Reportagem Mistério e fé

Comunidade de Moita Verde: união e fé no beiço do rio

O casal Marilene Noronha e Bernardo Guimarães é guardião de Moita Verde (Foto: Rafael Crisóstomo)
00:00 · 03.02.2018

Há 300 anos, no Estado de São Paulo, os pescadores João Alves, Felipe Cardoso e Domingos Garcia retiravam das águas escuras do rio Paraíba uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, dando início a uma devoção dos católicos à santa que pouco tempo depois foi consagrada padroeira do Brasil. É o começo de tudo para, há exatos 30 anos, a comunidade de Moita Verde, em Limoeiro do Norte, entrar no Jaguaribe em procissão com uma imagem da santa que dá nome à capela. Uma mesa é colocada no leito do rio e, pelo instante da coroação, torna-se altar.

Três crianças, vestidas de anjos, acompanham na frente a procissão, até a água subir à cintura. Três pescadores locais representam João, Felipe e Domingos da história de três séculos.

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Para os moradores é um mistério, revelado pela fé, que a Moita Verde seja uma margem que mesmo quando o rio está seco, lá está cheio, passando água. Outros apontam a proximidade com a Barragem das Pedrinhas, e tudo recebe água do Castanhão, daí ser um dos últimos lugares a secar. O presente é que ali a água corre por debaixo da passarela de madeira e o entorno é verde. As primeiras beiradas tem um solo arenoso típico do fundo do rio, revelando que aquela margem já foi meio. Em outra época, a Moita tinha ares europeus. Há mais de um século , o português Tertuliano Noronha se encantou pelas águas do Jaguaribe e decidiu ali ficar.

"Até uns anos atrás, a comunidade só tinha moradores da nossa família. Com o tempo, foi crescendo. Hoje, com o pessoal mais jovem crescendo e indo fazer faculdade, muita gente foi embora", diz dona Marilene Noronha, bisneta de 'seu Tertu'. Foi dela o primeiro casamento, com Bernardo Guimarães, na Capela de Nossa Senhora Aparecida, prédio levantado a muitas mãos pelo Clube de Jovens, de que fazia parte e era uma das lideranças. Bernardo Guimarães, esposo, é também seu contemporâneo, e até hoje são os dois guardiões da comunidade que "é nossa vida", define ele.

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Capela de Nossa Senhora Aparecida, fundada pelo Clube de Jovens há 30 anos, é o ponto de união de uma comunidade que, esvaziada, corre o risco de se desmembrar

"Para a igreja, a gente foi comprando o material fazendo sorteio. O primeiro foi de um bolo, feito por minha mãe. Assim, a gente foi conseguindo ajuda de um e de outro até construir e inaugurar em 1987". A escolha por Aparecida deu-se durante a construção. O caminhoneiro Pedro Dantas, da vizinha vila Malhadinha, outra beira, prometeu que se escolhessem por Aparecida, ele, que estava prestes viajar para São Paulo, traria de lá uma imagem. Dito e feito.

O que une a Moita Verde é a fé e a Capela. Com a vila esvaziada, a novena em outubro é o momento de reencontro. Como uma mãe chama os filhos, Marilene manda convite para cada ex-morador, que não se esqueça da festa. Por nove dias, as noites ficam coloridas e iluminadas com a quermesse.

Na celebração dos 30 anos no ano passado, momento emocionante foi a caminhada da qual participou seu Dantas, hoje um caminhoneiro aposentado, idoso, mas caminhando a pé com a fé em Aparecida.

Sob o teto das barracas de madeira e alumínio, bolo, tapioca, fogosa, pamonha, canjica, broa, pé-de-moleque, e tem espaço até para brownie e outras novidades. A beira se torna uma grande calçada onde todos colocam suas cadeiras de balanço para fora. No nono e último dia, que Marilene oficializou de Dia Especial, é reservado aos atuais e ex-moradores. "A gente pede que ninguém falte, porque é momento muito importante, colocar as conversas em dia, saber como estão todos que já moraram aqui no beiço do rio".

A tradição de se reunir é um desejo dos Noronha mais antigos para manter viva a vila. "Muita gente foi embora, eu mesmo já pensei em ir para a cidade, mas a gente aqui resolve muita coisa, tenta manter a comunidade unida. E se eu for embora sei que pode parar. É como se eu sendo da família fundadora, me sinto nessa obrigação. Eu sou da origem". Feito raiz que não se solta, Marilene vai ficando. Se tem algo para discutir na comunidade, melhor falar com ela primeiro, que vai insistir em falar com todos.

Os tempos mudam e debaixo da passarela de madeira o Jaguaribe é também um insistente. As águas baixam, mas não falham. De dia, antes do sol se pôr, é cenário para os ensaios fotográficos de noivos. Na mesma Moita Verde, os banhos no fim de semana multiplicam o gozo para quem fica à noite encontrando as peles, na mesma hora em que os sapos coaxam e também acasalam - há uma sinfonia dos anfíbios nestas primeiras noites com chuva em 2018.

Entre sagrado e profano, humano e animal, tudo é natural neste beiço do Jaguaribe.

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