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Crise do abandono é agravada pela seca

00:00 · 28.01.2017 / atualizado às 01:41 por Honório Barbosa - Colaborador

A crise hídrica que o Ceará enfrenta desde 2012, com perdas nos principais reservatórios do Estado, afetou diretamente a produção dos perímetros irrigados criados pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs). Sem água nos açudes, a produção parou, os lotes ficaram ociosos. Além dessa questão conjuntural, há, na maioria das unidades, um problema que se agrava ao longo das últimas quatro décadas: a falta de investimentos e de apoio aos irrigantes.

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Em todos os perímetros irrigados, os antigos colonos, hoje denominados de irrigantes, lamentam a falta de apoio por parte do Dnocs. Lembram de uma época em que havia trabalho, produção e renda. E questionam por que o órgão não perfura poços nos lotes para viabilizar a produção deles.

 

Mais afetados

Os perímetros mais antigos, que surgiram no início da década de 1970, são os mais afetados com a queda na produção atual. Várzea do Boi, em Tauá, na região dos Inhamuns, e Icó-Lima Campos, em Icó, na região Centro-Sul do Ceará, permanecem desassistidos e com reduzida produção, inferior a 10% das suas potencialidades.

Cada perímetro tem sua história e suas peculiaridades, mas, no geral, enfrentam um quadro semelhante de abandono e queda na produção. Não se tem um dado oficial, de volume de produção atual e comparação a períodos anteriores.

Em Icó, por exemplo, dois terços dos lotes, que deveriam ser produtivos, permanecem há quase 20 anos sem água porque não há um canal de transferência do recurso hídrico por gravidade. A obra até que começou a sair do papel, mas, em janeiro de 2016, foi completamente destruída por uma única chuva.

No perímetro Várzea do Boi, o cenário é de paralisação quase que total das atividades mediante o agravamento da seca e a inviabilidade de se produzir grãos e frutas. O açude de mesmo nome secou. Não há irrigação, não há produção em uma das áreas mais secas do sertão cearense. Conta-se nos dedos quem ainda produz ou insiste em criar ovinos e bovinos.

No Vale do Jaguaribe, o perímetro de Morada Nova vivencia também um quadro semelhante. Sem água, a cultura principal, o arroz deixou de ser plantado. Até as capineiras estão morrendo, e tornando inviável a criação de gado e a produção de queijo e leite.

Na região Norte, os perímetros Araras, Forquilha e Baixo Acaraú também enfrentam enormes dificuldades. As fruteiras estão morrendo. Só consegue produzir quem perfurou poço por conta própria, com financiamento bancário. No Perímetro Curu-Paraipaba, há água no subsolo, mas o Dnocs não investiu em perfuração de poço. É uma iniciativa que poderia ser feita pelo órgão, mas que depende exclusivamente do produtor rural que contraiu dívida para ter um poço e uma lavoura produtiva.

Grande aposta

As meninas-dos-olhos do Dnocs, e até do governo do Estado, são os perímetros Tabuleiro de Russas e Jaguaribe-Apodi, implantados mais recentemente com o papel de serem celeiros de produção do Ceará. Atrairam produtores, mas as chuvas ficaram escassas e a seca atingiu o Castanhão. Sem água no maior açude do Ceará, a produção caiu mais de 50%, afugentou os empreendedores, que foram buscar outras terras em outros Estados, partiram atrás de novas oportunidade de trabalho. A crise chegou às cidades de Limoeiro do Norte e Russas. A renda das famílias despencou com reflexo no comércio regional.

Quem está produzindo, perfurou poço por conta própria. Encontrou água no subsolo. Há vários exemplos. De tudo isso resta, finalmente, a pergunta, por que o Dnocs não dispõe de máquinas perfuratrizes ou não contrata empresas especializadas e perfura poços para dar condições aos produtores de trabalharem e produzirem?

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