Reportagem Memória

Confira exemplos de alguns acervos de referência

O casarão histórico onde José de Alencar nasceu abriga versão digitalizada de seu acervo
00:00 · 06.01.2018

Clássico digitalizado

jose de alencar
José de Alencar: títulos recentes tiraram seu manuscritos do ineditismo

Desde 2013, a Casa José de Alencar (CJA), equipamento da UFC, disponibiliza, para consulta, os manuscritos do escritor cearense José de Alencar (1828-1877). O material pode ser acessado no formato digital. Os manuscritos estão em mais de 6 mil páginas, organizadas em cadernos por tipo de documento. A maior parte deste material é inédito.

O projeto "Digitalização dos Manuscritos de José de Alencar", iniciado no fim de 2011, foi patrocinado pela Petrobras, através da Lei Rouanet do Ministério da Cultura. A proposta era fazer, da Casa, um centro de referência para os estudos a respeito do escritor, conhecido por clássicos de nossa literatura, como o romance indigenista "Iracema".

Leia ainda: 

> Memória literária: textos que sobrevivem a seus autores
> Biblioteca abriga coleção de Rachel de Queiroz 
> Moreira Campos: quatro escritas, múltiplas histórias 
 
A Casa, aliás, tem o nome do autor por ser seu local de nascimento, no bairro de Messejana. O prédio é tombado pelo Iphan. (Uma curiosidade: entre os acervos da CJA está a Biblioteca Braga Montenegro, adquirida por volta de 1980 e que dispõe de mais de 2 mil exemplares de obras dos mais variados gêneros e autores, pertencentes ao escritor que lhe empresta o nome. Entre, os títulos, claro, se destacam os de José de Alencar).

A antiguidade do material - meados do século XIX -, o reconhecimento nacional do autor; e sua vida pública além do Ceará são alguns fatores que explicam a dispersão de seus manuscritos e documentos. À Biblioteca Nacional, por exemplo, pertence um contrato no qual José de Alencar celebra a venda de "propriedade perpétua" dos direitos autorais de três de seus romances: "Diva - Perfil de mulher", "Minas de prata" e "Iracema". A maior parte do material digitalizado no projeto da CJA pertence ao acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. Outra peças, como cartas escritas pelo cearense, circulam em leilões e são muito procuradas por bibliófilos e colecionadores de todo o País.

Que boa parte do material de um arquivo desse gênero permaneça inédito em livro não surpreende. Além de escritor, José de Alencar foi uma figura dos quadros da política brasileira à época do Império, chegando a ocupar um lugar no Senado. Parte da documentação por dele deixada seria de leitura maçante para o público não especializado, apesar da evidente importância para historiadores - e não apenas naqueles interessados em Alencar, mas na própria história do Brasil Império. Mas há, claro, peças de interesse mais amplo.

"Antiguidade da América" e "A raça primogênita" são dois títulos, de natureza ensaística, mais à filosofia e à antropologia, que só foram editados recentemente, transcrito de manuscritos. Outro livro, "Cartas a favor da escravidão", reuniu correspondência do autor sobre o tema.

O material digitalizado pode ser consultado na CJA. Contato: (85) 3276-2379.

Drummond, Clarice, etc.

r

Publicações e programações especiais ajudaram a notabilizar a riqueza do acervo do Instituto Moreira Salles. Equipamento cultural privado, o IMS mantém uma série de fundos, com originais de grandes nomes da literatura contemporânea brasileira.

O Departamento de Literatura do IMS começou a ser formado em 1994. O arquivo adquirido foi o do jornalista e escritor Otto Lara Resende (1922 - 1992). Hoje, o setor abriga uma biblioteca com cerca de 30 mil itens e arquivo de aproximadamente 130 mil, base para publicações e exposições do Instituto.

d
Manuscrito de "Um sopro de vida", de Clarice Lispector, no IMS

Um dos arquivos é da cearense Rachel de Queiroz (1910 - 2003), que foi parcialmente transferido para a Unifor (leia mais na página 2). Também estão lá os acervos do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987) e das escritoras Clarice Lispector (1920 - 1977) e Carolina Maria de Jesus (1914 - 1977). Outro destaque é o acervo da escritora Lygia Fagundes Telles, 94 anos.

