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Esperança é cinza

Agenor limpa sozinho o terreno para o plantio de feijão na zona rural de Canindé. Acredita que chova até maio. Foto: JL Rosa
00:00 · 18.03.2017 / atualizado às 11:11 por Melquíades Júnior - Repórter

Quando a Terra completa mais uma volta em torno do Sol, todos olham para o céu. A estação oficialmente dita verão, por ser chuvosa no Nordeste, vira inverno na sabedoria popular. Francisco Agenor, que olha para o céu e a televisão, dorme quando acaba o telejornal com a informação: "nuvens vindas do Oceano levam chuva para o Nordeste nessa parte mais escura do mapa, passando por Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba e norte da Bahia". Tenta encontrar Canindé, sertão central cearense, na tal parte mais escura. Ainda confia mais nos próprios sentidos do que na previsão, mas sempre dá um alívio quando elas se parecem.

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Com água na porta, sai 5h com enxada, café e água nas garrafas, a cara e a coragem para limpar um terreno de três hectares à margem da rodovia. Tira mato e pedra para afofar a terra que vai receber feijão-milho, feijão-milho, assim alternados em fileiras. Vai sozinho. Desistiu de ficar pelejando com os cinco filhos. Em 2016, Gerson, o mais velho, foi ajudar, mas saiu "entupindo" a terra plantada, por não reconhecer o plantio no chão em que estava pisando. Filho de peixe é o que quiser ser...

O que falta de gente para plantar sobra para colher. Carregar os sacos da colheita é a parte mais leve da agricultura. Com as nuvens pesadas se aglomerando em cima de Canindé, o que estava seco enche durante a noite. Agenor fez sua parte. "É invocado. Tem agricultor que diz que não vem limpar porque tá tudo seco. Aí depois que chove diz que não vai limpar mato agora que tá melado. Como é que pode?".

Em 2016, mesmo com as parcas chuvas, Agenor ainda conseguiu tirar uma saca e meia de feijão de corda. Não vende nenhum caroço. Guarda tudo em garrafas pet e com isso tem passado os invernos secos. Desse jeito não falta na panela. "Eu tendo, já não compro. Com que dinheiro? Vá comprar um quilo é oito, dez contos. Já me pediram pra vender, mas não vendo não. Depois que tiver faltando em casa não tem com que comprar".

Tirante os acomodados, Carlito Noronha, em Icó, bem mais ao Sul, é um agricultor que fica à espera do melhor momento porque, de tanto limpar o terreno para a chuva que não vinha, escolheu ter mais certeza que esperança para começar. É um dos 150 mil beneficiados para receberem 3 mil toneladas de sementes e sete milhões de mudas do Programa Hora de Plantar, do Governo do Estado. As últimas perdas desestimularam. Para cada saca aproveitada, trazia um tanto de decepção pelas outras tantas perdidas. "O cabra tem que ser forte pra não esmorecer".

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Criação de gado leiteiro em Iguatu. Enquanto ainda está desconfiado com as chuvas caídas, Edmar Duarte garante plantio de ração para os animais. Foto: JL Rosa

Para qualquer lugar que se ande no Ceará, a paisagem é outra desde que as primeiras chuvas esverdearam tudo. A vegetação xerófita da caatinga precisa de tão pouca água que se o céu dá um sorriso molhado já desabrocha. Mas esse verde não garante plantio. Só colore os olhos e, muitas vezes, engana. Vira seca verde, mas a cor que mais deve predominar diante do verde-plantação é o cinza-chuva do céu cujo azul foi desbotado.

Mas se chove e continua chovendo até o leite fica mais barato, pois as vacas de seu Edmar Duarte, do Iguatu, voltam a ter, além da ração, o resíduo do milho, a chamada silagem. Gado sem força não dá leite nem nada. Foram os bichos as maiores vítimas fatais dos cinco anos seguidos de seca no Ceará. A esperança do criador é pendular: "ontem fez um tempo bonito danado, mas deu só 29 milímetros. Se ficar nessa chuva fininha, vai ficar complicado".

As águas de março, sempre maiores que de janeiro e fevereiro, são recebidas com euforia, medidoras do bom inverno. Pequenos açudes sangram, as pessoas tomam banho nas ruas e a sensação é de 'agora, vai'. Mas o agricultor e o criador cujas perdas ficam na memória lembram que todo início de março é assim, chuvas, até mesmo nos cinco anos anteriores de seca. Mas a água que brota o pé também renova esperança. Seu Agenor defende que neste ano chove em abril e maio. "Vai dar alegria". E comida.

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