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Doadores de tempo

00:00 · 26.08.2017 / atualizado às 00:43 por Melquíades Júnior - Repórter

Não há tempo. Luzilene já viu o relógio como dois dedos em riste. Um maior que o outro, mas ambos indicando que "você não tem tempo: tem menos tempo, menos tempo, menos tempo ainda" - e os ponteiros, incansáveis, imparáveis. Poucas coisas andam tão devagar e contêm tanta pressa. Ou você fica olhando para eles ou faz o que precisa ser feito, sempre sujeito ao julgamento das horas. No fim das contas, é preciso se virar enquanto a Terra gira em si por inteiro.

Do outro lado da cidade, Francisco Assis é o tempo em pessoa, com 88 anos das muitas vidas que teve. O tempo, contra o qual já correu, hoje anda devagar com ele nos círculos de sua cadeira de rodas.

Quando a distância foi nula, e o relógio parecia aquele do quadro de Salvador Dali, derretido, passivo, domado, Luzilene e Francisco encontraram um tempo para se dar as mãos e os olhos. Um instante em que ele brinca que galanteia a voluntária, mas com um "minha filha" sorri agradecendo pela companhia dos instantes já que a família não compareceu por falta de mais tempo.

Do Lar Torres de Melo, no Jacarecanga, até o bairro em que mora, a voluntária leva uma hora, percurso de todas as quartas-feiras, em que, pelo prazer de ajudar o próximo, cuida. Vai uma Luzilene e volta outra. "Parece que tiro um peso de mim". O peso são as horas.

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E assim há, por toda a cidade, país, mundo, um sem número de pessoas que, a despeito da pressão das obrigações cotidianas, reinventam o tempo para doar conhecimento ou simplesmente presença. São voluntários os doadores de tempo. Gentes de diferentes classes sociais e profissões que se emprestam para servir ao próximo.

Em alguns casos, cria-se uma ponte para atrair solidários. É o que faz o Projeto Jovem Voluntário, há 15 anos realizado pela Universidade de Fortaleza (Unifor): seleciona estudantes interessados em doar tempo para cinco entidades da Capital.

Hoje, em muitas instituições de Fortaleza, já é de festividade pelo Dia do Voluntário, oficialmente em 28 de agosto, a próxima segunda-feira. Fomos conhecer alguns desses doadores e seus serviços que têm em comum a solidariedade e a reinvenção do próprio tempo. Na tentativa de ajudar o outro, transformam a si próprios.

A auxiliar administrativo Alexandra Sousa trabalha, cuida da casa e do filho bebê. Dedica ao menos quatro horas por semana como parte dos Anjos de Proteção, uma iniciativa pioneira do Juizado da Infância e da Juventude de Fortaleza para acolher gestantes que desejam entregar espontaneamente seus bebês. Uma medida legal e com o objetivo de resguardar a vida de crianças para que não tenham a trajetória interrompida desde o nascimento, realidade comum.

Meninos ao mar

No bairro Serviluz, dezenas de crianças vão ao mar aprender a surfar e, enquanto se equilibram nas ondas, fazem o mesmo em cidadania, numa região que apresenta grande vulnerabilidade socioeconômica e que já foi considerada uma das mais violentas da Capital. Os dias são outros. Lá está Luana Castelo, voluntária que faz um pouco de tudo que sabe: surfe, aulas de inglês, criação de projetos sociais, administração da Associação Boca do Golfinho.

Aos 25 anos, Luana nem lembra mais no que a doação de tempo lhe transformou, pois participa de ações do terceiro setor desde criança. Não deixa de trabalhar, estudar no mestrado e ter o seu tempo de não fazer nada. "Eu sei que meus problemas são muito menores do que os deles".

E quando fez das angústias dos outros as suas, buscam juntos as saídas. O que era tão distinto vira um só: crianças e jovens feito elas que compartilham o mesmo olhar salgado de mar, em que as ondas se fazem ponteiros de um outro relógio.

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