Reportagem Praia de Tatajuba

Gleiciane Ricardo: artesã sob os ventos da felicidade

00:00 · 07.10.2017 / atualizado às 11:07 por Textos: Cristina Pioner e Germana Cabral/Fotos: Helene Santos e Cid Barbosa

No litoral Oeste do Ceará, há um lugar paradisíaco, com mar, ventos, dunas, lagoas e coqueirais. Diante de tanta beleza, os búzios, que ficam na areia quando a maré baixa, passam despercebidos pelos frequentadores. Eles, no entanto, valem ouro para a artesã Cleiciane Ricardo, 29 anos, residente na Praia de Tatajuba, uma vila de pescadores a 27km de Camocim. Das talentosas mãos, surgem luminárias, abajures, cortinas, sinos da felicidade, dentre outras peças admiradas por turistas, sobretudo os estrangeiros que visitam o local e a vizinha Praia de Jericoacoara.

A iniciação ao trabalho artesanal aconteceu ainda na infância quando ajudava a avó Natividade a fazer redes de pesca e fuxico. Há cerca de 10 anos, começou a produzir as peças com búzios e também escamas de camurupim. Desde então, foi agregando outros materiais, a exemplo do bambu, e criando modelos singulares. Já produziu, em três tardes, um lustre com escamas de 3 metros de comprimento. Era encomenda de um turista: "Ficou muito bonita, e eu consegui vender por R$ 1.800,00". Esse foi o artigo com valor mais alto já negociado. O mais barato custa R$ 25,00.

Gleiciane, como prefere ser chamada, tem rotina atribulada para quem mora em lugar tão pequeno. Às 6 horas, já está na pousada Portal do Vento, onde trabalha há 9 anos. Faz um delicioso café da manhã para os hóspedes, dentre outras atribuições. Às 13 horas, está de volta para casa e, em seguida, inicia a produção, ao lado das amigas Maria do Livramento Araújo, 34 anos, e Maria Edinete Pessoa Pontes, 31.

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Gleiciane (centro), Maria Edinete (blusa rosa) e Maria do Livramento (de óculos) integram o grupo artesanal Arte Nativa Original (Foto: Cid Barbosa) 

Há dois anos, as três artesãs formam o Grupo Arte Nativa Original: "Não estava mais conseguindo sozinha dar contar das encomendas. Convidei as meninas para a gente trabalhar juntas e está dando muito certo. Nossos principais clientes são os turistas estrangeiros", afirma Gleiciane, que também negocia pela internet (Mercado Livre) e já enviou peças para outros estados. Se for preciso, entram pela madrugada para concluir um trabalho. Também são elas que colhem os búzios na praia. Quando a maré está baixa, passam cerca de três horas nesta tarefa.

No Ceará, os artigos podem ser comprados na pousada onde trabalha, cuja proprietária reservou espaço para exposição, e também em Jericoacoara. Anualmente, participam do Encontro Sesc Povos do Mar, realizado na Praia de Iparana (Caucaia), onde exibem diversos modelos.

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Gleiciane Ricardo com as filhas Érica, 12 anos, e Sara, 6 anos (Foto: Cid Barbosa)

É visível a liderança de Gleiciane, que estudou até o 9º ano do Ensino Fundamental. Desde os 16 anos, é casada com o pescador José, e tem duas filhas, Érica, 12 anos, e Sara, de 6 anos. Além do artesanato e do trabalho na pousada, faz doces cujas receitas aprendeu com a avó. O de banana com canela é delicioso. A pasta de amendoim é o preferido dos gringos. E ainda é marisqueira. Quando sobra um tempinho, vai pegar siri e sururu. Toda venda é bem-vinda ao orçamento doméstico.

Nascida e criada na Praia de Tatajuba, fala sobre a paixão do lugar onde vive. "O que mais gosto é do convívio com a natureza. O espaço que é livre, a gente pode andar, ir à praia, é bem tranquilo". E abre um sorriso ainda maior quando se refere ao artesanato: "Tenho muito prazer quando um cliente gosta. Fico morta de feliz, nem tanto pelo dinheiro, mas pelos elogios".

Serviço: 

Gleiciane Ricardo (artesanato) - 88 99287.2787

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