Reportagem Luta

Identidade não é adereço

Integrantes do Bloco Cola Velcro e do coletivo As Travestidas integram a luta por respeito à diversidade no Carnaval de Fortaleza
00:00 · 10.02.2018 / atualizado às 07:51

Enquanto, numa esquina, caricatura-se - com peruca, saia e salto desengonçados - a feminilidade da travesti; na outra, ostenta-se a voz grave para impor, em xingamentos, uma masculinidade que agride. Enquanto, por um lado, implora-se privacidade aos amigos para ficar com uma garota; pelo outro, duas mulheres se beijando viram espetáculo público. No País que se orgulha por se entregar às cores em fevereiro, esquecer o redor e curtir a festa sem preocupações é adereço ora negado para pessoas LGBT - um paradoxo social que só quem vive, experimenta na pele, nos hematomas do rosto e da memória, pode descrever.

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Do desrespeito à identidade de gênero, passando pela sexualidade e atingindo até o corpo, são plurais as formas de violência a lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis, tanto na folia como durante todo o ano. "No Carnaval, a cidade é muito mais permissiva, é verdade. Mas durante o resto dos meses, é preciso mais práticas, políticas públicas que garantam o respeito - do contrário, tudo vira discurso da folia", alerta Rodrigo Ferrera, que performa a drag queen Mulher Barbada, no coletivo As Travestidas, há três e meio dos 16 anos de existência do grupo.

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Integrantes do Bloco Cola Velcro e do coletivo AsTravestidas integram a luta por respeito à diversidade no Carnaval de Fortaleza

No contexto de um país e de uma região líderes em violência contra minorias sexuais - em 2017, um total de 179 travestis e transexuais foram assassinados no Brasil, 69 apenas no Nordeste -, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o coletivo faz do ciclo carnavalesco "mais um espaço para uma discussão que é diária". "Esse momento é a extensão do que a gente faz sempre. Enquanto pesquisadores, é muito importante estar na rua, viver a cidade enquanto Travestidas, para entender os problemas que acontecem durante o resto do ano", afirma Rodrigo, ressaltando, ainda, o que considera a violação mais comum da festa.

Corpo

"O que tem de mais forte no Carnaval é o desrespeito com o corpo do outro. Todo mundo tem essa sensação de liberdade, que é muito poderosa, mas nem todos sabem lidar com ela. Tanto com as mulheres cis (que nasceram com sexo biológico feminino) e trans como com as drags e 'bichas' afeminadas, é como se o corpo estivesse disponível para o toque de qualquer um", critica o artista, apontando para um dos motivos que têm feito crescer a quantidade de blocos formados exclusivamente por pessoas LGBT, em Fortaleza.

Um deles é o Bloco Cola Velcro, formado neste ano a partir da união dos grupos Tambores de Safo, Batuque de Odê e TPM - trio que valoriza a musicalidade composta apenas por mulheres lésbicas e bissexuais. "Nosso bloco é não só para discutir politicamente, mas criar entre nós um espaço seguro pra curtir a festa - não é que tenhamos feito uma bolha, mas encontramos apoio uma na outra", explica a brincante Letícia Abreu, 23, uma das integrantes do Cola Velcro.

Artivismo

Por meio do que definem como "artivismo" (arte + ativismo), as musicistas tomaram a Praça da Gentilândia, no Benfica, como espaço cativo para diversão e luta, durante o último pré-carnaval - tudo com recursos próprios, já que não conseguiram apoio no edital ofertado pela Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor). "A ideia é a gente se unir na arte, principalmente a do tambor. Assim, por meio de paródias, nós denunciamos as questões do assédio sexual e do estupro coletivo, tão comum nas músicas", descreve Suely Bezerra, 37, ressaltando que as causas LBT e feminista se encontram nas discussões do bloco.

"O Carnaval é um espaço onde acontecem violências de vários tipos, não só em relação às lésbicas, mas às mulheres como um todo. Um dos nossos papéis é não só fazer uma festa, mas dizer que ela também é ferramenta de transformação", destaca a professora Jéssica Pereira, 24, que também compõe o Cola Velcro. "As mulheres veem que existe um lugar e começam a vislumbrar que é possível tocar tambor, ir pra rua, demonstrar não só a sexualidade, mas a existência. Porque isso é nossa identidade, é como a gente existe no mundo. E se os espaços públicos nos são cerceados, nós resistimos e mostramos que ocupá-los é possível. Isso pode ser um ponto multiplicador", conclui.

