Reportagem Quiterianópolis

Depois de secar, açude Colina renasce em meio ao Sertão

A tilápia desapareceu por cerca de quatro anos, juntamente com as águas do Colina; hoje, a pesca está em alta novamente
00:00 · 02.12.2017

O Açude Colina, em Quiterianópolis, se encontrava com apenas 7,88% da sua capacidade total de armazenamento, que é de 3 milhões 250 metros cúbicos, em dezembro de 2012. Na época, causou revolta na população a cobrança da conta de água por parte da Companhia de Água e Esgoto do Estado (Cagece), já que o líquido que descia das torneiras, de tão poluído, sequer era utilizado para o consumo. Nos anos seguintes, o manancial secou de vez. Hoje, para surpresa, é praticamente o único da Bacia dos Sertões de Crateús que tem água. "Isso aqui tem a intervenção divina. O Colina secou por completo. Os carros andavam dentro do seu leito. Duas estradas chegaram a se formar. Foi uma situação jamais vista até então pois, no passado, ele já tinha ficado com pouca água, mas nunca totalmente seco, como ocorreu entre 2012 e o início de 2016. Mas, de uma hora para outra, ele passou a pegar água e, já após o inverno de 2016, encheu e sangrou", testemunha o pescador Marcos Vinícius Alves Nóbrega.

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Em 2012, a água do Colina, de tão poluída, era extremamente verde; agora, está em condições de ser consumida, depois de tratada pela Cagece

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A sangria do Açude Colina é, no mínimo, intrigante, já que ele é o único dos dez que formam a bacia a ter água. O percentual, de 24,7% da sua capacidade, pode parecer pouco. Entretanto, se levarmos em conta a situação dos outros nove mananciais, é privilegiada. O segundo com mais água é o Realejo, em Crateús, com apenas 1,2% da sua capacidade. O restante tem menos de 1% ou secou. "A gente mesmo não sabe explicar o que aconteceu. O certo é que, por aqui na região, choveu muito pouco. Mas, dentro do Colina, caiu muita água. Basta dizer que a barragem transbordou em 2016 e, por pouco, o fato não se repetiu neste ano", revela Marcos Vinícius.

No período de seca, cinco poços artesianos cavados no leito do açude foram ligados à rede de distribuição da Cagece. Uma adutora de montagem rápida, que foi implantada para levar água do Açude Flor do Campo, em Novo Oriente, para Quiterianópolis, numa extensão de 45Km, nunca funcionou.

Francisco de Souza Vale, responsável pelo escritório da Cagece em Quiterianópolis, conta que o Ministério da Integração Nacional chegou a inaugurar o equipamento. Contudo, o Flor do Campo, que estava em situação de dificuldade hídrica, acabou também secando, tornando a adutora sem utilidade.

Conforme Francisco de Souza, entre agosto de 2013 e fevereiro de 2016, a cidade foi abastecida por meio de poços profundos. "Perfuramos 20 poços. Destes, 14 funcionaram a contento. Eles, aliás, estão com a fiação, as bombas e a tubulação em ordem. Caso seja necessário, estão prontos para ser utilizados".

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De fevereiro do ano passado para cá, a cidade vem sendo abastecida somente com a água do Açude Colina. Antônio Francisco Nóbrega, pai de Marcos Vinícius, também pescador, garante que a pesca da tilápia voltou com força. "Ainda não é o ideal, mas já está muito bom. Se a gente levar em conta que chegou a zero quando o açude secou, hoje conseguimos tirar uma média de 50 quilos de pescado por dia. Comercializamos o quilo por R$ 10, de porta em porta. Quando o dia está clareando, é tilápia que não acaba mais. A fartura é grande. Não tem quem dê fim".

Reencontramos Leonor Cordeiro do Nascimento, que reside na Rua Artumira Pires Melo, no Centro. Em 2012, ela queixava-se da água poluída fornecida pela Cagece, que ocasionava diarreia entre crianças e adultos em Quiterianópolis. "Foi um tempo crítico. A água era tão suja que não servia nem para lavar o banheiro. Graças a Deus, a história mudou. O Colina voltou a pegar água e o fornecimento foi normalizado". Seu esposo, Francisco Nascimento, conta que "foram 4 anos de muito sofrimento. A gente tinha que ir buscar água nos cacimbões para manter a horta. A situação era tão triste que muitas pessoas batiam na nossa porta praticamente implorando por um pouco d'água".

Crateús: gado da região ficou reduzido a 30% 

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Dono de um depósito de material de construção, Kleber Abreu Neto comprou dois tratores que trabalham praticamente durante todo o dia cavando poços na região

Cerca de 70% do rebanho de Crateús foi embora de vez para o Piauí e Maranhão desde 2012. Pelo visto, esse é um caminho sem volta. Quem garante é um dos principais criadores e negociadores da região, Gerardo Teles.

"A seca de 2012 foi a mais severa deste ciclo. Não choveu em canto nenhum por estas bandas. Nunca tinha visto tanto animal morto na minha vida. Fomos pegos de surpresa. Não tinha como alimentá-los. Todo tipo de rebanho diminuiu. Conheço vários criadores que perderam tudo e fecharam a fazenda. Esses 70% que morreram ou foram comercializados, jamais foram recuperados", conta Geraldo Teles.

