Reportagem DOC

Doces Caminhos

00:00 · 22.07.2017 / atualizado às 19:17 · 23.07.2017 por Melquíades Júnior - Textos/ Thiago Gadelha- Fotos

Quando o açúcar era como ouro no Brasil Colonial, a doçura antes exclusiva ao mel de abelha ganhou espaço nas receitas culinárias. Se hoje são simples, antes eram simplesmente mágicas. Um doce miscigenado que moldou o paladar e compôs uma de nossas singularidades na pretensa identidade nacional.

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Já disse Gilberto Freyre que "sem açúcar não se compreende o homem do Nordeste". Em sertões, serras, agrestes e litorais, muitos nordestinos, sobretudo mulheres, acham que não compreenderiam a si próprias não fosse fazendo doces, de receitas que se contam os séculos, passadas pelos ancestrais, as gerações anteriores. Com a novidade da mão e do sentimento de quem faz.O doce tem um sabor de infância para quem produz ou apenas consome. Vai muito além de objeto culinário. Tem seu capítulo na história de um Brasil canavieiro sustentado no braço de negros e índios. E na de doceiros e doceiras mantenedores da tradição nesses tempos de chocolate e leite condensado.

Os dicionários estão de prova que seu significado transcende açúcar e mel. Quem não gosta de um beijinho doce dos que ama ou tem a doce esperança de uma vida plena? É um convite à metáfora. O doce pode estar até onde não tem.

Therezinha Mapurunga, em Viçosa do Ceará, pondera que: "nem tão doce". Afinal, é ditado, "quem nunca come melado, quando come se lambuza". Artesã das receitas, ela ainda na infância auxiliava a mãe nos preparos e segurava o funil para o pai envazar licor; Rosa Maria, em Camocim, aprendeu a cozinhar com a mãe, de morte precoce, e encontrou no fazer bolos e cocadas a presença materna; Socorro Ribeiro, de Tauá, perdeu a filha mais velha e principal assistente há um mês. Convivendo com a ausência, está reaprendendo a fazer os doces que muito bem conhece há mais de 30 anos. Os netos enchendo a casa são como um açúcar em sua panela-vida ora amarga.

Lindalva dos Santos, em Aquiraz, vê os engenhos de rapadura se acabarem enquanto, paradoxalmente, o doce mais popular de todos está na mesa do rico e do pobre, na cozinha e no escritório em cubos nos frascos de vidro à espera do próximo a adoçar a boca e cobrir a sede com um copo d'água gelada.

Quem percorrer esses doces caminhos verá que somos conduzidos pela curiosidade e uma pitada de saudosismo, afinal, é por sermos parte da cultura o desejo de investigar as ressignificações dadas a receitas tão antigas, mas com um "amor" que lhe dão novo.

"Se não colocar o pensamento no lugar, pra boa energia, vai perder a eficácia", dá ênfase o pajé Luis Caboclo, liderança indígena Tremembé no Ceará, para a feitura do lambedor xarope com ervas medicinais e melaço de rapadura, outra inserção adoçante.

O doce em cada região segue o perfil do cultivo. Onde a criação bovina é pujante, predomina o doce de leite, mas frutas como banana, mamão, laranja e coco, de cultivo o ano inteiro, são também abundantes na panela. Outras 'de época', como caju e buriti, guardam seu próprio tempo.

Doces caminhos foram percorridos em 11 dias, dez cidades e quase três mil quilômetros. Acompanha este DOC uma página de receitas à maneira de seus artesãos. Mas, para evitar excessos e reconhecer que até o açúcar pode ser amargo, vale uma recomendação: aquilo que, por saúde, não possa adoçar a boca, faça-o, ao menos, com os olhos, página por página.

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