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Décadas de raça e talento

00:00 · 05.08.2017 por João Bandeira Neto - Editor assistente

Nas décadas de 70 e 80, o futebol cearense se notabilizou por duas características: jogadores com espírito de raça dentro de campo e talentos que despontaram nacionalmente. E os bons atletas refletiram em campeonatos acirrados, jejuns encerrados e artilharia com disputa gol a gol. Nomes como Luisinho das Arábias, Da Silva, Anselmo, Marciano marcaram esses anos com uma alternância ferrenha pela artilharia do campeonato.

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Porém, se a linha de frente mostrava eficácia, as zagas dos times, pouco lembradas, também tinham seus valores. Entre eles está Wilkson, um zagueiro que atuou pelo Fortaleza na década de 70 e que se orgulha de ter tido a ousadia de marcar Gildo e outros atacantes famosos no início de sua carreira quando defendia o Messejana e posteriormente o Fortaleza.

"Tínhamos bons jogadores atuando nos ataques. Precisávamos ter muita atenção e chegar com vontade, pois os caras eram rápidos e chegavam com facilidade. Tive a honra de marcar grandes atacantes no futebol cearense, dentre eles Gildo, o maior ídolo da torcida do Ceará e um homem-gol. Hoje está mais fácil de jogar, principalmente como zagueiro, pois a proteção é maior. Antigamente existia o ataque com três homens. Onde você hoje vai encontrar atacantes como Gildo, Mozart? Na minha opinião, os melhores do futebol cearense de todas as épocas. Afora Amilton Melo, Lucinho, Paraíba, Erandyr, Zé Eduardo. Era uma infinidade de bons atletas", contou o zagueiro recentemente ao Diário do Nordeste, na série Arquivo de Chuteiras.

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Da Costa

E as recordações de quem viveu essa época também estão no meio de campo. Nesse período, dois irmãos cariocas passaram pelo futebol cearense e deixaram seus nomes marcados. Da Costa e seu irmão Jorge marcaram época no Alvinegro.

Bicampeão cearense em 71 e 72 e tricampeão em 75,76 e 77, Da Costa era querido pela torcida pela sua entrega dentro de campo e sua raça.

Mesmo com a imensa identificação com a torcida Alvinegra, Da Costa acabou indo para o Fortaleza em 77 e encerrou sua carreira em 1979 no Baraúnas, frustrado por não ter terminado no Ceará.

Hora de parar

É difícil para um jogador de futebol encerrar a carreira. E deve ser mais ainda ao constatar que a sua função dentro de campo também virou coisa do passado. Parar de jogar, voltar ao anonimato e perder as benesses que o status de jogador oferece. Essas foram algumas das preocupações dos craques que brilharam nos gramados cearenses.

"O futebol é uma profissão que o atleta quer sempre ficar na mídia. Você tem que pensar em algo para se fazer depois que encerrar a carreira. Os jogadores do passado que ainda são lembrados é porque estão na mídia e em contato com outros atletas. Na época, quem jogava futebol não se preparava para o futuro", conta Cícero Capacete, ex-goleiro do Fortaleza.

Cicero Soares Mattos, mais conhecido como Cícero Capacete, jogou na década de 70 e 80 como goleiro do Tricolor e foi campeão cearense pelo clube em 73 e 74. Além do Fortaleza ele jogou pelo América/RN 1976 e 1977, CSA/AL 1978, Ferroviário 1979 e Fortaleza em 1986.

Professor formado em Educação Física, Capacete, apelido dado pelo estilo do cabelo black power que tinha na década de 70, conseguiu dar rumo a sua vida sem o futebol. Porém, segundo ele, alguns dos atletas que jogaram na mesma época não tiveram o mesmo destino.

"O Croinha, do Fortaleza, quando parou de jogar futebol arrumaram um emprego para ele na Prefeitura. Para ele, era uma coisa terrível, um ídolo, goleador conhecido nacionalmente acabar como um guarda metropolitano", lembra.

Edson José de Souza, mais conhecido como Croinha, foi um dos principais nomes do Leão na conquista do Norte-Nordeste de 1970 e do vice da Taça Brasil de 1968.

"Para outros, o refúgio era a bebida e as drogas. A educação familiar pesava muito. Foi o meu caso. Eu sempre fui incentivado pelos meus pais para estudar e buscar uma formação", conta Cícero. Da sua geração de atletas, Capacete lembra também com orgulho de outros companheiros que conseguiram seguir outros caminhos.

"O anonimato era o grande problema desses ex-atletas, essa falta de reconhecimento pesou muito", finaliza.

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