Reportagem Histórias do desmonte

Frustração chegou primeiro ao campo

Seu Zé Cordeiro foi agricultor modelo e percorreu parte do Nordeste contando como conduzia a produção
00:00 · 20.05.2017

Quixadá. Mais que um projeto de futuro tecnológico e bons salários, a Usina de Biodiesel de Quixadá trouxe ao Semiárido cearense a certeza de apoio perene à agricultura familiar a partir da inserção desses produtores na cadeia produtiva do setor. Com a doação de sementes, a capacitação técnica e o uso de tratores gratuitamente tanto no cultivo da mamona quanto para as outras culturas associadas, além da compra garantida de toda produção, a Petrobras sinalizou que, enfim, a oportunidade de crescer havia chegado.

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Porém, menos de três anos após o projeto da mamona ser implementado, já se falava no fracasso dele. A adesão dos agricultores foi diminuindo e a produção não chegou a ser suficiente para tornar a oleaginosa a matéria prima principal da fábrica. Com a persistência da seca nos últimos cinco anos, o volume plantado despencou e, hoje, a mamona não passa de uma planta perdida no quintal das famílias de Quixadá e que, no máximo, desperta uma lembrança boa de um passado recente e confortável financeiramente.

"Foi com o dinheirinho que eu ganhava da mamona que eu consegui fazer uma poupança. Porque o feijão e as outras plantações dependem muito do preço para a venda. A mamona, não. Eu sabia que ia vender tudo e, por causa do apoio para plantar, tudo que eu ganhava era lucro", relembra a agricultora Maria Alcy Pereira dos Santos sobre o tempo em que usou 3 hectares, dos 22 que possui, para cultivar a oleaginosa.

Ela participou do primeiro grupo apoiado pela Petrobras ainda em 2007 - antes da operação da Usina - e ficou até o fim, em 2015. Pouco menos de um ano antes do anúncio da desativação, a estatal decretou o fim do apoio à plantação e fez do projeto mais uma política sazonal tão inconstante quanto o clima da Região.

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Sob o alpendre da casa construída com o dinheiro da oleaginosa, o casal de agricultores lamenta a falta de um apoio que os faça crescer 

Hoje, na terra de Alcy, as mamonas que precisou cortar para limpar o terreno servem de adubo para a imensa horta e o plantio de feijão, milho e palma forrageira. Só assim ela, a nora e a madrasta -responsáveis pela lida na roça - continuam recorrendo ao supermercado apenas para comprar arroz, açúcar e café. Os porcos, galinhas, capotes, pavões e carneiros suprem a necessidade da "mistura" nas refeições e as demais despesas são sanadas pelo marido, professor, e o filho, militar.

Destaque na produção

Além do apoio e o lucro garantido, o cultivo de mamona entusiasmava os agricultores pelas novas experiências trazidas, como recorda José Rodrigues de Sousa, o seu Zé Cordeiro. Aos 80, depois de mais de 60 anos de campo, ele percorreu boa parte do Nordeste contando e ouvindo relatos sobre como melhorar o cultivo da mamona.

"Acharam que eu era destaque e vieram aqui me convidar. Foi muito bom ver eles falando o jeito deles lá e eu falando do meu. Era um tempo que a gente via que o governo se preocupava com o sertão, né?", indaga, buscando apoio dos conhecidos ao redor dele, na comunidade de São Nicolau, em Quixadá.

Por lá, a maioria dos agricultores familiares optou pela mamona, mas com a estiagem e sem irrigação, todos tiveram a colheita cada vez menor no decorrer dos anos. Seu Zé Cordeiro também plantou 3 hectares e chegou a colher mais de 9 toneladas de mamona, quando o quilo da oleaginosa era cotado a R$ 0,90. No fim, com a produção da Bahia como referência - a Bolsa de Iraci -, o engenheiro agrônomo da Prefeitura de Quixadá, Antonio Pinheiro, relata que o preço baixou a cerca de R$ 0,60, deixando de ser vantajoso para os agricultores.

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Os pés de mamona perdidos no quintal de Maria Alcy são a lembranças do passado confortável que a cultura trouxe para a agricultora e sua família

"O que prejudica é o preço mesmo... Aqui, no sertão, a gente gasta que não é brincadeira. O pobre do agricultor só pode meter a cara e trabalhar quando vê uma coisa boa dessa. Se tem prejuízo, e nos dias que estamos aí, não dá pra continuar com uma lavoura que caiu o valor", reflete seu Zé Cordeiro.

Conquistas e perdas

Debaixo do alpendre construído com o "apurado da mamona", Juverlani Barbosa Alves e a esposa, Luísa Maria Batista de Almeida, esperam as vagens de feijão secar no quintal para dar continuidade ao trabalho de colheita do grão. Assim como Alcy e seu Zé, o casal tem os pés de mamona como algo inacabado na vida dos dois. "Os técnicos vinham aqui dizendo que 'as coisas estão melhorando, agora'. Aí eu pensei: 'olha, agora vai melhorar mesmo, mas fez foi acabar tudo... Eles foram embora de vez", lamenta, comparando ao tempo que gozou dos benefícios à rapidez "de um pensamento".

A roça, os animais e o quintal produtivo deles sanam o necessário para manter o casal de filhos, de 18 anos, o menino, e 14, a menina, mas o apoio para manter a plantação constante, assim como a renda familiar, ainda depende de projetos sazonais. "Eu tenho raiva porque eu não tenho ajuda, mas preguiça pra trabalhar, eu não tenho, não", dizem em coro, mostrando a sintonia de quem trabalha em parceria.

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