Reportagem Praia do Guajiru

Dona Helena: com sabor de tapioca original

00:00 · 07.10.2017 / atualizado às 10:24 por Textos: Cristina Pioner e Germana Cabral/Fotos: Helene Santos e Cid Barbosa

No VII Encontro Sesc Povos do Mar, realizado em agosto passado na Praia de Iparana (Caucaia), uma longa fila se formava para experimentar o alimento com a marca registrada de dona Helena. Na "Casa da tapioca", auxiliada por uma equipe, ela preparava a receita finalizada da forma mais tradicional das casas de farinha: numa pedra acima do forno a lenha. O sabor é irresistível. Vale até a pena esperar. Mas com tantos "clientes", a entrevista ficou para outra oportunidade. Fomos, então, até a casa dela, na Praia do Guajiru, em Trairi.

No anexo da confortável residência, mantém estrutura semelhante para o preparo da tapioca. Após acender o fogo a lenha, começa a preparar a massa. O marido, Egídio Moura, 66 anos, rala o coco. E dona Helena, aos 61 anos, vai revelando o segredo de sua iguaria: "É meio complicado pra fazer. Se molhar a goma demais, ela não desgruda da pedra, e se deixar muito seca vira grolado (mexido de goma). Mas o que acho mais difícil mesmo é dar esta entrevista para você, porque eu não sou acostumada com isso".

ss
Tapioca com coco feita no processo tradicional por dona Helena ( FOTOS: CID BARBOSA)

É impressionante a agilidade dela para virar o lado da tapioca na pedra. E, ao retirá-la, comenta, satisfeita: "vocês tiveram foi sorte, porque geralmente a primeira nunca fica inteira". Dona Helena diz que aprendeu fazer sozinha, ao observar os trabalhadores de casas de farinha, onde raspou muita mandioca. E, há 30 anos, começou a vender. "As pessoas me pediam: 'Helena, faz uma tapioquinha para mim tomar com café?'. Aí eu fazia, aí foi se espalhando. Depois disso, comecei a colocar uma banquinha de tapioca com café, no tempo das políticas e de outras festas". Agora, produz somente sob encomenda, e prefere usar frigideira e fogão a gás para não incomodar os vizinhos com a fumaça.

Registrada Maria Herodiana Tolentino de Moura, recebeu outro nome da mãe adotiva. "Gosto mesmo é de Helena. Mulher, minha história é tão comprida que, às vezes, gosto nem de contar. Eu tava com sete meses de nascida, quando minha mãe me deu pra outra família porque foi separação de casal, ela deu os cinco filhos, cada um ficou com uma família".

s
Dona Helena também é artesã e faz peças, a exemplo de cestas e porta-cerveja, com canudinhos de papel de revista reciclado (FOTOS: CID BARBOSA)

Aos 17 anos, casou-se com o pescador Egídio Moura, com quem teve sete filhos, mas um faleceu logo após o nascimento. Trabalhava fazendo renda de bilros, depois começou também a pegar algas. "Aí o Guajiru foi crescendo, né? As coisas foram melhorando. Antes eram tão difíceis que ninguém não via o nem um dinheiro na mão".

Dessa época, guarda a almofada com os bilros - "tenho maior ciúme dela", mas preferiu parar com renda e produzir apenas o outro trabalho artesanal considerado mais rentável. É numa casinha de taipa, vizinha a que mora, que passa as tardes entretida com o seu maior prazer: trançar cestas, mesinhas de centro, sousplats, porta-cervejas e baldes de gelos, dentre outras peças, com canudinhos de papel de revista reciclado. Quem chega, avista logo uma placa: "Helena artesanato".

Para criar as peças, conta, mais uma vez, com a ajuda indispensável de Egídio, já aposentado da vida no mar. "Trabalho com isso há 25 anos. Se não fosse ele enrolar os canudinhos, nem conseguiria produzir, pois não sei fazer essa parte. Estamos casados há 43 anos, ele é meu parceiro em tudo".

Serviço:

Dona Helena (tapioca e artesanato) -  85 9 9767 1604

LEIA AINDA:

> Mulheres à beira-mar: trabalho, educação e cultura
> Marisqueiras de Fortim: comandadas pela maré
> Josivânia Alves Barbosa: com alimentos e afetos
> Maria das Graças de Sena Paiva: a graça de ter 150 "filhos"
> Gleiciane Ricardo: artesã sob os ventos da felicidade
> Maria Liduína dos Santos: liberdade para viver e ensinar

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.