Segundo o comerciante, para não ficar no prejuízo completo, foi obrigado a vender uma vaca, que custava R$ 2 mil, por R$ 500. "Com o passar do tempo, o mercado foi se recuperando no tocante aos preços. Somente agora é que conseguimos passar uma cabeça por R$ 1.700".

Geraldo Teles herdou a atividade do pai. "Antigamente, passava em qualquer propriedade e comprava facilmente 50 cabeças de gado. Hoje, o máximo que consigo encontrar é de 10 a 15. A secura é tão grande que até as carnaúbas não estão conseguindo ficar de pé". A exemplo de muitos outros criadores, Geraldo Teles cavou um poço na sua propriedade, a 12 quilômetros da sede de Crateús, dentro do leito do Rio Poti. "Tenho 300 animais, entre ovinos e bovinos, que são a maioria. Eles precisam de água. Depois de analisar todas as possibilidades, vi que a escavação era a melhor opção para mim".

Outra prática comum adotada pelos criadores é mandar o gado para outras pastagens. Recentemente, Geraldo Teles recebeu dezenas de cabeças que tinha enviado, em fevereiro deste ano, para o Piauí. "Elas retornaram em outubro passado. Como temos propriedade por lá, o custo não foi considerável. Entretanto, quem não possui, paga R$ 20 mensalmente por cabeça para manter o bicho alimentado e saudável".

Geraldo ressalta que aprendeu com os mais antigos que "as secas jamais deixarão de existir. Elas são comuns na nossa região semiárida. O que nos deixa preocupados é que tinha um ano sem chover muito e outro com um bom inverno. Nunca tinha visto um período tão longo de estiagem. De qualquer forma, a gente vai resistindo como pode, na esperança de que um dia isso vá ter fim".

Oportunidade

O que é desespero e aflição para alguns, é oportunidade de negócio para outros. Kleber Abreu Neto é proprietário de um depósito do chamado material de construção grosseiro, como pedras e britas. Em 2012, ele apostou em outra atividade e se deu muito bem.

O comerciante adquiriu dois tratores do tipo pá carregadeira traçada, cujo valor de mercado é R$ 350 mil. As máquinas trabalham praticamente durante todo o dia, enquanto tiver luz natural, escavando poços na região. "Não tenho descanso. Se tivesse mais dois equipamentos estariam da mesma forma ocupados. "Chego a cavar de três a quatro poços diariamente".

A clientela de Kleber há muito tempo extrapolou os limites de Crateús. Hoje, ele recebe pedidos de cidades vizinhas, como Tamboril, Ipaporanga, Independência e até Santa Quitéria, dentre outras. A hora cobrada custa R$ 150. Para cavar um poço, normalmente no leito de um rio que se encontra seco, pode demorar de 4 a 5 horas.

Artigo

Seca e mudanças climáticas afligem o Nordeste

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Antonio Rocha Magalhães é ex-secretário de Planejamento do Ceará

A seca atual no Nordeste é a mais severa da nossa história. Neste início de século XXI, tivemos até agora mais anos secos do que chuvosos. Em outubro do ano passado, foi feito um balanço da longa seca atual, no Seminário de Avaliação da Seca de 2010-2016, promovido pela Fundação Cearense de Meteorologia (Funceme) e Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), com o apoio do Banco do Nordeste (BNB), da Agência Nacional de Água (ANA) e Banco Mundial, com todos os estados da região.

As secas estão mais frequentes e severas. Isso já era previsto em diversos estudos científicos sobre as mudanças climáticas, especialmente os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), e do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC). Mas será que podemos dizer que essa atual seca já sofre a influência das Mudanças Climáticas?

A Teoria das Mudanças Climáticas já previa, no fim do século XIX, que a temperatura global aumentaria em decorrência da liberação de gases de efeito estufa para a atmosfera. Isso já foi demonstrado. A questão agora é: esse aquecimento é devido à ação humana? Há os que teimam em dizer que o que está ocorrendo faz parte da variabilidade "normal" do clima. Enquanto isso, os impactos negativos crescem.

Ainda não conseguimos dar uma resposta eficaz às secas. Efeitos como a degradação e desertificação de terras, desabastecimento de água, queda na produção agrícola e no emprego rural continuam presentes. Agora, temos de nos preparar, não somente para as secas presentes, mas também para as secas futuras. No fim das contas, a seca reflete uma situação de balanço hídrico negativo, com menor disponibilidade de água para atender os diversos usos. No futuro - e talvez já estejamos nessa fase - teremos menos chuva e mais evaporação, portanto menos água disponível. Enquanto isso, as demandas continuarão aumentando.

O Ceará avançou muito, nos últimos 30 anos, no gerenciamento integrado da água. Hoje, procura-se aumentar a oferta por meio de perfuração de poços, dessalinização, captação de água de chuva, canais, adutoras, carros-pipa e importação de água do Rio São Francisco. Do lado da demanda, procura-se aumentar a eficiência e reduzir desperdícios, controlando os usos.

O próximo passo deve ser a evolução em direção a uma política proativa de secas, reforçando o monitoramento, os estudos de vulnerabilidade e impactos, a redução de vulnerabilidade e as respostas às secas.

Instituições cearenses, como a Funceme e a SRH (Secretaria de Recursos Hídricos), já estão envolvidas neste esforço, juntamente com instituições de outros estados, com a ANA e o Ministério da Integração Nacional.

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