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Dependentes digitais

00:00 · 12.08.2017 / atualizado às 08:39 por Textos: Lêda Gonçalves / Fotos: Nah Jereissati e Reinaldo Jorge

Role-Playing Game (RPG), Xbox 360, PlayStation, Facebook, Instagram, Snapchat, WhatsApp, Candy Crush Saga...As tentações virtuais são diversas e surgem a uma velocidade difícil de acompanhar. Enquanto a maioria das pessoas faz uso moderado para se comunicar ou entreter, muitas imergem nos bits e bytes e não conseguem se desconectar.

O vício tecnológico é um problema sério, semelhante às dependências químicas, alertam especialistas. Tanto que a Organização Mundial da Saúde (OMS) avalia incluir o vício em jogos eletrônicos como transtorno psiquiátrico, dentro da Classificação Internacional de Doenças (CID). O que é saudável ou não, quando é preciso buscar ajuda para combater a dependência e evitar que o virtual tome conta da vida real do usuário.

O que dizem os aficionados, a academia, pesquisadores, onde buscar auxílio. O Diário do Nordeste aborda a questão.

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O casal Pedro e Juliana (nomes fictícios a pedido deles) enfrenta um dilema: proibir, durante a semana, ou controlar o tempo em que o casal de filhos, uma de 15 e outro de 12 anos, utiliza a Internet. Os dois vivem em universo "particular", o dos jogos eletrônicos, e quase não conseguem interagir no mundo real. Quando saem, após investidas dos pais, eles demonstram impaciência, indiferença ao que está em volta, quase não falam e, quando isso ocorre, é de forma constrangedora: "foi bom vir aqui, mas não me convide mais, prefiro meu quarto e meus jogos", chegou a declarar a garota para os anfitriões que "ousaram" chamar a família para passar o dia em um resort à beira-mar.

Caso parecido com o da universitária Maria Amélia, 22, que conta já ter mudado o curso do que estava fazendo devido às horas que passa em frente à tela do computador jogando, fazendo selfies ou postando nas redes sociais. "Eu comecei a ter consciência disso porque quase perdi a faculdade. Minha alimentação foi prejudicada, aumentei 25 kg, não conseguia dormir direito, sem falar em meus relacionamentos sociais, que são quase zero. Estou fazendo tratamento e tentando me readaptar, mas é muito difícil", relata a jovem, que, por motivos de segurança, também pediu para não ser fotografada ou filmada. "Tenho vergonha e não quero admitir que sou uma viciada digital", frisa.

Nos exemplos, o mundo virtual passou a "comandar" as vidas dos três. Para psiquiatras e psicólogos, há um limite de hábitos e comportamentos sem o qual a pessoa adoece. O sinal vermelho é dado quando alguém sente maior necessidade de estar na Internet, além do uso como instrumento de comunicação, lazer ou de trabalho.

A ânsia pelo acesso à rede via smartphone, tablets e computadores assume lugar primordial na vida do usuário - e qualquer compromisso social ou familiar é relegado para o escanteio.

Lógico, afirmam, existe um consenso: não há nada de mais em usufruir das ferramentas que a tecnologia oferece em diversos âmbitos, seja entre adultos ou crianças, para estes como brincadeira ou ajuda no desenvolvimento cognitivo e educacional. O problema tem início quando o excesso de conexão passa a ser preocupante. Quando compromissos, sono, alimentação e interação social começam a ser negligenciados, postos em segundo plano até o fim daquela fase complicada do game. Alerta vermelho para o vício em jogos. A questão, inclusive, é avaliada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como transtorno psiquiátrico. Especialistas, no entanto, afirmam que o assunto merece mais estudos por se tratar de um fenômeno novo, e alertam ainda que os sintomas da dependência em videogames são muito parecidos com os de vícios em álcool e outras drogas. Para tratamento, a terapia-cognitivo-comportamental tem sido essencial, e, em muitos casos, a utilização de medicamentos também se faz necessária.

Apesar de serem distúrbios recentes, os especialistas alertam que é preciso cada vez mais atenção a eles. Segundo a professora da Pós-Graduação em Psicologia e Pesquisa sobre a utilização da Internet e Jogos Eletrônicos da Universidade de Fortaleza (Unifor), Regina Heloísa Maciel, é difícil fazer a separação do que é "normal" ou não.

Para diagnosticar esse vício em jogos, explica, existe uma escala em que as pessoas respondem a respeito de sua utilização - a qual nem sempre leva a um resultado negativo. "É importante dizer que nem todo mundo está enquadrado como viciado. Nem todo tipo de pessoa que passa o tempo todo jogando ou muito tempo jogando é viciada", pondera a psicóloga.

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