Reportagem Dinâmica

Empresas se mobilizam com mais ligações internacionais

Até o fim do ano, Fortaleza terá voos diretos para até14 destinos internacionais, principalmente para os mercados europeu e norte-americano
00:00 · 07.07.2018

Com as novas oportunidades geradas pelas conexões internacionais no Fortaleza Airport, em especial dos voos para Amsterdã (Holanda) e Paris (França) por meio do hub da Air France-KLM/Gol, diversos empresários já demonstram interesse em se instalar no Estado para produzir e exportar via aérea, principalmente do setor agropecuário. Até empresas que já deixaram o Ceará por conta da estiagem planejam seu retorno.

É o que informa Sílvio Carlos Ribeiro, diretor de Agronegócio da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece). Ele afirma ter recebido empresários que já estão começando a produzir frutas exóticas, como pitaya, romã, caqui e amora, entre outros, para aproveitar o alto valor do dólar e começar a exportar pelo modal. "Temos incentivado isso buscando mercado lá fora, o que não é difícil, mas o problema é termos a produção dessas culturas", explica.

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O início da operação do voo direto para a Holanda, principal comprador externo de plantas ornamentais das empresas cearenses, terá impacto direto sobre a produção do segmento no Estado. "Temos a perspectiva de duplicar a produção de flores na Serra da Ibiapaba, empresas iniciando projetos com outras plantas ornamentais. É o tempo que vão começar a produzir e os novos voos vão chegar", aponta o diretor Sílvio Carlos Ribeiro.

Quanto ao retorno de empresas que tinham deixado de atuar no Ceará, o diretor lembra que o principal problema para a produção agropecuária no Estado, principalmente de frutas, sempre foi a falta de água para a irrigação da produção. "Como neste ano temos uma situação um pouco mais confortável e há a perspectiva de novas ofertas com a transposição de águas do Rio São Francisco, no próximo ano a gente já vê que tem empresas interessadas em voltar".

Espaço limitado

Ribeiro pondera que, apesar de estar apostando muito nessa tendência de exportação via modal aéreo, a atividade ainda é muito limitada por conta dos espaços disponíveis para carga nas aeronaves. "A carga só vai no porão dos aviões de passageiros e isso tem um limite. O problema é também a quantidade de voos. Por mais que se tenham essas frequências para a Europa, a preferência dos empresários é que tivessem mais voos para esse destino", aponta.

Até o fim do ano, a Capital terá voos diretos para até 14 destinos internacionais, dos quais os mais frequentes serão para o mercado norte-americano, com ligações para Orlando e Miami (diários pela Gol e cinco voos semanais pela Latam), e europeu, com opções para Portugal (diários com a TAP), Holanda (três frequências com a KLM), França (três frequências com a Joon) e Alemanha (duas frequências com a Condor para Frankfurt, além de uma terceira a Munique a ser confirmada).

Outra dificuldade confirmada pelo diretor diz respeito à falta de auditores fiscais agropecuários nos fins de semana, principalmente para a inspeção de cargas vivas exportadas. "Estamos resolvendo isso junto ao Ministério da Agricultura em Brasília e com a superintendência local para tentar suprimir esse gargalo. Estamos agendando reuniões na próxima semana para que se tenha uma definição sobre isso", reforça.

Maior capacidade

O início das operações do hub da Air France-KLM/Gol na Capital elevou em até 100 toneladas por semana a capacidade de exportação de cargas a partir do Fortaleza Airport, aponta Karina Frota, gerente do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec). "Com a sexta frequência a ser inaugurada em outubro, essa capacidade vai chegar a 120 toneladas por semana", explica a gerente.

As exportações via Aeroporto, entretanto, caíram 23,5% no primeiro semestre ante igual período de 2017, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic). Karina avalia que o resultado foi impactado pela queda da exportação de alguns tipos de calçados, principal produto enviado ao exterior pelo modal aéreo, mas não reflete a conjuntura do segmento de transporte.

Ela pondera que os principais produtos exportados hoje através do Fortaleza Airport já são de setores industriais consolidados no Estado. "O setor de calçados, depois dos produtos da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), é o principal item da pauta de exportação do Ceará, que também já possui tradição na fruticultura e na indústria de confecção, itens transportados pelo modal aéreo", aponta.

Para a gerente, ter preços mais baixos de frete é algo essencial para difundir a cultura do transporte aéreo entre o empresariado cearense. "A expectativa é que, com o passar do tempo, fortalecimento do hub e do próprio modal, tenhamos preços competitivos e que isso tenha impacto diretamente sobre volume que hoje é exportado".

Entrevista com Cesar Ribeiro* 

Aumento de rotas deve baratear frete

O preço do frete aéreo ainda é um dos pontos que mais restringem sua utilização pelas empresas no País. O secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado, Cesar Ribeiro, acredita que o crescimento exponencial da oferta de rotas a partir de Fortaleza deve baratear os custos do modal e torná-lo mais acessível às empresas cearenses.

Nesse cenário, vale destacar também que as duas empresas com maior presença na Capital - Latam e Gol - incrementaram significativamente suas malhas neste ano e já usufruem da isenção fiscal do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) que impacta o combustível da aviação e diversas outras atividades realizadas pelas aéreas.

Como o senhor avalia o cenário atual do transporte aéreo de cargas no Estado do Ceará?

