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Entre a dança e as impossibilidades

O dançarino Ítalo Campos está prestes a finalizar a graduação em Dança (UFC) e conta como a linguagem artística mudou sua vida
00:00 · 04.03.2017 por Felipe Gurgel - Repórter

O dançarino Ítalo Campos, 27, saiu do Jardim Iracema, fisicamente, e encontrou outro chão na dança. Prestes a finalizar a graduação em Dança pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ele abraçou a vertente contemporânea desta linguagem artística e a possibilidade de se expressar sem colocar sua arte em um altar. O envolvimento de Ítalo com a linguagem passa pela desconstrução da ideia de que dançar seria um privilégio da folga aos finais de semana ou luxo para ricos e pessoas "desocupadas".

"Há um pensamento de que é preciso passar a semana inteira trabalhando duro, e tem de ser duro, para poder dançar no fim de semana. E quando desloco isso para a minha realidade, de viver na periferia, ter estudado em escola pública, trabalhar como garçom, entendo o risco e a coragem com que me coloco", reflete Ítalo.

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O dançarino coloca que sua relação com a dança é reflexo da privação que experimentou durante a sua vida em Fortaleza. Se vendo como alguém que teve "bons encontros" no caminho de levar a arte a sério, Ítalo Campos encontrou, na escola pública, livros como "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector, e a leitura dos cadernos de cultura dos jornais da cidade como pontos de transformação.

"Eu não conhecia direito a Praia de Iracema, e a Praia de Iracema (segundo também, o que ele lia nos cadernos de cultura locais) era a cidade pra mim. Comecei depois a viver a vida cultural de Fortaleza e, dentro da UFC, conheci dois artistas que mudaram a minha visão sobre a arte, o Hélio Oiticica e a Lygia Clark", situa o dançarino.

Ítalo põe Oiticica, Clark e o cearense Leonilson (1957-1993, que além de ser seu conterrâneo, também era homossexual e soropositivo), como os pilares da sua compreensão, hoje, sobre a dança contemporânea. Recordando ainda da escola pública, o dançarino pontua o aspecto prisional da instituição.

"(Lá) eu não conheci tantas pessoas 'incríveis'. Até porque aquele espaço é feito para que as pessoas se sintam mal. E pensem qualquer coisa, menos em si mesmas. Se você pensa um pouco mais em você, consegue se destacar", observa.

Da escola pública, ele passou por uma ONG no bairro Padre Andrade e ganhou experiência - no início tendo de trabalhar de graça - como garçom. Trabalhou remunerado, depois disso, na loja da Pizza Hut do North Shopping. Muito estressado com o trabalho, Ítalo Campos encontrou uma válvula de escape nos cursos de formação em Dança do Cuca da Barra do Ceará e começou a dançar, sozinho, em casa também.

"Vivia trancado, sem dinheiro pra sair, então eu baixava muita música, e já era algo que até hoje é muito presente no meu fazer artístico: ficar um tempo só, não se importar tanto com a partilha, com a representação, mas na dança como uma experiência", aponta o dançarino.

UFC

O ingresso na universidade aconteceu em 2013. Um ano antes, Ítalo tinha saído de casa, brigado com a família. Para iniciar o curso de Dança, ele já pensava, sobre a linguagem, por conta da passagem pelo Cuca. A dança lhe coube, também, para respirar melhor.

"O Cuca foi um local que me deu condições para eu pensar como poderia valorizar a arte e me virar pra ser artista. Não gosto tanto dessa palavra, mas é uma coisa de 'vocação' mesmo. Nos cursos de lá, aquilo me dava vontade de viver", observa.

Ele fez a prova do Enem, mas não passou na chamada normal para o curso universitário. No entanto, Ítalo sentia que "precisava da UFC, da bolsa, do restaurante universitário (R.U.), que é fundamental para muita gente sobreviver dentro e fora da universidade. Daí fui chamado pra lista de espera, e dei um grito (risos)", conta o dançarino.

Ítalo elogia que o curso da UFC é bastante inteirado com o pensamento contemporâneo em dança. E revela que se sentiu acolhido pelos professores, mesmo tendo apenas seis meses de prática dançante antes de começar a cursar.

Vestido

Já dentro do curso, Ítalo Campos passou a desenvolver uma pesquisa em que traja um vestido. Ainda em andamento, a intervenção contou com o dançarino colocando a roupa quase todos os dias, ano passado.

A ideia era observar a reação das pessoas "e como essas reações mudam o meu próprio jeito de ser, de sentir as coisas. Hoje estou usando pontualmente, pra concentrar e analisar. E me afirmo, com isso, numa condição de vulnerabilidade", reflete. Para Ítalo, se colocar nessa posição é se afirmar como soropositivo e provocar reflexões sobre o lugar das travestis, a quem se nega "certos modos de existir", pontua.

A pesquisa se conecta à vida daqueles "que não podem", segundo Ítalo, ter as oportunidades que ele teve. "A minha relação hoje é com essas pessoas. As que não podem ter acesso à cidade, não podem estar aqui falando, porque ninguém vai escutá-las. Dançar, pra mim, hoje, traz essa responsabilidade", define.

Essa responsabilidade, para o dançarino, não se resume a reagir, através de sua expressão, à rispidez da realidade. Ítalo Campos tenta encontrar saídas criativas no mercado e na cena artística, como uma forma de reinventar sua própria vida.

Ele conta que não se permite almejar, para si, uma posição de "artista foda" e inalcançável para o público. "Não posso mais me dar o luxo de 'deslanchar' como artista, sem falar de onde eu venho, do Jardim Iracema. Isso se um dia eu for um grande artista (em termos de visibilidade). A arte ainda tem esse poder: da sensibilidade, de eu sair na rua, uma criança me ver (com vestido), e não saber o que é aquilo. E eu não saber também onde isso vai dar", pontua.

italo

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