Reportagem DOC

Criadores no limite

Apesar do investimento em tecnologia, os criadores se ressentem da carência de alimento e água para manter seus rebanhos bovinos. Fotos: Honório Barbosa
00:00 · 11.03.2017 por Honório Barbosa - Repórter

Depois de cinco anos consecutivos de perda das reservas hídricas no sertão cearense, os criadores de gado de leite dizem que se chegou ao limite em 2017. As adaptações foram feitas, o rebanho foi reduzido, os açudes estão secos e o lençol freático baixo. "O futuro da agropecuária no Estado vai depender da atual quadra chuvosa. Perdemos os estoques de alimentação", observa o produtor rural e presidente do Sindicato Rural de Quixeramobim, Cirilo Vidal.

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As últimas chuvas, embora irregulares e localizadas, deram um fôlego para os criadores, pois em algumas áreas encheram pequenos açudes e contribuíram para o ressurgimento da pastagem nativa. "Este é o ano de maior preocupação porque os médios e grandes açudes estão secos. Temos o risco de continuar com o mesmo problema", observa o consultor empresarial Raimundo Reis.

Muitos criadores de gado de leite dependem dos grandes açudes no Vale do Jaguaribe (Castanhão e Orós). Os projetos de produção de capim (forragem para o gado) implantados na Chapada do Apodi, por exemplo, forneceram alimentação para criadores em várias regiões do Estado, nos últimos anos, mas agora, com a escassez de água no Castanhão, estão paralisados ou reduzidos.

"A seca elevou o custo de produção, a mão de obra está mais cara e mais difícil, a silagem está se acabando e esse quadro afeta consideravelmente o médio produtor rural. Os grandes têm capital e estrutura para enfrentar as dificuldades e os pequenos sobrevivem com meia dúzia de animais", observa Reis.

Na avaliação do consultor, os mais afetados são os produtores que estão na faixa entre 200 litros e 800 litros de leite por dia. "Não têm escala de produção, não conseguem comprar uma carga completa de milho e estão sofrendo. A nossa expectativa é que ocorra chuva intensa para uma recarga mínima e produção de grãos e forragem", avalia.

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Redução

Houve uma redução em torno de 15% da produção de leite em 2015 em comparação com 2014, no Ceará. Em relação a 2016, os números ainda não foram divulgados. Os dados têm por base informações das indústrias de beneficiamento. Já os dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam reduzida queda média, de 2%.

Houve retração no Ceará e em Pernambuco, na produção de leite, mas, em Alagoas, os índices se mantiveram, embora atravesse uma crise hídrica semelhante. "Graças à tecnologia simples implantada a partir da alternativa do cultivo de palma forrageira, associada ao bagaço da cana-de-açúcar. É um exemplo para todos nós", frisa Reis.

Os produtores do Ceará reclamam que o cultivo de palma de sequeiro (aquele que depende exclusivamente da chuva) não é viável na maioria das áreas do Ceará. "Só dá bons resultados se for irrigada e bem adensada. A experiência tem demonstrado fracassos e falta aos pequenos e médios criadores orientação, assistência técnica do governo", diz Cirilo Vidal. Ele critica a distribuição nos moldes que o governo do Estado vem promovendo, de raquetes de palma forrageira por meio do programa de distribuição de sementes do Hora de Plantar. "Não há orientação. A falta de umidade adequada à noite afeta o desenvolvimento da planta. Mesmo assim tem viabilidade e bons resultados em comparação com o milho", diz.

Adaptação

Em Quixeramobim, na Fazenda Canafístula, uma das unidades de referência no Sertão Central de criação de gado leiteiro, as dificuldades impostas pelos anos seguidos de chuvas abaixo da média impõem adaptações e a busca de alternativas. O açude que abastecia a unidade produtora está praticamente seco e as chuvas neste início de quadra chuvosa têm sido escassas.

"Plantamos muito no ano passado e colhemos razoavelmente, mas as reservas se esgotam", observa o administrador, João Carneiro Neto. "Prevendo o prolongamento das dificuldades de alimentação, plantamos milheto, que tem ciclo de produção mais curto, e de sorgo forrageiro. O milheto é uma alternativa que estamos buscando", explicou. A cultura permite até oito cortes a partir de 60cm de altura com sucessivas rebrotas.

A fazenda reduziu o rebanho, vendeu animais de qualidade inferior e transferiu gado para Tocantins. No início do ciclo de estiagem, produzia 15 mil litros de leite por dia, mas atualmente reduziu para seis mil litros diários.

Eudásio Oliveira desde criança lida com as tarefas da agropecuária. Herdou dos pais a vocação. Já enfrentou anos de seca e de muitas dificuldades, mas faz questão de afirmar: "Nunca tinha visto tantos anos seguidos de dificuldades, de chuvas fracas, irregulares. Estamos aprendendo a trabalhar em tempo ruim". Ele é o gerente da Fazenda Canafístula.

A estratégia encontrada é o estoque de silagem, uma dieta balanceada, com sorgo e milho. A unidade tenta atravessar a crise com 350 vacas em lactação. O preço do litro de leite é vendido entre R$ 1,25 e R$ 1,55.

A Fazenda Canafístula foi referência na compra e produção de algodão até meados da década de 1980. Havia máquinas de beneficiamento da cultura. Mantém uma estrutura ímpar de galpões, vias de acesso e a recordação de um posto do Banco do Brasil que gerava cinco centenas de empregos e atraia uma movimentação intensa no período de safra do chamado "ouro branco". Com o fim do ciclo da cotonicultura, os proprietários investiram na bovinocultura de leite.

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