Reportagem Trajetória

Do sonho de menino à realidade das pistas

O vaqueiro Luciano Ricarte da Costa, o Luciano do Crato, 32, reúne os troféus na casa dos pais
00:00 · 19.05.2018

Cifras milionárias, grandes públicos e fama. Este é sonho de alguns meninos que começam a correr nas pistas improvisadas na zona rural e periferia deste Município. Até chegar às grandes competições, muitos vaqueiros disputam torneios amadores, realizados entre amigos, os populares "bolões". Os R$ 300 mil em prêmios da Vaquejada de Juazeiro do Norte - uma das maiores do Ceará - e animais que chegam a custar R$ 1 milhão, são exceção no universo amplo das vaquejadas.

Se nas grandes competições as "senhas" - como são conhecidas as taxas de inscrição - chegam a custar até R$ 1.800, os promissores vaqueiros, entre si, cobram R$ 50 para competir por R$ 200, por diversão e, também, treinamento. Se por um lado, em quatro dias de festa, a Vaquejada de Juazeiro do Norte, no ano passado, reuniu 100 mil pessoas, no Parque de Eventos Padre Cícero, nos bolões, o público se amontoa na cerca para acompanhar as corridas.

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Profissão

Muitos desses meninos são vaqueiros de "profissão", tratadores que cuidam de gado e cavalo diariamente. Alguns esperam uma chance para, um dia, se tornarem profissionais no esporte. Este é o sonho de dois garotos de 19 anos, que moram no Baixio das Palmeiras, José Arnon Nobre, neto do vaqueiro Antônio Ferreira, e Teógenes Lucas Nascimento. O primeiro, iniciou os treinos aos 12 anos, inspirado no avô. Hoje, já começa a derrubar o gado. Já Lucas, iniciou mais tarde, aos 15 anos, mas já participa dos bolões.

"O cara tem que treinar bastante. Tendo uma no mês para correr, treina duas semanas antes. Começa a passear com o cavalo para entrar em forma, só caminhando, e depois vai para a pista", explica José Arnon. Inclusive, há pouco mais de um mês, ele ganhou seu primeiro bolão na comunidade local. "Penso em levar para frente", revela.

Os dois costumam treinar juntos, durante duas horas, na pista de lá. Ao longo da semana, revezam o cuidado com o cavalo: de manhã é Lucas e, de tarde, Arnon. "Acordo cinco da manhã, pego na roça, depois solto o gado, coloco o pasto e dou umas voltas. Aí dá a hora de ir para a escola", descreve Lucas. Com pouco mais de quatro anos montando, o garoto tímido vê na vaquejada um futuro que há pouco tempo não podia sonhar. "Quero trabalhar como vaqueiro e, se Deus quiser e meu Padre Cícero, vai dar certo", clama.

Vaqueiro
Teógenes Lucas acorda cedo, pega na roça, solta o gado, coloca o pasto, dá umas voltas, depois vai à escola

Mesmo com pouco público acompanhando, os dois já sentem a ansiedade de disputar uma corrida. "É uma emoção grande, as pernas tremem. Não cheguei a ganhar ainda. Os outros são mais talentosos, eu tô começando agora", explica Lucas. Já Arnon garante que, antes de entrar na pista, tem que torcer para ter um pouco de sorte na hora de pegar o boi. "Varia. Tem boi que é muito corredor, outro devagar e mais duro. Tem outro que é mais 'mobral', mais novo, fácil de derrubar. O 'corrido' já foi derrubado muitas vezes, aí se torna duro", descreve.

"Eu sonho em correr e conquistar no Parque Padre Cícero, em Juazeiro. Neste ano, estou trabalhando para ir, fazendo economia. Se Deus quiser, vou", projeta Arnon. O menino tem treinado e economizado para pagar a senha da categoria aspirante, uma abaixo da categoria amadora. Além delas, também há classificação de jovem, profissional e dérbi. Para isso, o jovem se inspira em outro vaqueiro: Celso Júlio, de Arapiraca (AL). Nas horas vagas, gruda no celular e assiste vídeos de seu ídolo no Youtube.

