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Gargalo da colheita pode se agravar nos próximos anos

Para Rita Granjeiro, produtora de coco há mais de 20 anos, a automatização da colheita ainda não se firmou nesta área
00:00 · 29.07.2017

Produtora de coco de Paracuru, a cerca de 88,9 quilômetros (km) de Fortaleza, há mais de 20 anos, Rita Granjeiro, 54, nunca enfrentou uma seca. Com medição própria, a proprietária da Fazenda Granjeiro contabilizou neste ano, até o dia 19 de junho, um total de 1.818 milímetros (mm) de chuva no local. O menor nível a que as precipitações chegaram na fazenda nos últimos seis anos foi 795 mm, em 2012, quando teve início a mais recente seca no Ceará.

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Mas nem por isso Rita Granjeiro deixa de vislumbrar dificuldades para ela e os outros investidores do setor. O principal desafio, segundo ela, está no processo que é fundamental para que o item saia da natureza rumo aos outros elos da cadeia produtiva: a colheita. Nessa etapa, afirma Rita, a automatização ainda não se firmou e seria muito importante, sobretudo para a retirada dos frutos de coqueiros do tipo anão com mais de 20 anos de idade, que chegam a atingir alturas na casa dos 10 metros.

"O cacho do coco é muito pesado. Ele não pode ser retirado e cair. O colhedor tem que segurá-lo até ele chegar bem próximo ao chão. Isso requer homens de muita força. Não é para todos. A cada dia, está mais restrita a profissão de colhedor. Para mim, esse vai ser o grande gargalo da cultura do coco. Eu espero que as grandes indústrias e os grandes produtores que estão entrando nessa cultura agora consigam resolver esse problema", diz.

Se a idade produtiva do coqueiro anão chega a 40 anos, na Fazenda Granjeiro eles são arrancados ao atingir metade desse período. Não há quem consiga colher de coqueiros tão altos. "Temos que arrancar plantas com 18 anos, 20 anos para renovar. Eu ainda tenho a pessoa que colhe o coco com 18 anos, mas, daqui a pouco, eu só vou ter quem colha com 10 anos", lamenta a proprietária.

"Há ferramentas com as quais eu mesma já consigo colher um cacho de coco, mas elas são muito lentas. Os filhos dos meus funcionários não vão colher meu coco. Então, quem serão os colhedores? Essa é a grande dificuldade. Eu não consigo ver como deixar essa fazenda para os meus filhos com a cultura do coco. Eu diria que isso irá durar uns 15 anos no máximo, se não conseguirem máquinas. Ou então nós vamos disputar um colhedor a preço de ouro", prevê ela.

Produção

No início, em 1996, a Fazenda Granjeiro tinha apenas 1.300 coqueiros, em cerca de oito hectares. Hoje, são cerca de 10 mil plantas, em 65 hectares. "Há 20 anos, houve um 'boom' na plantação do coco na Paraipaba. Apesar de nós estarmos no município de Paracuru, na Paraipaba era a sensação do momento. Todo mundo queria plantar coco", recorda Rita Granjeiro.

Atualmente, são 2 milhões de frutos produzidos por ano. A expectativa é obter um crescimento de 10% neste ano, devido ao acréscimo de 1 mil coqueiros feito à área há dois anos e meio. Com isso, o coqueiral de Rita Granjeiro chegou às últimas terras disponíveis na fazenda.

As colheitas são realizadas às segundas, quartas e sextas-feiras. Em cada um dos dias, caminhões levam da Fazenda Granjeiro 10 mil cocos, diretamente para a fábrica da Ducoco, em Itapipoca. Toda a produção de Rita é destinada à empresa desde 1997. "A nossa água já sai 100% em Tetra Pak da fábrica de Itapipoca. Tem embalagem que já sai daqui com a marca de fora (do País). Não sai mais nem com a marca Ducoco, sai com a marca da empresa que contratou", diz.

Mudança

Até o ano passado, a Ducoco pagava os frutos da Fazenda Granjeiro por unidade. A partir deste ano, passaram a comprar por litro de água de coco. "Hoje, sai a R$ 1,37 por litro. Para eles, é melhor assim", diz Rita. Cada coco enviado à empresa tem entre 400 ml e 500 ml de água.

"Você ganha muito dinheiro com a cultura do coco? Não. Mas o risco é muito pequeno. É uma cultura muito boa para o pequeno produtor, que não pode perder. Eu não poderia arriscar uma outra cultura que tivesse um ciclo muito curto ou que não tivesse indústria para absorver", finaliza a produtora.

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