Ocupar todo e qualquer espaço, como opina Rodrigo, é uma forma não só de impor o respeito, mas naturalizá-lo e produzir "lugares de encontro". "Nossa presença é uma forma de questionar. Precisamos desmistificar, sair dos nossos guetos, frequentar as ruas juntos, em vez de fugir delas ou encontrar as nossas. Ter nos blocos travestis, trans homens e drags com suas famílias, uma explosão de diversidade, é muito importante. Não é só sobre 'esse é o Carnaval LGBT', não. Esse é o Carnaval de todo mundo", frisa o artista.

Para o coordenador do Centro de Referência LGBT Janaína Dutra, Tel Cândido, "a importância que o carnaval adquiriu ao longo do tempo como espaço de sociabilidade, expressão e visibilidade da população LGBT no Brasil" é notável, mas, paradoxalmente, "ao mesmo tempo em que favorece a resistência e a visibilidade de performances que questionam os padrões de gênero e sexualidade, a festa reflete também os conflitos sociais da opressão heteronormativa", já que "continuamos a contabilizar números recordes de assassinatos e outras violações de direitos" da população LGBT.

Segurança

A conjuntura é, sem dúvidas, resultado de uma cultura ainda intolerante, que permeia todos os setores da sociedade, inclusive o da segurança pública - fato que se evidencia em episódios em que pessoas LGBT têm assistência dificultada ou até negada. Para minimizar a problemática, garante o titular da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para LGBT, Narciso Júnior, o órgão capacitou cerca de 3.000 policiais para atendimento, neste ano. "Orientamos os policiais que estão indo para a rua sobre como tratar a população LGBT, como se reportar a uma travesti e a homens e mulheres transexuais, para que eles entendam que têm que respeitar a identidade de gênero dessas pessoas".

Apesar disso, o gestor ressalta que o trabalho a ser priorizado neste Carnaval é a divulgação dos mecanismos de denúncia. "Além dos canais de direitos humanos, fornecemos orientações via Facebook (facebook.Com/coelgbtce), para que a população não se cale diante de qualquer situação de preconceito ou discriminação", pondera, almejando uma atitude que já é intrínseca a quem faz da folia espaço-tempo de luta - como Taís Rocha, 25, percussionista do bloco Cola Velcro.

"É uma luta que não tem sido travada só nesse período. Ocupar espaços dentro da arte, de uma cultura que não viole os nossos corpos e respeite as nossas identidades, é parte do nosso artivismo", conclui.

Serviço

Canais para denúncia

Ouvidoria Geral do Estado–155
Disque 100 – Direitos Humanos

Entrevista com Evaldo Lima - Secretário de Cultura de Fortaleza 

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A participação de blocos militantes é, de alguma maneira, incentivada?

Nós trabalhamos para que este Ciclo Carnavalesco tivesse a marca do respeito e da diversidade. Alguns blocos têm essa característica de militância mais intensa, como As Travestidas e o Damas Cortejam, que deixam muito claro que apoiamos todas as formas de amor e afirmação do ser e de gênero, e que é preciso evitar qualquer tipo de violência, seja ela simbólica ou real. Também tentamos fortalecer a cultura identitária através dos afoxés e maracatus, que mostram toda essa marca de resistência negra em dois dias do carnaval, na avenida Domingos Olímpio.

Como a Secultfor trabalha para minimizar os casos de violência?

Nós procuramos realizar várias campanhas educativas, porque o respeito é uma questão cultural. A tolerância é essencial, para que não acabe em atos de sexismo, machismo e homofobia. Mas não podemos nos eximir da responsabilidade coercitiva que o Poder Público deve exercer. Durante o período que antecede o Ciclo Carnavalesco, nos reunimos com atores como a Polícia Militar e o Poder Judiciário para que possamos orientar e construir um carnaval de respeito, amor e paz.

Como o Carnaval pode ser espaço-tempo para defesa de causas sociais?

Eu acredito que essa festa pode ser de afirmação da cidadania, do direito, do acesso à cultura de forma ampliada e livre. Do respeito ao amor nas suas diferentes manifestações, e à ocupação qualificada de todos os espaços. O carnaval é não só um lugar de folia e alegria, mas também de conscientização.

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