Acidentes

O contato diário com cavalo já causou várias marcas que guardam no corpo e lembram na ponta da língua. Arnon, por exemplo, há dois anos caiu de sua égua tentando "ataiar" um boi na pista. "Botei para retornar e, quando olhei para a frente, estava em cima da cerca", lembra. O jovem se desequilibrou e caiu. "Quando pensei em me levantar, o braço não mexeu mais", complementa. Ele teve uma fratura no braço e duas no maxilar, precisando passar por cirurgia. As cicatrizes permanecem. Foram seis dias internado e cinco meses para voltar a cavalgar.

Já Lucas garante que caiu apenas uma vez, mas o suficiente para fraturar a perna. Numa parada brusca, foi arremessado por cima do pescoço do animal e caiu de mau jeito. Teve que ser operado e passar três meses sem montar. "O cara gosta do esporte, cai e levanta".

Sucesso

Se por um lado, os garotos ainda estão despontando, outros já conhecem quase todo o Nordeste e parte da região Norte fazendo o que mais gosta. Um destes privilegiados é o vaqueiro Luciano Ricarte da Costa, o Luciano do Crato, 32, que conseguiu viajar por vários lugares graças ao seu talento nas pistas de vaquejada. Criado no Sítio Palmeirinha, distrito de Ponta da Serra, Luciano começou a correr na fazenda vizinha à casa de seus pais. Ao lado de mais três amigos, derrubar o boi na faixa era a diversão da turma. No entanto, foi o único que se profissionalizou.

Hoje, Luciano tem incontáveis troféus espalhados na casa de seus pais. Na sala, a estante é lotada por premiação de todos os tipos. Já no quarto, um armário amplia a coleção de conquistas do vaqueiro, tomando uma parede inteira. A paixão pelo esporte veio, mais uma vez, de herança, do seu pai e avô. Aos 14 anos, já derrubava boi na pista. "Era bom demais, a melhor sensação do mundo", exalta.

Além de dinheiro, o vaqueiro já conquistou um carro, dividiu outros dois veículos e levou para casa mais de 15 motos. "Na vaquejada, o nível máximo é quando ganha um carro", conta. Mas para ele não tem distinção. Tanto corre em vaquejadas que são "minas de ouro", como a de Juazeiro do Norte, assim como em competições menores, como a Vaquejada do Inverno, de Farias Brito, que premia em torno de R$ 15 mil e teve senha custando R$ 200.

O vaqueiro trabalha em duas fazendas, recebendo, cuidando dos cavalos, diariamente, passeando e treinando. Caso vença uma vaquejada, o valor da senha é descontado e a premiação é dividida, meio a meio, entre ele o "patrão", dono dos bichos. "Compensa", ressalta o vaqueiro. A vitória aumenta o preço dos animais e valoriza a fazenda.

"Vaquejada é minha fonte de renda. Como não estudei, é meu ganho para fazer a feira, pagar pensão dos meninos. Hoje é uma profissão reconhecida. Outro tipo de vaqueiro. Antigamente era mais no campo, lutando com gado, hoje é uma profissão que está boa. Não é como antigamente, que era mais sofrido", reconhece Luciano.

Ele também admite que, até chegar ao nível profissional, o vaqueiro batalha muito. Luciano, por exemplo só chegou a este status aos 25 anos. "A vida é complicada, o cara sofre porque não é todo mundo que dá chance. Não é todo patrão que tem um cavalo bom e dá para um iniciante. Eu era um tratador e um amigo meu, Antônio Marcos, me deu as primeiras oportunidades. Já ganhei muitos prêmios com ele", lembra.

'Maracanã'

Ambidestro na hora de derrubar o boi na pista, Luciano conta que sua maior vitória foi correr no Parque Haras Millanny, em Caruru (PE), "o Maracanã das vaquejadas", explica o vaqueiro, que já foi premiado por lá. Após a conquista, sempre repete seu ritual de acender uma caixa de velas para agradecer. Devoto de Nossa Senhora Aparecida e do Padre Cícero, o cratense confirma que a fé anda lado a lado com a maioria dos corredores.

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"Representa a paz, é o divertimento do povo. Se acabasse, seria ruim para nós, porque é um futuro. Se Deus quiser vou chegar lá, ter meu cavalinho e minha fazenda"

Teógenes Lucas Nascimento
Vaqueiro

"Dentro dela, me sinto muito bem. Ser vaqueiro é um sonho, mas quero estudar ainda, fazer faculdade. Cursar veterinária. Tem muita gente no mundo das drogas, que poderia participar"

 

José Arnon Nobre
Vaqueiro

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