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Esculturas do cotidiano na terra do Padre Cícero

00:00 · 03.03.2018

A terra do Padre Cícero já viu nascer - e ainda hoje vê - artistas com as mais diversas habilidades. O trato com o barro, por exemplo, já possibilitou a modelagem de importantes trabalhos pelas mãos de mestras como Maria de Lourdes Cândido Monteiro, cujas obras abordam o sagrado, o profano e as festas populares. No caso do artista Bosco Lisboa, natural do mesmo lugar, a abordagem temática ampliou-se para as cenas do cotidiano. E são elas que exportam o trabalho do artista Brasil afora há mais de três décadas.

Durante a infância, como muitas crianças da região, Bosco apenas brincou com a matéria-prima. Foi só aos 16 anos, enquanto estudava em um seminário, que teve contato com as esculturas em cerâmica. "Encontrei um amigo e vi ele com uma escultura. Perguntei onde eu comprava o barro, aí fui em Cícera Fonseca e comprei dela. Quando cheguei em casa, já fui ansioso, passei a noite trabalhando, fazendo as coisas. Naquela hora foi que pensei: cara, encontrei uma atividade aqui e vai ser ela. E foi mesmo", lembra o artista, hoje com 54 anos.

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A decisão foi a contragosto dos pais, que lhes davam apenas as opções de ser padre ou médico. A certeza de que residia no barro a construção de uma vida fez com que Bosco não atendesse ao desejo dos familiares e trilhasse uma trajetória importante para ele e para a cultura cearense. A primeira obra que produziu foi uma espécie de painel com um cangaceiro e um varal de roupas, mas na época não dimensionava o valor de nada: "só veio na cabeça e fiz", recorda o juazeirense.

Depois da noite em que despertou para a vocação, o artista foi diversificando o trabalho. Chegou, por exemplo, a fazer santos, já que, em Juazeiro do Norte, essa perspectiva temática sempre facilitou as vendas. Como casou cedo, aos 17 anos, precisou de uma renda imediata. Mas, em paralelo, dedicou-se a estudar livros e mais livros sobre arte. O estudo e a prática deram um norte para Bosco. "Depois de uns 6, 7 anos de prática, encontrei a escultura. Pensei: agora eu tô no marco zero, mas vi a estrada. Posso aprender!", rememora.

Fases

Hoje, ele divide sua carreira em três fases. Na primeira, investiu no ser humano, fazendo esculturas de pessoas em tamanho normal. "Era com veia, com unha, aquela coisa do renascimento que eu era apaixonado e ainda sou", destaca. Depois foi desviando dessa produção, ao perceber que era algo já feito por muita gente. "Comecei a fazer uns pássaros grandes, de parede", lembra.

Por último, voltou seu olhar às cenas do cotidiano. Ao entrar em casa, começou a ver com outros olhos um simples varal no quintal ou uma roupa jogada numa cadeira. "São essas cenas que existem na casa de todo mundo e que a gente nem valoriza essa beleza", pontua.

Elas serviram de inspiração para as obras que fariam Bosco conquistar prêmios e reconhecimento por todo o País. Em uma edição do Salão de Abril dos anos 1990, colocou uma peça nessa linha criativa e o retorno foi imediato. "Todo mundo ficou comentando e aí fui entrando nesse universo; ainda tô aí fazendo essas coisas".

Alguns aspectos mudaram de lá pra cá, inclusive no que diz respeito ao processo artístico. Antes, ele dedicava muita energia ao acabamento do material. "Hoje em dia, a maior parte do tempo levo pensando, elaborando a obra. Depois de conceber, aí vou fazer as proporções dela", explica.

"Deixo tudo pronto e quando pego no barro é só pra executar. Já sei o tamanho disso, daquilo, espessura", completa o artista. Tudo isso, só veio aprender na terceira fase da carreira, enriquecendo sua obra até em termos técnicos.

Andanças

Munido do barro, Bosco fez morada em Fortaleza e, mais recentemente, na cidade de Cunha, a 160 km de São Paulo, conhecida como um polo ceramista internacional. Por lá, ficou uma temporada de três anos - de 2011 a 2014 - , retornando apenas para resolver uma burocracia no ateliê que mantinha na Sabiaguaba. A princípio, achou que ficaria apenas uns 40 dias, mas já se passaram mais de três anos sem uma resolução do problema. As obras do artista ainda estão todas na antiga morada paulista, onde fez parcerias que garantem a venda do seu trabalho na região sudeste do Brasil.

Com vasta experiência de mercado, é enfático ao dizer que "não tem mercado fácil de arte em canto nenhum". Apesar de reconhecer que conquistou algum espaço nas últimas três décadas, observa que é um público muito pequeno que compra arte, principalmente no Brasil. "Muita gente até tem dinheiro, mas não gosta. E quem gosta, às vezes não tem dinheiro. Pra ter dinheiro e gostar são poucos e, desses poucos, você ainda tem que cair na graça deles", expõe.

Em São Paulo, admite que consegue vender com mais facilidade que em Fortaleza. Mas não por isso pretende fixar-se naquele Estado nos próximos anos. Já decidiu que é aqui onde vai ficar. "Aqui estou mais à frente em termos de estrutura. Não vou mais comprar um terreno pra fazer um ateliê, eu tenho um novo (no Maranguape). Não vou comprar casa pra morar, eu tenho (no São Cristóvão). Aqui a estrutura está me favorecendo mais", acredita.

Em junho deve voltar a São Paulo apenas para fechar alguns acordos. A produção por aqui, no entanto, não para. "Agora eu tô querendo fazer uma exposição com peças monumentais. Pelo menos 80% com obras grandes e também feitas com outros materiais", adianta. Além da cerâmica, ele deve apostar no mármore sintético, madeira, fibra e resina.

Os objetivos que o jovem Bosco tinha aos 16 anos já não são os mesmos deste adulto de 54. "Hoje vejo a vida diferente. Certas coisas que a gente faz por vaidade, por isso, por aquilo, não me interessam muito mais. Eu quero trabalhar, produzir exposição, viajar. Só isso. Esse é o objetivo de quem faz arte: trabalhar", finaliza.

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