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Fértil de luz, carente de reflexão

00:00 · 15.07.2017 por Antonio Laudenir - Repórter

No último ano, uma experiência vem desbravando imagens significativas do caos urbano de Fortaleza. A inventividade de capturar e ter para si a urbe própria uniu dois moradores da cidade. Através da iniciativa "Fortaleza Monocromática", o professor Davidson Rodrigues e o psicólogo Renan Matos registram somente imagens da Capital preto e branco. O trabalho rende-se entre minúcias e um apelo simbólico comovente.

Um é morador da Maraponga (Renan). Outro reside próximo à Praia do Futuro (Davidson). Pontos geográficos e sociais distintos, todavia encurtados virtualmente pelas redes sociais. Em comum, a paixão pelo olhar, por decifrar o enigma alencarino das desigualdades. Mesmo sem formação técnica na área, esgarçam o perímetro urbano em busca de histórias, retirando as cores da tal "Loira Desposada do Sol".

"Existe uma Fortaleza escondida, acompanhávamos várias páginas do Instagram que retratavam a cidade e víamos o mais do mesmo. Fortaleza está além disso, ela é os artistas, os moradores de rua, os monumentos, os prédios antigos e históricos", defende o realizador.

Inicialmente, desavisados sobre o território alencarino podem ter dificuldade em decodificar as imagens. Mas Fortaleza está lá, recortada em detalhes, nuances. Das ruas da Maraponga, passando pela Casa José de Alencar e o conhecido roteiro Dragão do Mar/Iracema, o olhar dos amigos desconstrói paisagens e desnuda elementos preteridos. A torre de iluminação do Estádio Presidente Vargas ganha contornos dramáticos. Um morador de rua tenta sobreviver em meio às comemorações natalinas na Praça do Ferreira. O contraste entre prédios e pessoas é revelado. Um cão morde a perna do dono.

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O fotógrafo Gentil Barreira: para ele, o Mucuripe é um dos lugares mais representativos da cidade Fotos: Helene Santos

Renan assevera o quanto o processo de exercitar o olhar é pontual para o projeto. Por meio dele, a fotografia deixa de ser um instrumento mecânico e possibilita reflexão sobre os destinos de uma gente, de uma cidade cerceada pelas indiferenças. Ao almejarem divulgar pontos de vista antes inexplorados, Renan e Davidson criam uma constante relação entre cotidiano urbano e experiência fotográfica. Como outras metrópoles do mundo, Fortaleza é também um enigma visual.

Encontros

Notório conhecedor destes labirintos, o fotógrafo Gentil Barreira cuida de uma trajetória mediada pelo fascínio de desvendar o movimento, a luz e o Ceará. Observador inquieto, adquiriu criança a instrução sobre seu ofício. Já adulto, atravessou os cursos de Arquitetura e Urbanismo e Comunicação Social. Da influência destas três áreas, moldou o trabalho e as pesquisas desenvolvidas até hoje.

O encontro teve a finalidade de uma conversa aberta sobre memória, cidade e imagem. O destino escolhido foi a Ponte dos Ingleses, fincada na Praia de Iracema, onde a caminhada prosseguiu até o fim das longarinas que sustentam sua estrutura. Passos certeiros até o ponto onde "Femme Bateau", escultura do amigo Sérvulo Esmeraldo (1929- 2017), como carinhosamente lembra Gentil, segue firme sob a companhia dos ventos e do mar.

A imagem do céu azul, infinito e cândido de Fortaleza é a primeira referência mencionada por Gentil, enquanto divide impressões do cotidiano de pedalar até o mar, comer uma tapioca e retornar para casa. Uma das maneiras de absorver o incômodo ambiente urbano dominado por carros, impaciência e a breguice da recente arquitetura. Sobre o ato de situar historicamente a alardeada "quinta capital do País" é direto. "O que seria da memória de Fortaleza se não existisse Nirez? Se não existisse uma maluca como a Patrícia (Patricia Veloso, fotógrafa e editora da Terra da Luz Editorial) que organizou livros sobre Fortaleza que contam mais de 100 anos dessa história?", reflete.

Sobre a incidência de luz da cidade, abre um sorriso farto. "É generoso, nenhuma outra cidade tem", explica. Cita as aventuras de Orson Welles (1915-1985) nas filmagens de "It's All True" em solo alencarino. "Filmava com sol alto, estava fascinado por essa característica da cidade", aponta.

"Guardaria um retrato de Mucuripe. Representa essa cidade. Existem os versos da canção. É toda uma riqueza, um universo", explica, convicto, quando perguntado sobre qual imagem guardaria de Fortaleza. De posse da máquina efetua o exercício de registrar. O sol vai se pondo e outra história foi contada sobre a cidade solar.

Images dos fotógrafos amadores Davidson Rodrigues e Renan Matos: cidade em preto e branco:

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