Reportagem Histórias do Desmonte

De promessa a sonho desfeito de desenvolvimento

00:00 · 20.05.2017 / atualizado às 17:33 · 21.05.2017

Inaugurada quando o Nordeste brasileiro vivia um momento de progresso inédito em pelo menos 30 anos e considerada mais um agente desse desenvolvimento, a Usina de Biodiesel da Petrobras em Quixadá levou ao Sertão Central cearense tecnologia de ponta, salários acima da média da região e a promessa de um futuro promissor. Mas tudo isso se desfez com o anúncio do plano de desinvestimento da estatal em 2016, que transformou o empreendimento em mais um capítulo do desmonte executado pela empresa no Estado e hoje só deixou frustração e desesperança aos que ficaram.

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Os R$ 80 milhões aplicados para a construção da planta industrial desde março de 2007, quando começou a terraplanagem, até outubro de 2008, mês da inauguração, impulsionaram a economia local. Dos cerca de 20 mil empregados durante fase de obras, os habitantes da cidade tiveram preferência na contratação pelas empresas e subcontratadas para erguer a usina entre os monólitos da Região, além de receberem qualificação pelo Estado para atuar nas diversas oportunidades geradas após o início da operação. Quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a então ministra Dilma Rousseff (de Minas e Energia) vieram para inaugurar a unidade, mais de 60 dos 200 empregados eram em Quixadá.

Cerca de 9 mil agricultores familiares de aproximadamente 160 municípios cearenses - de um total de 22 mil de todo o Nordeste - também se beneficiaram com a Usina ao serem inseridos na cadeia produtiva do biodiesel. O projeto que estimulava o cultivo de mamona através de plantios consorciados era parte do plano do governo federal para fortalecer o biodiesel produzido pela estatal e fornecia equipamentos para o preparo do solo e também instrução de técnicos agrícolas, além de garantir a compra de toda a produção.

Contexto nacional

Executado por prefeituras e com o apoio da Petrobras, governo do Estado, Ematerce (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará) e Banco do Nordeste (BNB), o projeto tinha o objetivo de tornar a mamona o principal insumo para a produção de até 108 milhões de litros de biodiesel anualmente pela segunda de três usinas de biodiesel planejada pela estatal. Isso porque o projeto cearense estava inserido em um contexto desenvolvimentista do setor energético da época e os planos da Petrobras objetivavam qualificar pessoal e dominar a tecnologia de produção do biodiesel para garantir uma fatia significativa do mercado brasileiro.

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Os trabalhos para a construção da planta industrial da PBio no Ceará tiveram início em março de 2007, com a terraplanagem, e foram finalizados em outubro de 2008, somando cerca de R$ 80 milhões de investimento total 

Para isso, deu-se início a um plano estratégico com a criação da Petrobras Biocombustível (PBio) - subsidiária da Petrobras para o segmento - e com a compra do modelo de produção da empresa norte-americana Crown. Os esforços fizeram a produção da unidade cearense avançar, principalmente após a mudança na legislação nacional que aumentou, em um intervalo de seis anos, a participação do biodiesel no diesel de 2% (2008) para 7% (2014).

Decadência

"Era um processo bom, conseguíamos um biodiesel dentro das especificações da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustível), mas o problema é que nossa curva de aprendizagem do processo da tecnologia estava muito no início, precisávamos aprender mais, adaptar o processo para irmos barateando o preço de se fazer o biodiesel, com algumas otimizações, como diminuir perdas, encontrar matérias-primas baratas e alternativas (óleos e/ou resíduos)", enumera um funcionário da Petrobras cedido à PBio para trabalhar na operação em Quixadá.

Ele afirma, optando por não revelar a identidade, que "a Petrobras quis levar um formato de gestão que 'funciona' ou que pelo menos tem um impacto menor quando utilizado para o petróleo para Petrobras Biocombustível". "As margens de lucro com petróleo são mais altas comparadas com às do biodiesel. A curva de aprendizagem de extrair e processar petróleo já é bem maior. Já somos referência no mundo, desenvolvemos tecnologia. Mas no biodiesel éramos bebês", observa, apontando possíveis falhas estratégicas.

Também guardando sigilo de suas identidades, os demais funcionários da Petrobras e da PBio contatados contaram que o prejuízo da empresa era conhecido por todos da unidade, mas que as ameaças de fechamento e possível saída do segmento de biodiesel só foram consideradas no primeiro semestre de 2016, quando a segunda versão do plano de desinvestimento foi anunciada pela estatal.

A primeira edição deste plano, em 2015, foi responsável pelo cancelamento do projeto da refinaria Premium II, projetada para o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp)- considerado o marco inicial do desmonte da Petrobras no Ceará.

Justamente neste ano foram desligados da cadeia produtiva do biodiesel os poucos agricultores familiares que ainda participavam do projeto de cultivo da mamona, segundo consta nos relatórios da Secretaria de Desenvolvimento Rural e Agricultura Familiar de Quixadá. A oleaginosa que ao longo dos oito anos de funcionamento da usina nunca alçou ao posto de principal matéria prima tinha participação irrisória na produção de Quixadá e o incentivo para produção encarado pejorativamente como um projeto social.

Desativação

Os primeiros a sair da usina após o início dos desinvestimentos foram os funcionários cedidos pela Petrobras. Uma leva foi avisada da transferência para outras unidades no País em março de 2016, enquanto os da PBio tiveram como opção as usinas de Candeias (BA) - construída no mesmo ano da unidade cearense - ou a de Montes Claros (MG) - erguida em abril de 2009.

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Para a inauguração da segunda indústria do tipo bancada pela Petrobras no País, vieram o então presidente Lula e a ministra à época Dilma Rousseff Foto: Kiko Silva

Aos poucos, os empregados terceirizados foram sendo desligados até o anúncio oficial de desativação da planta industrial, em 9 de outubro de 2016. Das cerca de 200 pessoas contratadas, hoje, restam apenas 20: 10 guardas patrimoniais, cinco operários para manutenção, dois para conservação, dois no almoxarifado e um no administrativo. Na tentativa de reverter a decisão já executada pela Petrobras, o governo do Estado do Ceará entrou com um movimento para manter a Usina ativa, fosse pela estatal ou mesmo por um investidor privado.

A oferta de isenção fiscal, considerada tardia por especialistas do setor e o Sindipetro (Sindicato dos Trabalhadores na Indústria do Petróleo) do Ceará e do Piauí, era uma das estratégias. Aliada à criação um grupo especial de secretários que pretendia estimular a produção em larga escala de um insumo no Estado e um modelo de gestão capaz de atrair parceiros comerciais, o objetivo de Camilo Santana era manter os empregos e a receita fiscal gerada pela planta industrial no município. Mas não deu certo. Ao mesmo tempo que a atividade produtiva ia diminuindo dentro da indústria, do lado de fora, a economia iniciava um ciclo decadente em Quixadá.

As fileiras de caminhões na porta da unidade diminuíam na proporção em que crescia o desemprego na cidade. O fechamento da Usina resultou, além de mais habitantes sem emprego, no impacto negativo na arrecadação de impostos e, principalmente, menor movimentação de dinheiro no comércio. Agora, sem expectativas de retomada do empreendimento, resta aos ex-funcionários a lembrança de uma realidade promissora.

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