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Dona Joana Andrade: matriarca da cultura

00:00 · 30.09.2017 / atualizado às 13:00

Na tradicional dança do coco, os homens eram quem ditavam o ritmo e dominavam o cenário. Aos poucos, "a roda" foi se abrindo para as mulheres e, hoje, elas são figuras de destaque no Grupo Zé Mendes, fundado na década de 1940, na Praia de Majorlândia, município de Aracati, Litoral Leste. A personagem principal deste capítulo da cultura cearense é dona Joana Andrade, 95 anos, viúva do fundador do grupo e cheia de histórias para contar.

Lúcida, ativa e bem-humorada, vovó Joana, como também é chamada, reconhece que no passado não apreciava aquela dança que o marido tanto gostava e fazia questão de ensinar a todos, fosse da família ou não. Aliás, foi ele quem começou a abrir espaço para a participação das mulheres. Hoje, filhas, sobrinhas, netas e bisnetas dão sequência à tradição, impulsionada também pelos homens. "Só que, naquela época, era mais bonito de ver os homens sapateando, agora eles não sabem mais sapatear", reclama.

Apesar da crítica, a matriarca sente-se orgulhosa ao perceber a movimentação da família em torno da dança do coco. Além disso, reconhece a importância do marido para a cultura local. Tanto é que, mesmo com dificuldades para se locomover, ela segue até a praia para acompanhar uma apresentação do grupo. Como espectadora, interage batendo palmas para dar ritmo à dança.

Ao final, satisfeita com a apresentação, pede para voltar para casa, onde está a sua maior distração: o labirinto, arte que aprendeu ainda na infância e que ajudou no sustento dos 12 filhos, 5 homens e 7 mulheres. Detalhista e exigente, a senhorinha diz que uma parte da renda saiu errado e, portanto, irá desmanchar e refazer. Mesmo com tanta dedicação, nem todos os filhos seguiram na dança ou no labirinto, mas aprenderam a dar valor à arte e à cultura transmitidas pelos pais.

"Ele sempre foi uma atração. A gente dançava, o povo dançava", lembra a filha Maria Lúcia de Andrade, que, por problemas no joelho, deixou de se apresentar, mas continua atuando na articulação do grupo como forma de manter viva a memória do pai.

A outra filha, Maria Celeste de Andrade, lembra que Zé Mendes foi realmente um mestre na dança do coco e, felizmente, a cultura está sendo levada adiante por um dos irmãos, o Hugo. Além disso, agradece os demais integrantes, em especial às mulheres que agora enchem o grupo de beleza.

Quando criança, Ana Felícia Andrade sonhava entrar na roda do coco, mas o pai não a deixava, dizendo que aquela dança não era para menina. "Eu ficava encantada vendo o meu avó (Zé Mendes) dançar, mas eu não podia fazer parte. Depois que eu cresci, eu comecei a dançar", recorda a professora. Com Maria Auxiliadora, prima de Felícia, a história foi semelhante, mas ela também conseguiu entrar na roda e levar consigo as duas filhas para a dança do coco. "Nós não vamos deixar a nossa cultura morrer", fala enfática.

O coco de roda é uma tradição cultural característica no litoral cearense. Em Majorlândia, município de Aracati, é mantida pela família do mestre "Zé Mendes", fundador do grupo. José Francisco de Andrade, nome de batismo, era lavrador, artesão, pescador e artista popular. Conheceu a dança do coco de roda no povoado da praia vizinha de Canoa Quebrada e, logo envolveu toda a família nesta modalidade.

Em geral, as letras são entoadas pelos mestres da dança do coco. Costumam fazer referências ao cotidiano na agricultura, na comunidade ou na vida no mar. Zé Mendes, tanto replicava versos já conhecidos, como criava o seu próprio repertório: "Meu apelido é Zé Mendes no céu, na terra e no mar. Sou filho de cobra verde, neto de cobra corá, sou facão de cortar cana, sou caravela do mar, sou gato pra dois terreiro, sou mourão pra boi turrar".

Com o falecimento do mestre Zé Mendes em 1995, um de seus filhos, Hugo Pereira, assumiu o compromisso com a tradição da família. Hoje, o grupo tem vários integrantes, formado não só pelos filhos do mestre, mas também pelos sobrinhos, netos e bisnetos. De geração em geração, a família permanece unida pela cultura, e continua saudando o mestre Zé Mendes por meio de seus versos, fotografias, vídeos e com a dança em si, a maior herança deixada.

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