Reportagem Histórias sobre o papel

De como as letras chegam às mãos

Gilmar de Carvalho, autor prolífico estreou em 1973 e expandiu uma obra que nasceu como ficção e hoje tem um status difícil de classificar. Obras originais bebem de fontes acadêmicas e da linguagem jornalística. Fotos: Thiago Gadelha
00:00 · 08.04.2017 / atualizado às 02:30

Gilmar de Carvalho nasceu no ano de 1949 em Sobral. Leonardo Nóbrega, por sua vez, é de 1960, do Centro de Fortaleza. Já Renato Pessoa nasceu em 1985 em São Paulo, embora seja naturalizado em território cearense e, por aqui, tenha firmado raízes.

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Três escritores de diferentes gerações, com experiências distintas do mercado de publicações literárias no Estado. Comecemos, então, pela trajetória de Gilmar. Professor, jornalista, pesquisador voraz da cultura popular tradicional e autor de mais de 30 livros – o primeiro deles, “Pluralia Tantum”, data de 1973 –, ele conta que, desde que se viu como parte do rol de escritores que desejavam publicar suas criações, percebeu dificuldades de alavancar progressos no referido segmento.

“Meu primeiro livro foi composto em uma linotipo e impresso pela Gráfica Editorial Cearense (Grecel), à Rua Rufino de Alencar, entre a Sé e o Seminário da Prainha. Publicar sempre foi muito difícil. Ninguém queria correr riscos, principalmente quando se tratasse de um estreante. Decidi bancar a edição.

Meu pai morrera no final de 1971 e recebi um seguro que me possibilitou quebrar o ineditismo. Não foi fácil”, rememora.

Ele lembra que, à época, a cadeia produtiva para que a obra saísse da condição de manuscrito à de livro era precária e carecia de maiores zelos. “Era tudo muito amador, no mau sentido da palavra. Tive de me internar na Grecel, acompanhar a composição, fazer revisão e checar cada etapa do trabalho. Como não tinha dinheiro para gorjetas, levava lanches para ver se melhorava o humor deles e para que o trabalho saísse sem tantos traumas”, confessa.

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Renato Pessoa questiona o descompasso entre a proliferação de autores e o clima de orfandade de nossa literatura

Adepto da autopublicação até hoje, Gilmar rememora o passo a passo: “Pedia-se um orçamento. Quem tivesse dinheiro, seria publicado. Não havia controle de qualidade, nem tínhamos certeza dos cumprimentos dos prazos. Imprimi convites para o lançamento do ‘Pluralia Tantum’ e a gráfica não entregou os livros no dia. Fiquei à porta da Livraria Mundial pedindo desculpas aos que foram até lá”.

Assim o faz: “A composição feita pela linotipo é um avanço em relação ao ‘cata-cata’, às caixas com os tipos e à composição manual, mas os riscos eram grandes. A máquina era uma  caldeira, com metais em ebulição, em altíssima temperatura”.

“Depois começava a ‘odisseia’ do lançamento. Tínhamos algumas livrarias, como a Renascença (já fora do mercado, quando estreei), a Universitária e a Mundial, que contava com a competência do Paulo Batista, um homem que amava e entendia muito de livros. Vendíamos pouco. Não posso me queixar de falta de espaços na mídia, porém. Tinha uma cobertura excessiva”, completa. 

Das gráficas que se destacavam, Gilmar enumera a Grecel, a Henriqueta Galeno, a Tiprogresso e a Grafisa. Dessas, apenas as duas últimas continuam em atividade. “Hoje, o quadro é outro. A Expressão Gráfica e Editora tem um parque gráfico que não fica atrás dos parques gráficos dos grandes centros”, avalia.

Otimismo

Se pudéssemos inserir Leonardo Nóbrega numa sequência, ele ficaria no interstício entre um modo de publicação mais tradicional e outro mais moderno.

Seu primeiro livro, “Outros Tempos”, foi escrito entre 2006 e 2008 e publicado em 2013.

“O Ceará é um Estado em que o crescimento da produção literária tem se mostrado de forma animadora e é um alento aos escritores da terra. Me considero uma pessoa otimista. Acredito que, no ritmo que estamos nos movendo, conseguiremos chegar a um momento em que a literatura cearense ocupará seu merecido destaque na literatura nacional, em quantidade e em qualidade”, torce.

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Leonardo Nóbrega: de família de gráficos, o escritor fala da necessidade de editores mais atuantes

Um tipo de percepção que ganhou asas principalmente mediante o fato de que Leonardo cresceu em uma família de gráficos – seu avô paterno foi proprietário de tipografias e gráficas – algo que, efetivamente, o aproximou da realidade vivenciada por outros autores no âmbito local com vistas a publicar.

“As relações entre as gráficas/editoras e os escritores têm sido, aos poucos, menos ‘traumáticas’”, brinca. “Entretanto, ainda percebo um pouco de ranço quando se trata de estreantes e desconhecidos, algo que demandaria o trabalho de as próprias editoras analisarem os originais e orientarem os autores pelos tortuosos atalhos das estradas das letras”.

Poesia

Versando sobre temas como a pequenez da vida, o acaso e a precariedade do existir – já presentes desde seu livro de estreia, “O Corpo Arcaico”, em 2011 –, as obras de Renato Pessoa o referenciam como um dos jovens representantes da atual seara de produção literária cearense.  

Segundo ele, “diversos escritores juntamse a pequenas editoras independentes, e, mais comumente, editam suas próprias obras. É evidente que, com essa facilidade de editar e publicar livros, houve um crescimento significativo de livros publicados. Há muitos escritores surgindo, publicando, divulgando suas obras. A grande dificuldade, creio, é a circulação do livro. Muitos não ultrapassam os limites do Estado”.

Na fala do poeta sobre essas limitações, sobram impressões a respeito das políticas públicas realizadas no Ceará no que diz respeito à produção, ao desenvolvimento e à publicação das obras escritas aqui. “Falta-nos uma política pública de apoio aos que vivem de publicar livros. Os editais são miúdos, poucos, vergonhosos. Há um estranho paradoxo: houve um crescimento massivo de obras independentes, o surgimento de muitos jovens escritores. Mas o clima é de orfandade. Parece que a literatura cearense contemporânea não existe”, salienta.

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