Reportagem Em Amontada

Francisca Tavares dos Santos: a mestra das rendas

00:00 · 30.09.2017 / atualizado às 13:19 por Textos: Cristina Pioner e Germana Cabral / Fotos: Cid Barbosa e Helene Santos

Na infância, Francisca Tavares dos Santos fiava algodão para ajudar no sustento da família. Por isso, não tinha tempo para fazer renda de bilros, artesanato tradicional nas praias de Amontada, onde morava com a avó Luiza. Menina danada, não se conformava com essa proibição. Resolveu aprender sozinha - e escondido - a tecer. No início, improvisou os instrumentos de trabalho.

"Eu via minha avó fazendo renda, e ficava prestando atenção. Eu ficava por aí, abaixadinha, por detrás dela, para aprender. Tinha uns seis anos. Quando ela estava dormindo, corria lá no cercado, pegava um coco meio grandim, né, aí furava com arame, para ser a almofada. Ia nos pés de pião-bravo, tirava as cabeças de pião para fazer os bilros, e pegava uns palitos da palha de coqueiro para fazer os pauzinhos...."

Até que queria comprar tecido para um vestido novo. Combinou com a dona da loja que iria pagar com a sua renda. Quando a avó descobriu e quis saber de onde a menina tinha conseguido dinheiro, ela revelou a negociação. "Tu sabe lá fazer renda onde, nunca te vi pegar em bilros", diz, imitando a voz da senhora e soltando uma gargalhada. Para cumprir o compromisso, contou com a ajuda de uma tia, mesmo contrariando a ordem da avó de que ninguém deveria ajudá-la a montar uma almofada de verdade.

Desde então, não largou mais o ofício. Virou uma paixão, e a almofada, a companheira de todas as horas. Considerada uma das rendeiras mais antigas em atividade na comunidade da Praia de Moitas, em Amontada, dona Chiquinha tem 72 anos. Muito habilidosa, executa todas as etapas, desde o desenho no papelão até a costura das peças. Faz gosto ver um trabalho dela finalizado. Além disso, está sempre de portas abertas para quem quiser aprender o ofício: "Não cobro nada pra ensinar, tenho o maior prazer. Se a pessoa chegar e disser: 'Eu queria fazer, mas não tenho linha. Eu dou até a linha", diz a artesã, que integra o grupo produtivo Arte Moitas, formado por rendeiras da localidade.

Encontramos com dona Chiquinha na casa onde mora, bem pertinho do mar. Da varanda, é possível vislumbrar a bela paisagem, com dunas e coqueiros. Lá, ela nos falou da vida difícil que, por "graça de Deus", ficou apenas na lembrança. "Quando mandei meu marido embora, porque peguei ele com uma irmã minha, fiquei com cinco filhos pra criar. Passamos muita fome. Deixava de comer pra dar pra eles". Mas, agora aposentada, diz ter melhorado muito de vida. Todos se criaram e já ganhou netos e bisnetos.

Ao chegarmos à praia para a produção do vídeo e das fotos, revela toda sua relação afetiva com o mar. Começou a cantar e dançar, porém fica completamente concentrada ao demonstrar como tece na sua almofada, com bilros herdados da avó. "Acho bonito e acho bom. Quando tô terminando uma, já fico pensado na próxima. Aquela é que vai ser bonita mesmo".

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