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Contagem regressiva: A vida (re) começa aos 18 anos

00:00 · 27.08.2016 / atualizado às 15:42 · 29.08.2016 por Cristina Pioner - Repórter

Aparecida Rosângela tem 25 anos, a mesma idade do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Ambos nasceram em 1990, mas a menina não viu valer o seu direito. Viveu institucionalizada dos 8 aos 18 anos, sendo que a lei prevê permanência máxima de dois anos em abrigos. Aparecida encarou a condição de abandono com resiliência, contudo sente a ausência de afeto e de vínculos. Hoje, constituiu a própria família: marido, filho, sogra, cunhados, mas ainda carrega dentro de si imenso vazio. "Por mais que eu ame o meu filho, o meu marido, eu sinto falta de um colo".

>Múltiplas formas de acolher bem

>"É necessário reorganizar os meios protetivos"

>À espera de um padrinho

>Janelas abertas para novas possibilidades

Apesar de o nome Aparecida significar "a que apareceu", a jovem permaneceu invisível até completar 18 anos, assim como ocorre com a maioria das crianças e adolescentes não adotadas. Ela é só mais um exemplo dentre tantos outros que passam anos em instituições de acolhimentos à espera de um lar, uma família, uma oportunidade para amarem e serem amadas.

O fato é que, com o passar do tempo, as possibilidades de adoção vão ficando cada vez mais distantes. A contagem regressiva para deixar o abrigo é inevitável, e a angústia desses jovens também. No Ceará, 35 adolescentes que constam no Cadastro Nacional de Adoção (CNA) vivem esse drama atualmente. Muitos outros permanecem nas unidades sem sequer conseguirem inscrição neste cadastro.

A boa notícia é que as famílias estão ampliando a faixa etária para até os 7 anos, deixando mais de lado a preferência pelos bebês. Os problemas, contudo, estão longe de solução, pois muitos jovens completam os 18 anos vivendo nas instituições, sem vínculos, sem promessas e sem perspectivas.

Em abrigos mantidos pelo poder público no Ceará, essas histórias se repetem dia após dia. Foi lá que conhecemos, além de Aparecida, jovens como Marcos, 18 anos, Bruno, Marta e Aline, todos de 17 anos (nomes fictícios).

Em suas narrativas, não evidenciam a esperança de ainda serem acolhidos por uma nova família, mas demonstram a vontade de formar a própria com toda amplitude que isso significa. Pensam em estudar, conseguir emprego para garantir o sustento ao mesmo tempo em que nem sabem para onde ir.

Sem proteção

"Chegar à maioridade é a sentença irrecorrível ao novo abandono para a maioria daqueles que não foram adotados. Mesmo contra a essência das políticas de proteção do poder público, a maioria dos jovens são deixados por sua própria conta e risco", alerta Suzana Schettini, psicóloga e presidente da Associação Nacional de Grupos de Apoio à Adoção (ANGAAD).

Segundo Suzana, costuma ocorrer uma interrupção brusca de seus relacionamentos dentro dos lares e, principalmente, na sua formação profissional. Sem alternativas, muitos jovens voltam ao ponto de extrema vulnerabilidade social. É sobre esta condição, por vezes silenciosa, que trata este DOC "Contagem regressiva - A vida (re)começa aos 18 anos".

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