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Gravidez na adolescência: realidade presente no Ceará

Embora os índices nacionais e regionais apontem redução nos últimos anos, a gestação precoce é permanência nos relatos e vivências femininas no Ceará

00:00 · 28.07.2018 / atualizado às 10:06 por Cristina Pioner - Repórter
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Jovem de 16 anos atendida no Ambulatório da Criança e do Adolescente da Maternidade- Escola Assis Chateaubriand (Meac) ( Foto: Fabiane de Paula )

Nem criança nem adolescente. Nem menina nem mulher. Com apenas 16 anos, Vanessa começou a ser “mãe” aos 9, quando passou a cuidar do irmãozinho para os pais poderem trabalhar. A aluna do 3° ano do Ensino Médio, estudiosa e responsável, que ainda usa aparelho nos dentes e óculos de grau, não esconde a paixão pelas bonecas e pela barriguinha de cinco meses. “Não estava nos planos, mas aconteceu”, revela enquanto finalizava o enxoval do bebê por meio de um projeto social para gestantes promovido na Barra do Ceará.

Também de 16 anos, Mônica nos concedeu entrevista dias antes do nascimento de Cecília, enquanto era atendida no Ambulatório da Criança e do Adolescente da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (Meac). “Serei uma mãe bem dedicada. Já cuidei de um bebê que morava perto da minha casa. Sei dar banho, trocar fraldas. Não vejo a hora de ela nascer. Não tenho nem palavras”, diz a menina de lacinho nos cabelos longos que mora com o namorado e a sogra. Conta que usava injeções anticoncepcionais, mas terminou engravidando nas idas e vindas do relacionamento de três anos com um jovem de 18 anos. 

Vanessa e Mônica fazem parte das estatísticas de adolescentes que engravidaram precocemente em 2018 no Ceará. Em 2017, por exemplo, dentre as cearenses grávidas, 17,8% representavam um grupo de meninas entre 10 e 19 anos, segundo os dados da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa). Esse percentual, se comparado ao de anos anteriores, revelou uma pequena queda nos registros de gravidez equivalentes a essa faixa etária, ou seja, 19,1% em 2016 e 19,5% em 2015. 



Cearenses

Em um período de 10 anos (2005 a 2015), conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrou-se aumento no número de cearenses que se tornaram mães, praticamente em todas as idades. Embora tenha ocorrido um recuo na faixa etária de Vanessa e Mônica (15 a 19 anos), houve um aumento nos registros de gestantes com idade inferior a 15 anos. "Elas estão engravidando menos, porém mais cedo. Já atendemos uma paciente de apenas 10 anos grávida", observa Dra. Maria Tereza Dias, chefe do Ambulatório da Criança e do Adolescente da Meac. 

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Esse fato também é preocupante na avaliação da médica. Segundo Dra. Maria Tereza, os casos de gestantes menores de 15 anos muitas vezes estão associados à vulnerabilidade deste público, bem como a prática de violência física, sexual, inclusive de estupro. Além do mais, os riscos para as mamães e os bebês precoces são bem maiores e comuns neste percurso gestacional.

Dos partos anuais realizados pela Meac, em média de 20% são em adolescentes, percentual muito próximo ao da média nacional que é em torno de 18%, segundo Maria Tereza com base nos dados do Ministério da Saúde de 2015. “Aqui estamos um pouco acima da média por se tratar de um hospital de referência, com serviços especializados para este público”, explica. 

O mais importante, na opinião de Maria Tereza, é investir no planejamento familiar, com a disseminação de informações essenciais, atendimentos específicos, bem como a promoção dos métodos contraceptivos. Acredita-se que tais medidas poderão reduzir de forma significativa os índices de gravidez precoce. Relatório conjunto divulgado em fevereiro deste ano pela Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA)confirma que na maioria dos países, as adolescentes sem acesso à educação ou apenas com educação primária têm quatro vezes mais chances de engravidar do que as meninas com ensino médio ou superior. 

Os nomes das adolescentes com menos de 18 anos citadas nesta reportagem são fictícios 

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