Reportagem Praia do Mucuripe

Da brincadeira ao trabalho com força, suor e sabedoria

Seu Luciano (foto abaixo), 77 anos, é um dos raros carpinteiros navais ainda na ativa em Fortaleza. Instalado na Praia do Mucuripe, ele constrói e conserta embarcações auxiliado por Luciano Filho
00:00 · 10.03.2018

Um dos mais belos cenários turísticos de Fortaleza, a Praia do Mucuripe também abriga histórias de vida e de trabalho ainda pouco conhecidas, mas cheias de valor. Luciano Pereira de Lima, 77 anos, nascido e criado no bairro, é uma dessas pessoas cuja trajetória vale a pena conhecer.

A pesca é passado. O ofício de carpinteiro naval, diplomado pela Capitania dos Portos, em 1975, porém, ainda é motivo de orgulho. A qualquer hora do dia é fácil encontrá-lo na praia.

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Debaixo de uma castanholeira, plantada por ele mesmo há mais 50 anos, acomoda um caixote de madeira, com cadeado, onde guarda parte das ferramentas. As mais "valiosas", prefere levar e trazer todos os dias, num percurso que faz de bicicleta, para evitar de ser roubado como já ocorreu. Dos oito filhos, cinco homens e três mulheres, apenas um trabalha ao seu lado. Os demais dão uma ajudinha, mas seguiram outros rumos.

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Respeito e admiração

Herdeiro do nome e do ofício, Luciano Filho, 48 anos, dá conta do serviço braçal, sempre orientado pela experiência do patriarca. Com respeito e admiração, ele vai seguindo os mesmos passos do seu professor na arte de fazer embarcações. O mestre do mar e das jangadas aprendeu ofício só de olhar como funcionava a engrenagem. "Ainda criança, eu ia pescar com o meu pai, naquele tempo não era proibido, e eu ficava prestando atenção no movimento das jangadas. Com uns 20 anos, fiz a minha primeira, mas hoje já perdi as contas", revela.

Seu Luciano recorda que a sua maior produção foi a de um barco com 16 metros de comprimento, porém suas jangadas medem cerca de cinco metros. Fala, com satisfação, dos exemplares já expostos no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, bem como sobre uma encomenda para a Guiana Francesa e outra para a França. Agora, prepara-se para atender a outro pedido: a réplica de uma jangada tradicional de piúba, que já deixou de ser produzida: "Essa piúba vem lá do norte, mas dá pra fazer com a timbaúba, uma raiz que a gente encontra nos matos daqui mesmo".

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Seu Luciano, 77 anos, é um dos raros carpinteiros navais ainda na ativa em Fortaleza. Instalado na Praia do Mucuripe, ele constrói e conserta embarcações auxiliado por Luciano Filho

Enquanto trabalhava na reforma de uma jangada, ancorada nas areias do Mucuripe, mostrava a complexidade da atividade, contudo sem reclamar de nada. Nem mesmo quando enumerou os acidentes sofridos: teve 60% do corpo queimado com álcool, levou 30 pontos na cabeça ao ser atingido por uma pá, feriu a perna com a queda de uma jangada e foi atropelado na Avenida Beira-Mar. Caminha com o auxílio de uma muleta, porém avalia ter boa saúde por se alimentar bem e comer muito peixe.

É devoto de Santa Luzia e Nossa Senhora da Saúde. Casado há mais de 50 anos, diz nunca ter tido vícios, a não ser uma paixão antiga por bicicletas. "Lá em casa, tenho umas 15", lembrando que já percorreu todo o Ceará e foi até São Paulo pedalando com outros amigos. Bastou uma tarde, à sombra da castanholeira, para conhecer essa figura ilustre. Com todas as transformações ocorridas ao longo dos anos, umas para melhor, outras nem tanto, seu Luciano se sente feliz em fazer parte da história do bucólico Mucuripe, até hoje um reduto de pescadores na metrópole Fortaleza.

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