Reportagem Jovem desejo e luta

Entre acorde e melodias

O piano está entre os nove instrumentos musicais disponibilizados nas aulas do Projeto Acordes Mágicos. FOTOS: Kid Júnior
00:00 · 01.07.2017

A pouca idade chama atenção, mas sem ligar para a surpresa e o julgamento externo, o casal de irmãos Maíra Cruz, 16, e Axel Brendo, 18, já tinham, desde cedo, seu desejo definido: o de ajudar o bairro aonde vivem, o Novo Mondubim, por meio de acordes e melodias. Assim, eles fundaram o Projeto Acordes Mágicos, com a proposta de levar a música erudita às comunidades com altos índices de vulnerabilidade social, promovendo a formação cidadã.

Filhos mais velhos do músico e pedagogo Bento Cruz, o casal, ainda na infância, teve a oportunidade de estudar gratuitamente em escolas de música clássica. Por isso, os irmãos transformaram seu desejo de propagar o que aprenderam em um projeto social, ensinando crianças, adolescentes e até adultos o alcance de um instrumento musical, também sem qualquer custo.

O início foi em 2014. Com apenas um violino, duas violas e uma flauta doce, os dois, na época com 13 e 15 anos de idade, conseguiram reunir, de imediato, cerca de 300 alunos, jovens em sua grande maioria. O impacto social proposto, segundo Maíra Cruz, sempre foi o de tirar o jovem da vulnerabilidade. "Éramos duas crianças cuidando de outras crianças e adolescentes e assim nasceu o Projeto. Montamos uma orquestra sinfônica no bairro e uma escolinha de futebol, tudo para mudar uma galerinha que estava se perdendo, entrando bem cedo no ramo da criminalidade. Queremos mudar essa visão que se tem do jovem de periferia".

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Até o estabelecimento na sede atual, sobraram percalços na trajetória do Acordes Mágicos. O abrigo inicial do Projeto, na Associação de Moradores do bairro, acabou não dando certo porque o presidente da instituição insistia pela cobrança das aulas, indo na contramão da proposta dos irmãos. De lá, ficaram numa escola do bairro, até que o espaço cedido foi reivindicado pela direção do estabelecimento. Uma aula chegou a ser ministrada na calçada e, por não terem um lugar devido, os alunos ficaram algum tempo sem praticar, até que passaram a frequentar a garagem da casa da família Cruz, sede atual do Projeto e reformada pelo programa Caldeirão do Huck, no fim do ano passado.

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Sexteto

Hoje, junto com os quatro irmãos mais novos, Maíra e Axel formam o Sexteto Irmãos Cruz, conduzindo o Projeto Acordes Mágicos - Instituto Silva Cruz junto a 480 jovens do bairro, oferecendo aulas em nove instrumentos musicais, entre eles, viola, violino, violoncelo, piano e outros. Os participantes contam, ainda, com aulas de filosofia aplicada à música e inglês, através de professores voluntários. "Nosso objetivo é formar um cidadão. Se sair um grande músico ou um grande atleta é uma maravilha, mas o objetivo maior é construir um cidadão e contribuir na formação de pessoas, sempre fazendo eles lembrarem de que alguém, um dia, pode precisar deles", destaca Maíra Cruz.

Retorno

O poder de transformação através da música sempre se fez ciente para a família Cruz, mas, ainda assim, o retorno com a iniciativa no bairro chamou atenção de seus benfeitores pela grandeza. A harmonia, até então desconhecida na região, passou a aflorar, melhorando a socialização na comunidade, segundo Axel Brendo. Benefícios que foram sentidos, como acrescenta, nas ruas e dentro de casa. "As crianças evoluíram na escola, passaram a se comportar melhor em casa. Muitas mães chegaram chorando nos agradecendo. Uma delas agradeceu ao meu pai por o projeto ter tirado o filho dela das drogas, por ter ocupado a mente do filho dela, ou seja, o Acordes Mágicos salvou uma vida. Eu realmente acredito que a música tem esse poder de mudar as pessoas".

