Reportagem A força da devoção

De porta e corações abertos

Maria Isabel, 61 anos, sente-se abençoada por Deus e com muita coragem: "Não foi aprendida com ninguém essa reza, foi Deus que me deu, o dom é de nascença" (Fotos: Fernanda Siebra)
00:00 · 18.08.2018 / atualizado às 09:45 · 25.08.2018 por Germana Cabral - Editora

— O silêncio profundo invade a Casa de Mãe Dodô, um abrigo de romeiros e lar de rezadeiras em Juazeiro do Norte. O sossego é rompido, apenas, pelo som do bendito entoado na sala de jantar. Quem não conhece a dona daquele vozeirão, imagina que ela tenha muito menos idade do que os 98 anos oficiais.

— Está tudo em paz com a senhora, dona Alzira?

— Tudo na paz de Deus, tudo bem, tudo bem, não é? Graças a Deus.

— Que roupa linda! (tento conquistar mais intimidade)

— Senhora?!

— A sua roupa está linda!

— E é?! (em tom de admiração). Deus nos abençoe.

Mas a beata de vestido lilás de cetim, da mesma tonalidade de seus olhos, e lenço na cabeça branco, continua dizendo que sua fala é pouca. "Minha história já está feita", abrevia Alzira Mendes do Nascimento, sinalizando o fim da prosa. Mas insisti e, aos poucos, ela desanda a falar, em especial sobre Maria das Dores dos Santos, a Mãe Dodô, uma beata do Padre Cícero, falecida em 1998, aos 96 anos.

Ainda recorda muitos acontecimentos, embora naturalmente a memória lhe falhe algumas vezes. Sobre o ano que aportou na cidade, nem ela nem ninguém sabem ao certo.

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Dona Alzira durante uma sessão de bênção com a aposentada Maria Elisa

"Eu não dou quantidade. Cheguei muito nova. Madrinha Dodô conheci aqui, foi ela que me trouxe para Juazeiro. Ela é a ministra dos pés do meu padrinho Ciço, é a missionária. Aí eu não posso conversar muito, eu já disso tudo, né? Não vou me amostrar a ninguém".

Persisto um pouco mais. Mudo o rumo da conversa. Pergunto se sua missão de rezar nas pessoas foi um presente de Deus. A sucessora de Mãe Dodô afirma: "Posso lhe responder que sem Deus não somos ninguém, já disse tudo, disse? A minha resposta é essa. Sem Deus, eu não sou ninguém. Só tenho, se Deus me der, eu tô errada?"

Rosário divino

Dona Alzira revela estar cansada da luta. "Não rezo mais. Faz que nem a história, já estou com cento e tantos anos, minha missão era rezar no povo, então, minha missão já tá feita, não vou me amostrar, fazer o que não posso. Já sou uma pessoa sofrida, não é mermo? Minha saúde e minha idade não dá. Nosso Senhor tome conta, meu padrinho Ciço, entrego nas mãos dele e de Nossa Senhora, pronto, tô errada?".

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As primas rezadeiras Maria Helena e Maria Isabel e, no centro, a imagem da Mãe Dodô

Minutos depois, chega a aposentada Maria Elisa Pereira, 78 anos: "Eu vim aqui para senhora rezar em mim, pelo amor de Deus, vivo com uma moleza no corpo". E, com palavras de fé, a beata iniciou a sessão. "Derramai do céu a bênção, com o santo rosário divino, para curar o seu corpo, e todo o mal se retirar", rogou em um dos trechos.

"Madrinha Alzira diz que não reza mais, mas não nega atendimento, embora reze sentada e não em pé como é tradição", confirma Maria Isabel dos Santos, 61 anos, que foi assumindo o comando da Casa de Mãe Dodô à medida que dona Alzira avançava na idade. "Ela tem 98 anos, mas sempre afirma que já passa dos 100".

Com voz suave e semblante tranquilo, Maria Isabel é pernambucana de Ibimirim e reside em Juazeiro há mais de três décadas. "Ah, minha filha, tá com tempo que moro aqui. Comecei a fazer romaria em 1981. Eu vinha e voltava. Em 1983, já vinha e passava de oito meses com madrinha Dodô. E fui ficando".

Indígena

Devota de Santo Antônio e Nossa Senhora Aparecida, ela é índia da etnia Kapinoá. Nas bênçãos, mescla rituais católicos aos do seu povo. Costuma cantar e dançar toré: "E com fé em Deus, nós vamos rezar. Nós trabalha para o bem, não faz mal a ninguém. Viva Deus e a mãe de Deus", demonstra com todo vigor, tocando maracá.

Maria Isabel também reza orações como o Pai Nosso e a Ave Maria. "Quando o caso é espiritual, o poder de Deus melhora, o que for de médico, também melhora. Né, minha fia? Deus no Céu, e os médicos na terra".

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Embora viva de doações, afirma que não cobra nenhum valor pelas orações. "Não rezamos pagado, o povo dá o que quiser, e se tiver. De graça, Deus nos deu, de graça nós damos".

