Praça José de Alencar

Confissões de uma ex-prostituta no Centro de Fortaleza

Com 40 anos de Praça José de Alencar, "Maria Bonita" é uma espécie de liderança no local, mas se sente solitária por não acreditar mais nos homens

00:00 · 30.06.2018

A "Maria Bonita" da Praça tem 62 anos, é ex-prostituta e quando se encontra na José de Alencar se transforma em uma rainha. Ela é dona e comporta-se como tal. O trono, uma cadeira de plástico. O tesouro está estampado nos dentes banhados em prata. Seu verdadeiro poder reside, mais do que em suas particularidades, em seus valores, que ela própria desenha. Com essa roupagem descarta os homens: "Nenhum presta. Todos são iguais". Assim, revela-se o lado nada delicado, frágil e incapaz.

Nos 40 anos de praça, é consciente de ter muitos admiradores. "Todo mundo me conhece aqui. Pode perguntar a qualquer um quem sou eu". Ela conquistou esse status social à base de luta, até por sobrevivência, retratada nas cicatrizes no braço e abdômen, mantendo a disputa constante com a dura realidade.

Seja como espectadoras, seja como vítimas, as prostitutas vivenciam crimes de feminicídio corriqueiramente. Há duas semanas, uma mulher escapou por pouco de ser assassinada por um cliente em um quarto de motel nas proximidades da praça. Outras não tiveram a mesma sorte, como Estrelinha, Lêda e Tamires, que foram estranguladas. Os assassinos ou o único assassino não foram identificados. "Aqui tem a melhor e a pior maneira de se prostituir", avisa.

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As mulheres que trabalham na José de Alencar possuem repertório de seleção, uma vez que só podem contar com elas mesmas para escolherem seus clientes. Entre as diversas táticas de segurança, estão o horário de trabalho, a preferência por 'conhecidos', a recusa a bêbados e usuários de drogas e o aviso para as demais. "Cada uma diz para outra quem será o parceiro, o horário da saída e para qual motel irá. Se passar de uma hora, já começamos a nos preocupar. Então, vamos atrás".

Plural

arteDo Sertão a Fortaleza, Maria Bonita teve um enlaçado de identidades. "Fui cozinheira, dona de restaurante, recepcionista, dona de loja, faxineira, fui menina, mulher e até puta". Em São Paulo, a vida deixou de ser dela, adotou Carlos, ainda recém-nascido. Antes, em Fortaleza teve Marina, fruto do relacionamento com Sávio. Ele era cliente da boate onde ela dançava, localizada na rua Senador Pompeu, também no Centro da Capital. Casou sem amor, após a morte da mãe. Medo de ficar sozinha, talvez. "Para amar temos que ser o que eles querem", justifica.

O amor veio de forma inesperada. Na praça, também conheceu Andréia, que igualmente se prostituía. O companheirismo entre as duas durou 15 anos. "O pior dia da minha vida foi quando descobri que ela estava me traindo. Ela me trocou por uma amiga nossa. Passei o ano chorando essa perda. Ainda choro, mas não conto a ninguém".

O laço permanece, como amizade. O apoio permaneceu. Andréia ajudou na criação de cinco dos sete netos de Maria Bonita.

Os meninos são de Carlos, usuário de crack, que está preso por roubo. Maria também está aprisionada e, para atenuar a saudade, reorganiza a rotina e se submete ao calvário que inclui deslocamento ao Complexo Penitenciário para visitá-lo todos os domingos.

Acorda às 2h. Faz a comida e monta a bolsa com todas as coisas que Carlos pediu nas cartas, como a do Dia das Mães que ela faz questão de mostrar. "Não esquece a bíblia. Mãe, amo muito a senhora". As palavras em azul são o abraço que ela não pode dar nos dias que não têm visita. O desgaste emocional não está apenas na partida, mas nas preocupações de mãe, do querer cuidar e proteger. "Ele já vai sair. Queria ganhar na loteria e tirá-lo de lá antes. Falta pouco para cumprir 1/6 da pena e em outubro ele sai".

Refúgio

A casa, em um conjunto habitacional, na cidade de Caucaia, é o lugar de reclusão para Maria, que é devorada pela solidão. "Chego, faço meu jantar, tomo banho e vou dormir". O sono nem sempre vem de maneira natural, após um dia inteiro na rua. Os medicamentos tarja preta surgem como refúgio, apagando-se da instantaneidade e velocidade da vida. São companhias guardadas em uma caixa de papelão.

Sentada embaixo da sombra da árvore, vende chá de boldo e cidreira, água mineral, café e farofa, sua especialidade. Além disto, aluga cadeiras e empresta dinheiro a 'conhecidos'. "Nunca deixei de trabalhar", falou em tom de orgulho ao mostrar as queimaduras na perna sofridas recentemente.

No seu pequeno comércio na Praça José de Alencar, vive cercada de pessoas. Ainda assim, sente-se solitária e vê em Moisés, o novo namorado, alguém que possa permanecer. (Colaborou Ideídes Guedes)

Comércio quente na Praça José de Alencar

O sol das 14 horas está tinindo e o comércio troando na Praça José de Alencar, Centro de Fortaleza. É sábado e início do mês de maio. Nesse caldeirão, é possível comprar de tudo um pouco: cafezinho, chá, cachaça, roupas, aparelhos celulares, CDs e DVDs, remédios, drogas e até "sexo", ofertado por mulheres de todas as idades. Quem nos apresenta esse cenário com riqueza de detalhes é o diretor do Grupo Imagens de Teatro, Edson Cândido.

aA vivência cênica e o contato com a "boca do lixo" em São Paulo, onde o cearense morou até 2012, sempre o instigaram a um olhar mais aprofundado sobre o universo da prostituição, independentemente da classe social, idade ou sexo. As ruas, praças, prostíbulos, cabarés, boates e bares são as principais fontes de pesquisa para Edson Cândido, que dirigiu a peça "Navalha na Carne", obra de Plínio Marcos, dentre outros trabalhos do gênero.

No percurso, iniciado pela Praça José de Alencar, podemos sentir o ambiente como ele realmente é. Por vezes, parecia calmo, com viaturas e muitos policiais. Do nada, começava a correria. Estávamos em quatro: jornalista, fotógrafo e estagiário, mais o guia que nos sugeriu a divisão do grupo por alguns minutos. Cada um tomou rumo diferente, todos sem bolsa, celular, máquina fotográfica, caneta ou bloco. Eu me senti amputada, pois ainda sou dependente da caneta e do papel! Gosto de anotar tudo.

Mas esse foi o primeiro desafio desta reportagem: ativar todos os pontos sensoriais para captar e memorizar aquela explosão de imagens, cheiros, falas e sons peculiares do local. Carrinhos com autofalantes tentavam vender, a todo volume, CDs e DVDs com o pior da música "dor de cotovelo". Do caldeirão com milho verde cozido vinha o cheiro gostoso para neutralizar o ar, por vezes tomado pelas baforadas de álcool. Do pipoqueiro, saltavam as lembranças da infância com o sabor agridoce.

Passei alguns minutos sentada, sozinha, num daqueles bancos, só observando e pensando na vida. Olhava para tudo aquilo com muita estranheza, como se eu nunca tivesse passado por aquele local, tão bucólico no primeiro olhar e tão selvagem após a reflexão. Tudo o que queríamos era conhecer profissionais do sexo com mais de 40 anos, e elas estavam lá, geralmente sentadinhas nos bancos, solitárias, esperando resignadas pelos clientes. Porém, encontramos muito mais. (Cristina Pioner)

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