Reportagem A força da devoção

Herança paterna

Zuca Félix, do Cariri, tem fama de rezador. Devoto segue tradição transmitida pelo pai (Fotos: Fernanda Siebra)
00:00 · 18.08.2018 / atualizado às 16:16 · 19.08.2018 por Germana Cabral - Editora

— Vaqueiro, agricultor, guarda municipal aposentado, tocador de pandeiro, triângulo e zabumba. São muitas referências a Zuca Félix, contudo nenhuma é mais forte do que a fama de bom rezador. Aos 77 anos, ele prossegue a missão transmitida pelo pai, Antônio.

Devoto de Nossa Senhora Aparecida, São Jorge e, é claro, do "Padim Ciço", passa os dias entre a casa da Ladeira do Horto e a do Sítio Cipó, separadas por quatro léguas.

Nascido e criado na vizinha cidade do Crato, seu Zuca Rezador se mudou para Juazeiro do Norte há 25 anos. "Eu tinha sete irmãos, mas tudo o que meu pai queria fazer era mais eu. Ele trabalhava de vaqueiro. Quando vim pra cá, pai veio mais eu, e ele me disse: 'olha essa missão que tenho, no dia que Deus me levar, você vai ficar cumprindo ela".

A profecia virou realidade antes mesmo de seu Antônio falecer. "Tá com uma base de uns 15 anos que comecei a rezar. Chegou uma mulher lá em casa, pai já tava meio fraquim, com 85 anos, aí ela disse: 'seu Antônio, tô com os bichos tudo doente". O pai, então, mandou Zuca lá na condição de que se não resolvesse, iria ele mesmo rezar nas 80 cabeças do rebanho. Depois, a mulher retornou e disse: "Seu Antônio, seu menino sabe mais do que o senhor, os bichos já estão tudo bom. O senhor reza em todos, ele só rezou em um".

Por foto

Com a atuação bem-sucedida, Zuca passou a benzer gente também. Atende na sua casa. Por vezes, usa o raminho de planta, outras, o cordão de São Francisco, indicados para tirar encosto.

A pessoa, contudo, nem precisa estar presente. Pode ser solicitada por terceiros. "Uma mulher da Paraíba pediu até pelo amor de Deus. Depois que o marido morreu, teve uma depressão, ficava trancada no quarto direto. Meu vizinho trouxe a foto, o nome dela, perguntei de onde era ela e rezei. Com três dias, ela ligou dizendo que naquela noite mesmo, se levantou, fez a janta".

Em uma viagem a Juazeiro, a senhora fez questão de agradecê-lo pessoalmente: "Ela me disse que'foi um milagre de Deus, pois só Deus mesmo que mandou o senhor pra me salvar desta situação, pois estava de um jeito que não tinha saída pra mim'".

Missão

Seu Zuca perdeu as contas de quanta gente atendeu, porém tem ciência de sua missão: "Eu não sabia de nada, mas depois que meu pai morreu eu fiquei no mesmo rojão".

Quando alguém lhe indaga o valor da reza, responde que nada deseja em troca: "Se eu estou cumprindo uma missão, vou cobrar o quê? Tenho de fazer por uma caridade. Aí chega uma pessoa e diz 'seu Zuca tô doente, eu quero que o senhor me reze, que o senhor me cure. Aí eu digo que eu não sei curar, eu sei rezar, curar quem cura é Deus, que nós não sabe curar ninguém. Ninguém vende as palavras de Deus. Deus não andou ganhando dinheiro pelo mundo".

1

Desde os 19 anos, é casado com dona Odete, conhecida como Albertina, com quem tem cinco filhos, quatro mulheres e um homem. Deles, a caçula, Maria da Penha, promete seguir os passos do pai e avô: "ela já sabe se defender de um bocado. Ela é inteligente, uma pessoa 100%. As minhas filhas tudim. Nenhuma deu trabalho".

Sobre os herdeiros, diz, orgulhoso, que fez questão de incentivá-los a estudar: "Nunca fui à escola, meu pai era professor, mas à noite, pros adultos. Eu dormia cedo e meu pai dizia que não adiantava estudar. Vai servir pra quê? Limpar mato com um livro na mão (risos). Era desse jeito. Com meus filhos era diferente, fiz tudo pra eles estudarem. Não quero nenhum como eu fui criado, se cria cego, quem não estuda, é cego". Essa foi a única queixa do pai, a quem devota profundo respeito.

Promessas

Encontramos seu Zuca em frente à casa dele, conversando com amigos, por volta de 16 horas de uma sexta-feira, bem próximo à "Pedra do joelho", onde o entrevistamos. No local, segundo a pesquisadora Annette Dumoulin, os romeiros interpretam os dois buracos que se encontram na pedra como sendo a marca do joelho de Nossa Senhora e o pezinho do Menino Jesus. "O olhar do romeiro procura sinais da presença do sagrado no Santo Juazeiro", complementa.

1

Seu Zuca não foge à regra: "Sou devoto do meu Padim Cícero, de sangue e alma. Já fiz muitas promessas para ele". Em uma delas, diz que curou o cisto no nariz: "Com três dias, tava na roça, ficou aquele negócio chamegando no nariz e pulou, do tamanho de uma fava. Vim, paguei minha promessa, 12 horas em ponto, dei a volta na estátua todinha, largou o couro do joelho, mas paguei".

Para agradecer outras graças, usa vestimenta especial a cada dia 20 do mês. Nessa data, é costume devotos vestirem preto numa reverência à data de morte do "Santo do Juazeiro" (20 de julho de 1934).

Até o ano passado, também vestia-se com a cor da batina do padre. Mas resolveu trocar para calça comprida e camisa na cor branca. "Me chamam de enfermeiro, eu não ligo. Branco é paz". Na despedida, recebemos a bênção de seu Zuca: "Deus na frente e paz na guia, Virgem Maria é a sua companhia".

Mais DOC A força da devoção

> Palavras de fé
> De porta e corações abertos
> Missionário de Deus
> Tradição ancestral

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.