Reportagem Interesses

Comunidades esquecidas, mas lembradas na eleição

O Posto de Saúde na comunidade de Degredo, em Choró, está abandonado há pelo menos dois anos
00:00 · 05.05.2018

Em terra distante de caminhos pedregosos, alguns ofícios são mais relevantes. No caso de Abelardo, é ser o motorista ocasional da comunidade Belém, região serrana de Abaiara, no Cariri. Seu Ford, aro 20, 1998, único dono é, bem dizer, a ambulância e transporte escolar do local. Por isso se outro carro chega ao vilarejo, e não é sua camionete, há chances de ser um visitante aleatório, talvez perdido, um parente que resolve rever ou um político, se o tempo exige o reconhecimento - por menor que seja a comunidade, um voto pode fazer a diferença.

LEIA AINDA:

> Onde o vento faz a curva: comunidades isoladas no CE
> Toda urgência precisa esperar onde tudo é muito longe
> No suor das pedras do Cafundó, há um rio que nunca seca
> Longe da cidade, longe de tudo, mas perto da vida

Para Hermógenes, aposentado da roça na Serra do Teixeira, faz mais diferença para quem é votado do que para o votante. "Eles se elegem, aqui nada muda". Se ali é onde o vento faz a curva, o político também tem seu bate-volta. Mesmo não tendo mais a obrigação, o idoso segue comparecendo à urna em dia de eleição.

s
Também lá Seu Antônio precisa pegar água suja para lavar a roupa

"Eu não vendo meu voto, mas é só chegar um aqui que eu peço um milheiro de tijolo. Vem pensando que eu sou besta, taqui o besta", mostra o punho cerrado. O tijolo chega antes do voto, mas as promessas não aparecem depois.

Em 2016, Hermógenes contou três candidatos a vereador e quatro à Prefeitura Municipal. Até hoje a comunidade só queria, ao menos, a visita rotineira de médico do Programa Saúde da Família (PSF), com se diz no papel que deveria ir.

A Unidade Básica de Saúde que havia em Degredo, na Serra do Teixeira, está fechada há pelo menos dois anos. Um buraco na parede inutiliza o portão com cadeado. Dezenas de cartões de vacinação das crianças da comunidade estão jogados numa sala vazia. E dois tanques acumulam juntos cerca de quatro mil litros de água da chuva, com presença de larvas de mosquitos. O problema todo em uma frase: posto de saúde abandonado é criadouro do mosquito Aedes aegypti.

a
Para Antônio Francisco, que tem duas filhas, a distância para atendimento às vezes é maior do hospital para dentro. "Não tem por que negar, tem de a gente chegar lá (no hospital) e não valer o esforço da ida. É difícil encontrar um especialista, fazer um olhar mais apurado pra dentro da gente. Chega lá, é só virose, virose. E tome virose". A filha mais velha, Edilene, que é especial, cursa o terceiro ano no ensino regular. Não é por educação inclusiva, mas por estatística mesmo, para não interferir negativamente no gráfico dos índices de educação.

As estradas inventadas até Degredo, na Serra do Teixeira, nem sempre se sustentam e é preciso recriá-las. Especialmente em época de chuvas, a água dos córregos lava o chão e desorganiza as pedras que atritam no pneu da camionete na "passagem molhada", um tipo simples de engenharia viária que em ano de eleição ganha outro status. "A ponte do Degredo é uma realidade só da cabeça de quem mente", reclama Antônio.

d
Expedita e Elias, índios Tabajara da Aldeia Cajueiro, em Poranga

Mal feitorias

Em Veneza, município de Salitre, a comunidade 40 km distante da cidade tem acesso tão difícil que até mesmo uma Hilux (portanto com tração nas quatro rodas) da Força Tática de Apoio da Polícia Militar ficou atolada nas pedras durante uma diligência.

Era ainda pior quando não havia uma passagem molhada que liga à comunidade de Cachoeira do Pinga Fogo (já município de Potengi). Para moradores das duas localidades, a obra vale ouro. Menos por sua utilidade, mais pelo valor que foi gasto, segundo a placa do serviço pelo Departamento Nacional de Obras Contras as Secas (Dnocs): R$ 989 mil. De acordo com o Portal de Convênios do Governo Federal, já foram repassados R$ 811 mil. A obra deveria estar concluída em 15 de agosto de 2017.

"Mandaram um açude pra fazer aqui. Foi feito, mas de tão malfeito, na primeira enchente a parede arrombou. Nada aqui pra nós vem. Nada. Quando aparece para essa região, não vem até aqui. Tenho tanta raiva que não vou no Salitre nem amarrada", reclama a agricultora Graça Noronha. A comunidade para na seca. No entre rios, torna-se uma ilha sem ser.

Se chove muito, as crianças não vão à escola; se é pouco, Antônio fica com o coração na mão ao ver as filhas seguirem numa estrada escorregadia dentro de uma van do transporte escolar público. "É rio de um lado, rio de outro. Dá um medo que Deus o livre um carro desse vire, porque até quebrar já quebrou".

g
Sítio Flores, em Baturité

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.