Para participar é preciso ter acima de seis anos de idade e, até os 18, estar matriculado em alguma instituição de ensino. O diferencial em relação a outras iniciativas é não definir capacidade máxima: "sempre há vagas", como diz Maíra.

O alcance é certo e a sede ainda novinha dá gosto aos aficionados por música, mas o Instituto ainda carece de meios para manter tudo funcionando. Sem apoio governamental, o espaço segue seu propósito de educar por meio de doações e estratégias realizadas pela família, como rifas na comunidade.

Serviço:

Acordes Mágicos (Intituto Silva Cruz - Rua Maria Filho, 1010, Novo Mondubim. Fone: (85) 98708.5630

Em busca do clássico

Ao descobrir que a Orquestra Sinfônica do Projeto Acordes Mágicos faria uma apresentação no bairro Jangurussu, a estudante Isadora Queiroz, 17, não pensou duas vezes e correu ao local para conhecer. A intenção estava clara: o grupo seria seu passaporte para aprender instrumentos musicais e, assim, seguir na música clássica. Deu certo. Passados três meses tendo aulas no Instituto Silva Cruz, os olhos da jovem brilham ao relatar já conseguir tocar o violino, tendo, inclusive, entrado para a Orquestra e se apresentado com o grupo. Orgulho para a família, que torce pelo enriquecimento da artista recente.

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Expressões que celebram e machucam

O jovem se expressa. Não apenas por palavras, não apenas pelo olhar. O jovem fala através da cidade, tendo como principal indutor a realidade social a que está inserido. Seja pela música, arte, cultura, esporte ou a comunicação, são vieses que os retratam, formas que os empoderam.

Mas assim como há expressões que celebram, impõe ou reivindicam, que projetam-nos de forma promissora, há, também, as que machucam, desqualificam. Veriana Colaço, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e membro do Núcleo Cearense de Estudos e Pesquisas sobre a Criança - NUCEPEC, ressalta ter, na capital cearense, diversos coletivos juvenis produzindo no campo das artes plásticas, do audiovisual, da comunicação, dança, teatro, assim como expressões no campo da ciência e tecnologia.

Por outro lado, a pesquisadora em juventude chama atenção para a grande parcela de jovens excluídos e marginalizados socialmente, que expressam suas demandas e necessidades por diferentes formas, se fazendo visíveis pela reação, em geral violenta, à subtração de seus direitos fundamentais.

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Seja pela música, arte, cultura , tecnologia, esporte ou a comunicação, diversas são as formas de expressão da juventude através da cidade. São vieses que os retratam, formas que os empoderam

"São percebidos como responsáveis pela violência urbana, mas são muito mais vítimas dessa violência, que lhe tiram a liberdade e a vida. É triste perceber o quanto os jovens negros, pobres e da periferia das grandes cidades são desqualificados na sua condição de humanos e eliminados sumariamente para que não incomodem nem exponham com toda a clareza as consequências da desigualdade e da injustiça social, promovida pelo capitalismo desenfreado e pelo interesse voltado unicamente pelo lucro e incremento do capital financeiro e rentável", comenta.

Apesar de se produzir demandas para a juventude, ressalta Veriana, muitas não correspondem, necessariamente, ao que eles precisam, uma vez que as políticas macrossociais são estabelecidas, em sua maioria, sem a participação dos jovens. Para a professora, inúmeros são os espaços para a promoção de mudanças e as relações sociais e interações entre as diferentes gerações em convívio devem ser estimuladas.

Incentivo

"Acredito que a mobilização dos jovens passa pelo incentivo à cultura, às artes de modo geral, aos espaços e processos educativos que estimulam a criação e construção do conhecimento. Os jovens são mobilizados significativamente pelas novas tecnologias. Há que se trabalhar na perspectiva de incentivo não apenas ao uso dessas tecnologias, mas à sua produção pelos jovens. E, principalmente, é preciso criar espaços de escuta, de participação social, de promover a sua criação e estimular seu potencial inventivo, sua coragem e espírito de aventura e de realização. Ao mesmo tempo que sejam estimulados valores éticos, atitudes de respeito com o outro, dos limites do convívio social, das responsabilidades pelas suas atitudes e expressões", analisa.

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