A Casa de Mãe Dodô acolhe quem precisa de orações diariamente, com exceção do domingo. "As portas estão abertas e o coração também para receber todos os filhos de Deus que vierem. Só não rezo quando estou doente. Aqui, quando uma não pode, a outra pode. Tem também minha prima Maria Helena. A gente se reveza".

Novata

Maria Helena da Silva tem 57 anos e começou a benzer há apenas dois anos. É uma das mais novas rezadeiras da Ladeira do Horto. Reside em frente à Casa de Mãe Dodô, onde sempre ajuda na limpeza e cozinha.

Por quase uma hora, enquanto debulhava feijão, sentada à mesa, debulhou igualmente sua vida, marcada por idas e vindas da cidade natal (Ibimirim-PE) a Juazeiro do Norte. Romeira do Padre Cícero, ela fincou o pé na Ladeira do Horto no ano 2000.

"Eu só vim pra cá depois que fiquei bastante doente, perdendo peso, e não era falta de nada, mas quando você tem de passar por uma coisa, tem de morrer, e tem de viver, e foi isso que aconteceu. Eu pesava cerca de 60 quilos e cheguei a ficar com 40. Maria Isabel e madrinha Alzira disseram para minha mãe: 'Soledade, essa menina tá muito doente, diga a ela que venha, porque senão ela vai morrer'. Mas não era falta de alimento, não era falta de remédio, porque eu tinha médico. Era a minha história de reza chegando, e eu não sabia", recorda.

Provação

No começo, Maria Helena relutou. Não queria de jeito nenhum rezar: "mas você apanha pra pegar a missão, não é só dizer eu vou pegar, eu vou fazer, não. É como eu disse antes, você tem de morrer, e tudo isso, passar por uma prova". Encorajada por dona Alzira e Maria Isabel, acabou abraçando a missão: "tô começando agora, as outras já dominam tudo, e eu não, mas as pessoas em quem rezo dizem que se aliviam. E se voltam é porque tá servindo".

Maria Helena também se sente aliviada. "Foi uma coisa que veio pra eu abraçar, apesar de eu ter pulado muito fora para eu não querer, mas sempre tinha a disciplina para voltar. Hoje, estou bem de saúde, não vou dizer que tenho uma saúde de ferro,eu tô aqui com problema nos rins, mas quando você faz caridade a uma pessoa o mesmo Deus faz com você".

Casa de acolhimento e orações

Uma estátua em tamanho natural de Maria das Dores dos Santos é destaque na sala de entrada da "Casa de Mãe Dodô" numa reverência à fundadora deste lar de orações e acolhimento na Ladeira do Horto, em Juazeiro do Norte. Nesse espaço sagrado, o altar abriga imagens de Padre Cícero, Menino Jesus, São José e Nossa Senhora Aparecida, dentre tantas outras. As paredes são preenchidas com quadros de santos e até de pessoas com graças alcançadas.
 
Tudo lá ainda lembra a antiga dona: "Encontrava-me com Mãe Dodô nas ruas de Juazeiro e na Matriz das Dores. Seu sorriso expressava muita bondade e interioridade. Sempre ela queria me dar uma moeda e insistia para eu não recusar. Sua casa era (e ainda é) muito acolhedora e muitos romeiros a procuravam para receber sua bênção e seus dons de cura. Grande devota do Padre Cícero e da Mãe das Dores", recorda a irmã Annette Dumoulin, pesquisadora sobre o Padre Cícero e as romarias no Cariri.
 
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A beata alagoana chegou à cidade seguindo os passos do patriarca de Juazeiro. "Mãe Dodô se criou bem dizer com meu Padim Cícero. Ela, com 12 anos, fazia os mandados dele. Esta casa foi indicada para ela comprar pelo meu padrinho Cícero pra atender os romeiros", relembra Maria Isabel dos Santos, que hoje comanda a casa ao lado da quase centenária dona Alzira.
 
As duas rezadeiras prosseguem com os valores transmitidos por Mãe Dodô, falecida há 20 anos, tanto na bênção quanto no acolhimento dos devotos do Padre Cícero. Segundo Maria Isabel, o maior ensinamento que recebeu da sua madrinha foi: "fazer o bem a quem nos faz o mal, a quem deseja mal a nós. Nós pede o bem, e isso é que meu Padim Cícero e ela queriam".
 
Na época de Romaria de Finados (fim de outubro/início de novembro), a casa, de acomodações modestas, recebe mais de 200 romeiros nos seus 18 quartos. São os índios Pankararu, de Pernambuco, mas a presença deles é lembrada o ano todo com vestimentas expostas na sala de orações. "A casa fica cheia. Fazemos comida pra nós e quem chegar. Eles comem, bebem e dormem. No dia em que chegam, tem comida pronta. Nos outros dias, já é com eles. Trazem feijão, farinha, açúcar, arroz. Enquanto Deus permitir, e meu padrinho Cícero, vamos abrigar os romeiros aqui nesta casa", garante Maria Isabel.

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