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Fortalezas sensoriais

00:00 · 15.07.2017 / atualizado às 10:10

Um reinante banho solar inunda pontualmente a capital cearense. Esta característica natural altera decisivamente o humor e prosa de seus viventes, contribuindo, assim, para estabelecer um cotidiano cravado pelas mais diferentes presepadas (ou narrativas). Para esta gente, historicamente capaz de vaiar até o sol, existe a notável possibilidade de construir reminiscências em meio a um céu cristalino. Entretanto, o poder de enxergar as muitas Fortalezas contidas nessa cidade ainda é uma lacuna à maioria da população.

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Estabeleça um exercício simples na memória e responda à modesta questão sobre qual lembrança você guardaria da Capital. Seria a brisa do mar ou o vaivém das figuras da Praça do Ferreira? Quem sabe as estátuas da famosa índia Iracema ou o vacilante verde que resta do Cocó. Podem ser, possivelmente, os bravios pescadores, o gosto do caranguejo da quinta-feira ou, até mesmo, o leonino pastel do Centro cujo recheio possui azeitona com caroço.

Se perder por entre os sentidos pode ser o único testamento urbano que resta para os 2.452.185 habitantes espalhados pelos 314,930 km2 de Fortaleza. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são precisos enquanto números, porém, pouco refletem o contexto urbano e social marcado por profundas desigualdades.

Entre o Jardim Jatobá e Meireles, do Ancuri ao Náutico, narrativas de abandono são consumidas diariamente. Existe vida, ou melhor, uma batalha por esta. Os cheiros, sons, texturas e imagens tornam-se sentimentos. Resta apreciar e registrar estes testemunhos e impressões. Perceber o outro em meio ao caos e compreender como estes cearenses lidam com as angústias, prazeres e matizes de viver nesta metrópole.

A única certeza, vale afirmar, é que trata-se de um recorte. Afinal, é impossível depreender toda uma cultura e toda uma gente em apenas um especial. Este registro necessita ser preciso, humano e cuidadoso. Desvendar Fortaleza ainda é um constante exercício seja para o jornalista, seja para o vendedor sósia de Belchior que trabalha nos arredores do Centro Dragão do Mar.

Para cada imóvel histórico derrubado arbitrariamente, para cada desrespeito com os desabrigados e famintos, para cada árvore assassinada e a infeliz estatística de desrespeito com o outro respirado nestas paragens, sobrevivem as resistências humanas de seres como Nirez, Gilmar, Thaís, Gentil, Thadeu, Lara e Bia. Alguns dos muitos responsáveis por desenhar sentido nessa cidade de muros altos.

Essas narrativas são percebidas desde o São Sebastião ao cinza predominante no Terminal do Papicu. São escutadas nos fones de ouvido dos transeuntes, entre os paredões de som e nas placas pedindo "mais amor".

Gerada e desenvolvida sobre os desígnios do forte holandês, edificação projetada para afugentar invasores e resistir a ataques, Fortaleza guardou, ao longo das décadas, estas características no corpo de seus habitantes. Que a exploram a partir de diferentes sentidos - literais e simbólicos.

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