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Entre existir e resistir: falhas de políticas públicas

00:00 · 07.04.2018

O adolescente assassinado no Ceará tem rosto, sexo, idade, cor e endereço. Sofre com uma série de ausências, como a de oportunidade, atendimento à rede de amigos de vítimas que se tornam potenciais novas vítimas e, sobretudo, a vivência em territórios cada dia mais vulneráveis. Nascer dentro desse perfil e não morrer antes de chegar à vida adulta já é, por si só, esticar perspectivas. No entanto, quem sobrevive, na maioria das vezes, não tem direito de viver.

Aos 29 anos, João (nome fictício) sobreviveu. Nascido e criado no Grande Jangurussu, um dos territórios que mais sangram mortes de adolescentes e crimes violentos ligados às brigas entre facções criminosas, nem o fato de viver em uma comunidade com nome de santa o protegeu dos dramas e violências de quem mora lá. Apesar de ter conseguido "sair do crime" e ser voluntário há anos de projetos sociais que resgatam outros jovens "envolvidos", ele só vive em pedaços. Tenta se curar de uma depressão profunda com auxílio de remédios, que o impedem de conseguir trabalhar, fato que alimenta ainda mais essa sensação de vazio e de frustração.

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"Hoje eu estou passando pelo pior momento da minha vida. Com depressão profunda. Todo dia eu não tenho vontade de viver. Eu aceitei falar porque acho que vai ser bom. Minha mãe e as crianças do projeto me incentivam a ficar vivo", desabafa ele que já tentou até se matar aumentando a dosagem dos medicamentos. João tem o perfil de quem morre. Não morreu. João tem o perfil de quem também foi negligenciado.

Conforme o Comitê Cearense Pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, uma das evidências apontadas é a falta de atendimento à rede de amigos e familiares dos adolescentes assassinados. Os amigos e familiares são vítimas em potencial da violência letal. Na Capital, 64% dos adolescentes mortos tiveram amigos assassinados. Logo, eles precisariam de atenção prioritária à rede de atendimento, com ações de prevenção e suporte.

João perdeu as contas de quantos amigos foram mortos ou presos. Diz que, entanto foi e continua sendo seduzido pelo crime, só teve um projeto social, o Meninos de Deus, que chegou até ele. O resto é eco. "Toda hora, todo momento, todo instante (eu me sinto seduzido pelo crime). O cara se sente abraçado, cobiçado. Então você se envolve mesmo. E, por último, tem o poder ilusório que o crime dá. A facção te dá uma arma, um poder, uma sigla pra defender, um motivo pra viver. O cara abraça a ideia. Antes eu achava que era status, hoje eu vejo que o cara te dá uma razão pra viver e o cara entra".

Quem resiste tem um outro ponto a superar. A falta de oportunidade em trabalho formal. Dos adolescentes assassinados, 78% tiveram experiência com trabalho formal ou informal, mas na maioria dos casos, a experiência não era protegida. "A geração de oportunidades de emprego e renda para adolescentes com mais de 16 anos e baixa escolaridade não aumentou. Eles trabalham como entregador de gás ou água. Não existe projeto para o perfil desse menino com baixa escolaridade", explica Ruy Aguiar, coordenador do escritório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em Fortaleza.

"Vários amigos chegaram pra mim, com arma na mão, dizendo que não queriam mais estar no crime. Adolescente que queria estudar, mas não foi porque teve uma vida desestruturada. Hoje, esses meninos estão presos. Falta de oportunidade. Quando eu falo que o crime dá isso e aquilo é verdade. Eu me sinto um vencedor. A meta do sistema é ver você preso ou morto. A gente tem que fazer é contrariar isso estudando. Você tá no labirinto com uma luz no fim do túnel bem longe, mas existe", relata João.

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Viver no Jangurussu é superar estigmas relacionados ao bairro. Primeiro ao lixo, depois à violência. No entanto, há ainda uma concentração de assassinatos em alguns bairros da Capital. Barra do Ceará, Jangurussu e Bom Jardim lideram. O diagnóstico do Governo do Estado do Ceará apontou que 44% dos assassinatos acontecem em 17 dos 119 bairros da Capital. Já em Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), 87% dos adolescentes foram executados nos bairros onde residiam. Segundo o diagnóstico, também em Caucaia, 60% dos adolescentes mortos já haviam sofrido ameaças. O dado revela que, em determinadas vezes, o homicídio é consequência de conflitos banais iniciados por desentendimentos pontuais.

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