Reportagem Mestras do drama

Coroação de saberes populares

Caracterizada de rainha, Ana Maria, a mestra dramista de Tianguá, diplomada em 2008, sempre contagia o público com sua desenvoltura e espontaneidade nas apresentações. Fotos: Natinho Rodrigues
00:00 · 13.05.2017

A caracterização é um luxo, com direito a coroa e faixa dignas de uma rainha. O vestido cheio de babados traz aplicações de flores coloridas e lantejoulas douradas. Apesar de todo o capricho na indumentária, a beleza maior está na personalidade de Ana Maria da Conceição.

A mestra dramista, do município de Tianguá, na Serra da Ibiapaba, uma das convidadas da Bienal do Livro do Ceará, edição 2017, contagiou o público com sua desenvoltura e espontaneidade na exibição dos dramas.

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Antes de se apresentar, a mestra recém-chegada de Tianguá, após quatro horas de viagem, não demonstrava cansaço, somente alegria. No camarim, onde já estava completamente caracterizada, Ana Maria recebia os últimos retoques da maquiagem, ao mesmo tempo em que concedia a entrevista. Entre falas, histórias e risos soltos, ela vai se revelando uma rainha do drama no Ceará.

Desde criança, Ana Maria sempre foi inquieta, curiosa e "sabida", como ela mesma diz. No sítio onde morava, não tinha nada, nem escola nem energia elétrica... "O meu rádio era a minha mãe cantando os dramas", recorda com saudade. A menina, entretanto, não cansava de perguntar de onde vinham aquelas cantorias e, desde então, se interessou pela cultura do drama.

Roupas de papel

Aos 10 anos, fez a primeira apresentação e descreve com entusiasmo os detalhes da roupa: "era toda de papel. Algumas flores e as estrelinhas, a gente fazia com aquele papel prateado das carteiras de cigarro, sabe? E os nossos colares eram de sementes", diz.

Parte da infância e da juventude de Ana Maria foi dedicada ao drama, uma das poucas diversões da comunidade de Tucuns, no distrito de Pindoguaba, em Tianguá. Ao completar 20 anos, a jovem deixou de lado a cultura para se dedicar ao marido e aos quatro filhos.

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De uma infância humilde, a menina só calçou o primeiro sapato aos sete anos: "Meu pai era um homem bem pobrezinho, colhia e vendia corda de imbira. Mas ele era muito honesto e nos dizia sempre: 'só pegue no que é seu'! E assim a gente aprendeu a lição". Mesmo com todas as dificuldades, o patriarca costumava, após a colheita, separar um dinheirinho para pagar uma professora que ensinasse o bê-a-bá aos filhos.

E foi dessa maneira que a menina da zona rural aprendeu a ler, escrever e contar até 100. Apesar do pouco conhecimento, Ana Maria já sabia o suficiente para ensinar a outras crianças. E assim o fez durante muitos anos. Depois, precisou retomar os estudos para continuar em sala de aula. "Nesta época, eu ia para a escola com os meus filhos, era uma diversão grande", recorda. Ao completar o Ensino Médio parou de estudar.

Mas Ana Maria continua disposta a aprender, ensinar e ajudar ao próximo. Em sua comunidade, é bastante solicitada, seja na hora do nascimento ou na hora morte. Já colaborou na realização dois partos e, como benzedeira, tira o quebrante das crianças.

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Também faz as incelenças ou benditos das almas, rituais aplicados ao defunto por meio de cânticos fúnebres. "Tudo o que vem chamar eu vou. Sempre querem me pagar, mas eu não aceito", explica. O próximo desafio da mestra é conquistar, com a ajuda da comunidade, a instalação de uma Delegacia da Mulher no município Tianguá.

Adeus Tristeza

Na rotina de Ana Maria, não existe espaço para a palavra tristeza. Ela destaca que, por meio do drama já obteve muitos benefícios, a exemplo de saúde, amizade e alegrias. Na sua avaliação, a música e a dança presentes nos dramas fazem muito bem para o corpo e a mente humana. "A cada música é um jeito de dançar. Tem os ritmos de valsa, bolero, dois passos, arrastado e assim vai... Drama é cultura, é vida, é felicidade", afirma.

Como era de praxe casar e deixar o drama de lado, só retomou a sua arte a partir do ano 2000, quando as políticas públicas voltadas para a cultura popular se expandiram no Ceará. Com o surgimento desses projetos, a dramista de outrora teve o importante papel de resgatar a cultura que estava adormecida em sua comunidade, bem como a missão de formar grupos para salvaguardar a tradição.

A mestra conta as horas para chegar a terça-feira, dia destinado ao encontro do grupo. Lá, nove mulheres dançam, cantam, falam de amor, traição, perdão. Tem cordel, teatro e música. Incorporam qualquer personagem, mesmo que seja na figura masculina. Ao receber o seu maior tesouro, o título de mestra dramista, Ana Maria sabe que o seu papel é transmitir todo o conhecimento e amor pelo drama às novas gerações. (CP)

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