Reportagem

Futebol dos excluídos

Apenas uma cerca de madeira separava os jogadores da torcida
00:00 · 03.06.2017

Os primeiros anos do futebol no Ceará tiveram como característica uma completa exclusão das classes menos favorecidas. Os times, ligas e associações permitiam a participação apenas dos brancos e ricos nos seus eventos.

LEIA MAIS

Campos esquecidos

A bola rolava em todo lugar

Infográfico: confira linha do tempo do futebol no Ceará 

O dia que o torcedor virou goleiro

Parte da história

Porém, os registros históricos mostram que, mesmo o esporte sendo patrocinado pelas elites, as classes dos trabalhadores de grandes empresas instaladas na Capital começaram a organizar por conta própria suas equipes.

Se as mais ricas jogavam no Campo do Prado, onde hoje é o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), no bairro Benfica, os times compostos de pessoas com menores condições financeira faziam suas partidas na Praça Fernandes Vieira, atual Praça do Liceu e, mais tarde, no Campo do Alagadiço, onde hoje é a Igreja de São Gerardo, na Avenida Bezerra de Menezes.

Como no início do século os registros fotográficos eram restritos aos mais ricos, pouco se tem de material fotográfico e histórico sobre o Campo do Liceu.

A Liga Cearense de Football, fundada em 1912, com inclusão do Maranguape, primeiro time filiado fora da Capital, passou a se denominar de Liga Metropolitana em 1915. A Liga tinha uma separação por hierarquização: as equipes dos jovens abastados na primeira divisão jogando no Campo do Prado e uma segunda divisão por pessoas de menor condição financeira, que atuavam no Campo do Liceu e no Campo do Alagadiço.

Virou igreja

Quem frequenta a Igreja de São Gerardo, na Avenida Bezerra de Menezes, nem imagina que nos arredores do templo religioso já existiu um dos principais palcos de futebol da cidade. Inaugurado em 22 de abril de 1923, o Campo do Alagadiço dividiu por muitos anos com o Campo do Prado o papel de protagonista no futebol cearense.

Com o Campo do Prado fechado para reformas e melhoramentos, o Alagadiço recebeu as finais do campeonato cearense nos anos de 1924 até 1926.

tab

Passaram pelo Campo do Prado times que marcaram a memória do torcedor cearense Foto: acervo Pedro Simoes

Feito pela Associação Desportiva Cearense, instituição depois denominada Federação Cearense de Desportos e que hoje chama-se Federação Cearense de Futebol (FCF), o Campo do Alagadiço foi cenário do início da rivalidade entre Ceará e Fortaleza. Com jogos cada vez mais duros e cheios de provocações, o Fortaleza conquistou os cearenses de 1923/24/26 e o Ceará, em 1925, no local.

"Com a fundação da Liga em 1915, os primeiros times começaram a se organizar e os campos foram se desenvolvendo. O campo do Alagadiço inicialmente pertencia à ADC, mas depois outros times foram arrendando o local. O Maguary, que na época estava em plena atividade foi um deles", explica o pesquisador Eugênio Fonseca.

O domingo era o dia escolhido para as partidas dos campeonato e, por muitas vezes, a Capital recebeu dois jogos no mesmo dia. Sendo escolhido o Campo do Alagadiço para dar esse suporte como campo auxiliar da Capital. "Aconteceu de ter jogos no mesmo dia no Campo do Prado e no Campo Alagadiço. Às vezes era da mesma Divisão e, como eram poucos times, eles acabavam mesclando os jogos", conta Eugênio.

tab

O goleiro do Fortaleza, Pedro Simoões, em uma de suas exibições em campos sem estrutura alguma 

Um outro marcante espaço da cidade que já não faz mais parte da vida esportiva da Capital é o Estádio Américo Picanço, mais conhecido como Campo do América. Inaugurado em 1941, ele foi sede de partidas do Campeonato Cearense de 1945 a 1951. Atualmente, o Campo do América deu lugar à Igreja do Líbano, localizada na Rua República do Líbano, no bairro Meireles. O que se conhece como Campo do América atualmente foi apenas uma homenagem dos moradores de casas localizadas na Rua José Vilar que deram ao antigo estádio, mas o endereço original não é aquele, destacam os historiadores.

Palco de final

Presente no cenário esportivo até 1951, o Campo do América teve um dos auges quando recebeu, em 1945 a final do campeonato cearense, entre Ferroviário e Maguary.

"O campo recebeu esse importante jogo por conta do Estádio Presidente Vargas estar em obras. O título ficou com o Ferroviário e o tricampeonato do Maguary foi evitado", destaca Airton Fontenele.

Para receber o jogo, o Campo do América ganhou diversos materiais já usados no PV. Traves, pedaços de madeira para arquibancadas e estruturas de ferro foram levados para o local.

A história do declínio do campo se mistura com a próprio time do América. Campeão estadual em 1935, a equipe entrou em várias crises e encerrou suas atividades recentemente. Do local, restou apenas memória de quem jogou ou assistiu às partidas.

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.