Reportagem Rio Jaguaribe

Dona Isabel Pereira: na companhia das margens

Dona Isabel, da Vila Munquém (Cariús), segue a lida na roça e ainda garante feijão para o ano
00:00 · 27.01.2018

Se por muito tempo o rio foi o centro das ocupações, porque é assim com a água - de um jeito ou de outro, toda civilização nasceu à beira, a água encanada se fez rio (ou rua, com as adutoras) e foi criando horizontes, até o ponto de ter quem não saiba de onde ela vem, se do céu ou do chão.

Isabel Pereira Alves orbita em torno do Jaguaribe há 78 anos, embora faz tempo que não vai à margem. Começou no município de Cedro, depois Iguatu, até a vez do Riachão, já neste Cariús.

-"Do Riachão, vim pra cá. E é daqui pro céu".

A Vila Munquém leva o nome do açude que é a caixa d'água do município de Cariús (o nome da cidade vem do tupi "peixe de rio"). Do lado de fora das casas, a paisagem de relevos só não está mais tão cinzenta porque as chuvas de pré-estação deram uma mão de tinta verde nas plantas xerófitas. Mas como ainda não são chuvas garantidoras de inverno - fica para quando fevereiro chegar - o verde da caatinga ainda é desbotado.

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Na casa de Isabel porta a dentro, porém, os tons são bem definidos. Em casa do sertão, quintal verde é a sala de estar. E sua horta tem cidreira e camomila para chá, mas um pé de seriguela dá teto ao galinheiro, e um cantinho com flores de girassol e nove horas, o colorido. A cisterna de placas segue garantido a reserva. "Aqui a gente segue sobrevivendo. Já foi mais difícil. Eu posso até dizer que vivemos é no céu. Fomos criados passando fome. Se tivesse de comer, comia. Se não tem, dorme. Meus filhos até hoje lembram de quando passavam fome e eu colocava comida de 'rapar' o pregado da panela pra comer. A pobreza era grande. Mas hoje em dia, meu irmão, eu conto a verdade".

Quando Isabel diz que, dos seis anos seguidos de seca, dá para sobreviver, não está falando do quintal. O espaço é bonito, mas quem garante o feijão é a roça. Bastando que comece a chover, sua rotina diária é plantando feijão, fava e milho na companhia do filho mais novo num pedaço de terra que ainda possui. "Não é bem na beira do rio, mas no rumo dela". Rumo esse que dá no açude Munquém, que ajuda o açude Arneiroz a perenizar esse trecho do Alto Jaguaribe.

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Hoje em dia, a primeira das farturas na casa de Isabel é de sorrisos. Sentada no alpendre, o olhar sisudo é apenas para averiguar, mas se voltam os olhos para ela a boca se faz uma segunda janela aberta e cheia de dentes. Quando chega um vendedor de porta em porta, chama para almoçar em casa e até tirar o cochilo da tarde. Antônio Alves, filho que mora vizinho, tenta ponderar. Que o mundo tá diferente, não pode receber todo mundo, principalmente se não conhece. Não tem jeito. "Mas meu coração é assim, acho que herdei do meu pai, ele era muito dado com as pessoas".

No ano passado, quando Flávio Henrique, filho mais novo, pensou ter colhido feijão suficiente, ouviu da mãe que não deixasse uma vagem para trás. "Mãe, não tem pra que isso". O feijão não é pra vender, só consumo próprio, mas quando vê casa, Isabel lembra dos vizinhos. "Tem pra que, sim".

Os demais filhos, paridos em 12, cedo ganharam o mundo depois da porta de casa. Houvesse uma estatística populacional que segmentasse as ribeiras do resto da população, possivelmente se constataria uma evasão - o mais próximo disso é o êxodo rural, mas antes seria o êxodo marginal. Porque Andreia, filha de Isabel, foi morar em Umarizeira, mais aquém das margens, um meio termo para a cidade. Porém, é comum bater à porta de casa nas vilas ribeirinhas e ver ali só ninho de pássaros velhos. Desde que se anuncia o mundo lá fora, a deixa é bater asas. Tudo isso tem um responsável: o poço.

Puxar água da terra trouxe uma independência das margens: adeus, Ribeira! Falasse, o rio bem que poderia dizer "vai, vai acreditando". Mas não tem veia nem artéria que pulse sem depender do coração, e numa madrugada dessas de acordar antes do sol, Izabel, como quem não acordou direito, ligou o piloto-automático e saiu da cama para a cozinha. Deixou água esquentando para o café e foi ao quintal dar o "café" das galinhas. Antes que justamente o sol dissesse 'espere por mim', errou o pé na escuridão fora dos degraus que dão para o quintal e caiu de cabeça de uma altura de quase um metro além do próprio tamanho. "Levantei sozinha, mas com a mão na cabeça pra segurar o sangue jorrando".

Flávio Henrique, o último a morar em casa e depois sabemos ser o 13º filho, o único não-parido por ela, coloca a mãe na garupa da moto e corre para o hospital. A idosa, quase octogenária, com hipertensão e diabetes, viu-se 'dura na queda', literalmente. As filhas, sabendo que não podem dizer "mãe, não desça a escada", providenciaram um corrimão.

Nem tudo está resolvido, porque o sótão de casa tem um paiol onde guarda o tesouro: sacas de feijão colhidas ainda das chuvas minguadas de 2017. "Minha menina que mora mais perto veio e eu subi pra pegar feijão pra ela. Pois tirou foi foto minha no celular e na mesma hora mandou pras outras em Campina Grande. Elas ficaram foi brigando comigo: mas mãe, dou tanto conselho pra senhora não subir, vai fazer o que trepada nesse paiol?" A lembrança é motivo de risada.

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