É muito positivo. Por uma articulação do governador, tivemos a sorte de ter o Aeroporto de Fortaleza no rol de concessões do governo federal e de ter a Fraport como administradora do equipamento, que é um instrumento de desenvolvimento econômico no Estado. A Fraport tem muita expertise na exportação por modal aéreo e isso é um diferencial.

Com relação ao comércio exterior, no nosso caso, no ano passado, apenas 2,4% das exportações cearenses atingiram seus destinos por modal aéreo, sendo que os produtos mais exportados foram calçados e similares. Já o modal marítimo foi responsável pelo escoamento de 92,98% dos produtos da pauta de exportação cearense e o rodoviário por 4,35%.

O que sempre ressalto é que não há concorrência entre o modal aéreo e os demais, uma vez que a carga aérea é muita específica, envolve a necessidade de urgência e agilidade que as outras não possuem.

Nós temos, até o fim do ano, saindo de Fortaleza, cerca de 50 frequências internacionais para até 15 destinos e o setor produtivo cearense - produtores de camarão e pescado, frutas, peixes ornamentais, plantas, alimentos em geral, empresas de logística, entre outros setores - tem aí novos mercados e oportunidades na Europa, Ásia e Américas. Só nos aviões do grupo Air France/KLM, que chegam em Paris ou Amsterdã, a capacidade é de 120 toneladas por semana, sendo até 20 toneladas por voo.

Há potencial de crescer mais? Quantas empresas já atestaram interesse?

O transporte por modal aéreo tem uma ambiência favorável para crescer não só no Ceará como também no Brasil, embora predomine o modal rodoviário no Brasil, chegando a 60%. Dados da Associação Internacional do Transporte Aéreo (Iata) mostram que a demanda mundial por transporte aéreo de cargas cresceu 9% em 2017, em relação ao ano anterior e, aqui no Brasil, com esse novo cenário, com grandes empresas administradoras à frente de aeroportos importantes, isso vai crescer muito.

O Ceará também acompanha esse crescimento. A conquista do hub aéreo da Air France/KLM-Gol foi um importante começo, o volume vem crescendo regularmente. Em dois meses de operação, já estamos exportando uma média de 10 toneladas com a KLM e cerca de 3 toneladas com a Air France, referente a produtos como peixes tropicais, papaia, auto parts e couro.

Muitas empresas já demonstraram interesse em retomar as exportações para Europa, como a produtora de flores Reijers, que vem ampliando sua produção na Serra da Ibiapaba visando o mercado internacional. Tem também o setor de pescado, especialmente o de lagosta viva, um produto de alto valor agregado, que também está em negociação. Na reunião que fizemos na SDE (Secretaria de Desenvolvimento Econômico) com a Diretoria de Carga da Air France-KLM, mais de 40 representantes de empresas e instituições mostraram interesse na exportação por modal aéreo.

Quais são os principais gargalos desse setor percebidos pelo governo?

O que nós percebemos é que o valor do frete é elevado. A formação do preço do frete aéreo é diferente da formação terrestre e isso envolve muitas variáveis de difícil intervenção. Acreditamos que o aumento da oferta de rotas, com mais espaços das aeronaves, vai baratear os custos e também vai facilitar os processos.

O Estado tem políticas públicas para incentivo do uso desse modal? O que está sendo feito agora? Quais são os próximos passos?

O governo do Ceará, por meio da SDE, vem atuando como um elo facilitador entre o setor produtivo, empresas e instituições estaduais e federais para incentivar a exportação pelos diversos modais, entre eles, o aéreo. Estamos trabalhando para incentivar atividades produtivas diferenciadas, com alto valor que justifique o frete. De uma forma geral, as oportunidades fazem parte de uma cadeia, quanto maior for a atividade dos setores produtivos, maiores serão os retornos para o Estado: mais venda, mais emprego, mais geração de riquezas, mais desenvolvimento econômico e social.

Além disso, o Estado vem trabalhando para viabilizar a atividade dos pequenos aeroportos regionais, como Aracati, Sobral, São Benedito e Camocim, entre outros, o que pode dar suporte a essa rede.

A Agência de Desenvolvimento Econômico (Adece), através das Câmaras Setoriais, especialmente a Câmara Temática de Comércio Exterior e as Câmaras Setoriais do Camarão, Flores e Frutas, vêm fazendo uma articulação importante com o setor produtivo para estimular novos oportunidades de negócios.

Qual o papel das empresas nesse novo mercado?

As empresas precisam se adequar para atender também o cliente internacional não só no Estado, mas enviando seus produtos para os diversos mercados mundiais. Isso inclui ter conhecimento dos mercados, das formas de negociação, das oportunidades, das políticas cambiais e dos processos que envolvem o comércio exterior.

As oportunidades virão para os mais diversos setores, como comércio, indústria e serviços, e o governo do Ceará, por meio da SDE e suas vinculadas Adece (Agência de Desenvolvimento do Ceará), Codece (Companhia de Desenvolvimento do Ceará), Cipp (Complexo Industrial e Portuário do Pecém S.A) e ZPE-CE (Zona de Processamento e Exportação do Ceará), atuará de forma transversal com outras secretarias de Estado para dar apoio e promover a sustentabilidade desses negócios da melhor forma possível.

*secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado

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