), que envolverá a preparação de cursos para diversas atividades econômicas, entre as quais o turismo, e incluirá o ensino de segunda língua para quem já estiver incorporado no mercado de trabalho.

Para além da questão do idioma, o presidente do Sindirest-CE, Moraes Neto, destaca que a entidade já firmou uma parceria com a Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS) para administrar a Escola de Gastronomia e Hotelaria do Ceará, com coordenação do Sebrae, e planejar a grade de cursos a serem ofertados. Já a Abav-CE conta com cursos mensais de capacitação e formação de agentes de turismo.

Combate à violência

Outro desafio ainda mais complexo, que afeta o turismo na cidade e em todo o País, é a questão da violência urbana. Segundo a presidente a AEPF, Fátima Queiroz, a situação na Praia do Futuro melhorou após uma ação do segmento junto ao governo do Estado, que aumentou a presença da polícia na região. "Mas temos uma abordagem sincera com o cliente, para que se resguarde, não ande com objetos de valor nem onde não tem barraca", destaca.

Em setembro do ano passado, a Academia Estadual de Segurança Pública do Ceará (Aesp/CE) chegou a realizar um curso com o intuito de qualificar e reforçar as ações de segurança e apoio aos turistas no Estado, que teve a participação de 30 oficiais. A formação incluiu desde aulas básicas de inglês e espanhol, além de conhecimentos mais específicos como identificação de passaportes e treinamento prático de direção off-road.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, o Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas (BPTur)conta hoje com 750 policiais militares com atuação em quase todo o Estado, de Icapuí até a praia de Bitupitá, na cidade de Barroquinha. Em Fortaleza, o batalhão está presente nas áreas de maior intervenção turística como Praia do Futuro, Beira-Mar, Praia de Iracema, Vila do Mar e em alguns equipamentos turísticos, entre os quais Centro Cultural Dragão do Mar, Aeroporto, Rodoviária, Emcetur, Cearte.

Setor hoteleiro se considera preparado

Depois de receber mais de 300 mil turistas durante a Copa do Mundo, em 2014, o setor hoteleiro cearense está mais que preparado para receber o incremento de viajantes com o início das operações do hub, segundo avaliação de Eliseu Barros, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Ceará (ABIH-CE). "Recebemos avaliação máxima após receber os turistas da Copa", afirma.

Além dessa experiência, a Capital também recebeu naquele ano as comitivas para a VI Conferência de Cúpula do BRICS, que elevou a ocupação hoteleira da Capital a quase 80% no período, lembra Barros. "Em termos de preparação, na equipe, temos recepcionistas bilíngues, alguns falam até três idiomas, então estamos bem tranquilos em relação a isso".

Segundo Barros, a capacidade dos hotéis da Capital é mais que suficiente para receber um contingente adicional de turistas. "No ano, nós temos uma ociosidade de pelo menos 30%. Na Semana Santa, a ocupação foi de 51% e, no Carnaval, de pouco mais de 80%. Esperamos que esse novo mercado pelo menos diminua essa ociosidade média de 30%", argumenta.

Participação

O setor também espera que o hub contribua para aumentar a participação de turistas estrangeiros. "O turismo internacional hoje, em todo o Nordeste, ainda é muito incipiente. Chega no máximo a 4% ou 5% do fluxo total. Esperamos que o hub progrida e que nos tornemos um portão de entrada para o turismo internacional", destaca o presidente.

52,4% dos turistas estrangeiros buscam lazer

praia de iracema
Mais da metade dos turistas estrangeiros que vieram ao Ceará entre 2012 e 2016 tinham como objetivo buscar o lazer no Estado, conhecido pelo vasto litoral e vida noturna agitada. De acordo com os dados mais recente estudo da demanda turística internacional do Ministério do Turismo (MTur), esse era o motivo da viagem de 52,4% dos viajantes ao Estado - 16,3% vieram a negócios ou eventos e 31,3% por outras razões.

Daqueles que vieram a lazer, 64,1% buscavam sol e praia no Estado, 13,2% a prática de esportes e 8,4% de ecoturismo, com permanência média de 9,6 pernoites e gasto médio de US$ 77,07 por dia. Conforme o estudo, os principais destinos de lazer apontados foram a Capital (75,3%) e Jijoca de Jericoacoara (30,2%).

Ainda segundo o estudo, 41,4% do fluxo turístico do período foi composto por pessoas que viajavam sozinhas, enquanto outros 20,2% eram casais sem filhos. A maior parte (75,2%) já tinha estado no Ceará antes, de forma que apenas 24,8% vieram para o Estado pela primeira vez. A faixa etária predominante entre os turistas estrangeiros no Estado era de 32 a 40 anos (25,1%), seguida pela de 41 a 50 anos (22,7%), de 25 a 31 anos (19,5%), 51 a 59 anos (14,5%), mais de 60 anos (9%) e, por último, de 18 a 24 anos (9,2%).

Imagem percebida

No Estado, as percepções mais bem avaliadas pelos turistas são a hospitalidade (97,1%), gastronomia (94,7%), alojamento (93,6%), restaurantes (93,4%) e táxis (89,5%), enquanto foram menos apreciados questões como as rodovias (51,8%), a limpeza pública (56,6%) e os preços praticados (68%).

Em relação aos instrumentos utilizados por esses turistas para organizar a viagem ao Estado, quase metade (45,9%) respondeu que utilizou as informações disponíveis na internet, enquanto 32,9% disseram ter consultado amigos e parentes a respeito do destino. Outros 9,7% realizaram a visita de acordo com as pré-determinações de viagens corporativas.

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