Homenageada pela Flip, em 2016, a poetisa Ana Cristina Cesar (1952 - 1983), também contemplada na coleção do IMS, teve textos inéditos, ali presentes, publicados. Uma edição especial de "Hora da Estrela", de Clarice, reproduz alguns dos manuscritos presentes no IMS.

Coleção monumental

d
O jovem Gabo, em fotografia, e um fax mandado pelo autor já famoso

Digitalizar acervos é um processo caro e demorado. O objetivo, contudo, é dos mais nobres: preservar os originais que, em alguns casos, já estão em estado precário, devido ao uso e ao tempo; e, assim, facilitar o acesso a pesquisadores e curiosos.

d
As universidades norte-americanas são famosas por deter acervos de autores para além do mundo anglófono. Digitalizar, neste caso, é um processo factível, que só encontra um empecilho: os direitos autorais, no caso das obras de escritores mais recentes. Liberar o acesso da internet, neste caso, é menos um problema técnico do que jurídico, dado o risco de pirataria digital.

Daí a surpresa da notícia, veiculada em meados do século passado, que a Universidade do Texas disponibilizaria online, gratuitamente e sem restrições de consulta, o acervo de Gabriel García Márquez (1927-2014). Afinal, Gabo - como foi conhecido - era não apenas um autor importante, do ponto de vista da crítica, mas bastante popular.

A universidade norte-americana comprou o acervo logo depois da morte do autor. Pagou, à época, US$ 2,2 milhões. O material era vasto. Ao cabo de 18 meses, a instituição liberou o acesso de 27 mil documentos.

Há de tudo na coleção da Universidade do Texas - de fotografias de García Márquez, dos tempos de infância aos anos como autor consagrado; ainda: cartas, fax, manuscritos, textos impressos com anotações. O que mais deve impressionar o leitor comum, é claro, são os originais de dez de seus livros. Chama atenção, sobretudo, os escritos do segundo volume de memórias, que Gabo não chegou a concluir, e que permanecem inéditos.

Tesouros mineiros

d
Murilo Rubião, um dos autores presentes no Acervo da UFMG 

Desde 1989, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mantém o Acervo de Escritores Mineiros. Localizado na biblioteca universitária do campus da Pampulha, o Acervo foi concebido com uma perspectiva museográfica e cenográfica. Ele busca recriar o ambiente de trabalho dos escritores, abrigando biblioteca com cerca de 25 mil volumes.

O material ali presente tem rendido publicações, dedicadas a autores como Pedro Nava, Murilo Rubião e Henriqueta Lisboa, além de um volume de correspondência, com as cartas trocadas pelo modernista paulista Mario de Andrade com seus colegas mineiros.

d
O Acervo inclui documentos relativos a autores como Henriqueta Lisboa, Murilo Rubião, Oswaldo França Júnior, Cyro dos Anjos e Abgar Renault.

A UFMG mantém, na internet, uma página do setor, dividida em minissites que trazem listagens dos inventários, biografia enriquecida com imagens, fotografias e trechos da obra dos escritores bem como bibliografia contendo referências de teses, monografias, livros e artigos sobre os titulares.

Testemunhos brasileiros

g
Guimarães Rosa, coleção no IEB conta com mais de 23 mil peças

Criado em 1962 por iniciativa de Sérgio Buarque de Holanda (1902 - 1982), o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) se dedica a pesquisa e documentação relativas à história e à cultura do País. Em seus arquivos, se encontram alguns acervos literários importantes.
 
g
É o caso do Fundo João Guimarães Rosa (1908 - 1967), comprado da família do escritor mineiro ainda nos anos 1970. O acervo de Rosa conta com aproximadamente 20 mil documentos e 3,5 mil títulos de sua biblioteca pessoal, ainda não inteiramente processados. Há documentações que dão conta de sua carreira como diplomata, cartas, recortes de periódicos, fotografias de viagens, além de manuscritos literários. O Fundo Mario de Andrade (1893 - 1945) é ainda mais vasto. O acervo conta com 30 mil itens; a biblioteca com mais de 17 mil volumes; e a coleção de artes visuais com cerca de 1,2 mil peças. Destacam-se os manuscritos, relacionados à prosa e à poesia; à atividade de crítico musical.

Os títulos da biblioteca também deixam entrever o leitor onívoro que foi Mario de Andrade.

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.