Reportagem Cadeira de roda motorizada

Guiadas por expressões faciais

00:00 · 17.06.2017 / atualizado às 01:06

Acionar o botão é um gesto muito simples e corriqueiro no nosso cotidiano, dominado principalmente pelo uso da tecnologia, mas nem todas as pessoas conseguem "alcançar" o tal botãozinho. Ao olhar para esse público que, por razões diversas, não possui movimentos nas mãos e pernas, o pesquisador cearense Paulo Gurgel Pinheiro desenvolveu ferramenta capaz de controlar a cadeira de rodas motorizada por meio de um simples sorriso.

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Esse é o primeiro programa de computador do mundo que consegue reconhecer até nove expressões faciais, segundo o pesquisador. Ao manifestar um beijo, por exemplo, um sorriso ou mesmo um levantar de sobrancelhas, é possível gerar os comandos que controlarão a cadeira de rodas, bem como andar para a frente, para trás, girar à esquerda ou à direita.

O Wheelie 7, como foi denominado, não é uma cadeira de rodas, mas um kit completo para ser adaptado à mesma em apenas 7 minutos. O invento garante maior autonomia, não somente ao usuário da cadeira de rodas, mas também aos familiares e aos cuidadores.

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O programa wheelie, criado Paulo Gurgel Pinheiro (à esquerda), ainda é um protótipo, mas nos EUA o kit já é vendido por 3 mil dólares. Para cada kit comercializado, um é subsidiado a preço de custo para um cliente no Brasil. Há opção de o cliente aderir a um plano de assinatura de 299 dólares/mês enquanto usar o sistema. Nesse caso, o kit é gratuito 

A mobilidade é algo maior do que se imagina. "Não é só sair do ponto A e ir ao ponto B. É ser capaz de se impor através do corpo, de liderar um grupo e não ser liderado. É ser capaz de sair de uma sala só porque está muito iluminada ou barulhenta, é ser capaz de ir até uma varanda para aproveitar a vista da sacada. Essas ações, entretanto, quando precisam da ajuda de alguém, comprometem a autonomia, a autoestima e bem-estar", alerta Paulo Gurgel Pinheiro, pós-doutor em Engenharia Elétrica pela Universidade de Campinas (Unicamp).

Sorrisos e beijos

Por esse motivo, usar a primeira vez o Wheelie é sempre uma experiência inusitada. "Nós ajustamos a expressão do 'beijo' para fazer a cadeira de rodas ir para frente e a do 'sorriso' para fazê-la parar. Quando a cadeira se movimenta, sem a ajuda de ninguém, a emoção do usuário é tão grande que ele começa a sorrir, e então a cadeira para. Após alguns minutos de prática, entretanto, ele já começa a controlar as emoções", tranquiliza Paulo.

Desde a graduação em Ciência da Computação pela Universidade de Fortaleza (Unifor) até o pós-doutorado em robótica assistiva, Paulo pesquisa e investe neste segmento, reforçando que existe um mercado inexplorado. São pessoas tetraplégicas, vítimas de doenças neurodegenerativas, AVC, dentre outras que não possuem coordenação nas mãos, portanto não conseguem movimentar o joystick de uma cadeira de rodas motorizada.

"Quando o nosso sistema entra em jogo, essa realidade muda. É gratificante ver a mudança na vida do usuário e de seus familiares. Eles se tornam mais produtivos e felizes. Para cada usuário do Wheelie, uma família é impactada. Esse é o nosso lema", analisa Paulo.

Caminhos traçados

Ao concluir o pós-doutorado, Paulo estava desenvolvendo uma tecnologia para aviões de caça na Suécia. Ele analisaria as expressões faciais e a movimentação de olhos dos pilotos durante a missão. Assim, descobriria para onde o piloto olhava e o seu grau de concentração e esforço.

Já no aeroporto, para embarcar no novo desafio, avistou uma menina numa cadeira de rodas, sem movimento nas mãos, mas que apresentava expressões faciais marcantes. Decidiu mudar o rumo e, no lugar de usar a tecnologia para analisar expressões faciais de pilotos, resolveu aplicá-la para transformar a vida de pessoas, a exemplo daquela garota do terminal aéreo. (CP)

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Os primeiros usuários do Wheelie 7 estão na Califórnia (EUA). São pessoas que sofreram traumas na coluna vertebral e hoje estão tetraplégicas, pacientes com doenças neurodegenerativas, como a ela (esclerose lateral amiotrófica) e vítimas de AVC

Inteligência artificial para o bem-estar

Em maio de 2016, Paulo Gurgel Pinheiro e o irmão Cláudio Gurgel fundaram a Hoobox Robotics para desenvolver o Wheelie 7. Um ano depois, contam com uma equipe de seis pessoas entre cientistas da computação, engenheiros, fisioterapeutas e neurologistas.

A Hoobox é uma startup especializada em tecnologia 3D e inteligência artificial para resgatar e garantir o bem-estar das pessoas. Tem capacidade de detectar e reconhecer não só expressões faciais, mas comportamentos humanos, como cansaço, sonolência, embriaguez, graus de depressão e até 10 níveis de dor física, usando a análise facial.

Junto a um grande hospital de São Paulo já está validando o monitoramento de pacientes de UTI. A tecnologia hoje é capaz de dizer o nível de dor do paciente, se ele está dormindo ou acordado e a sua posição do corpo.

A startup está incubada na Unicamp e no Campus São Paulo - Google Space, na qual participa do processo de aceleração da Startup Farm. Atualmente, passa por um processo de internacionalização para operar no Vale do Silício a partir de outubro, na cidade de Sacramento na Califórnia.

O mercado norte-americano é maior do que o brasileiro, mas existe um potencial no Brasil também. O número de cadeirantes vem aumentado, e as cadeiras de rodas motorizadas começam a se tornar mais populares. O Wheelie ainda é um protótipo, mas nos EUA é vendido por 3 mil dólares.

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