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Comemoração e resistência em memória

00:00 · 10.02.2018

Nos festejos carnavalescos, a audição é o sentido que, propositalmente, se modifica de acordo com a conveniência. Se o barulho ensurdecedor causa dor de cabeça em dias comuns, na festa torna-se aceitável em nome da alegria. Em meio à empolgação, até os mais contidos falam gritando e o ouvido-amigo acolhe até mesmo os desabafos de desconhecidos. Na folia, também é possível transgredir, voltar a ser criança, desobedecer ordens, fazer "ouvido de mercador". No entanto, para os moradores do Bairro Ellery, é inevitável não escutar um grito de resistência, em meio às festividades, que perpassa os tímpanos e sensibiliza corações.

Há cinco anos reverbera pelas ruas do logradouro uma comemoração que tem por objetivo preservar a memória de Igor de Andrade Lima. O jovem morreu no dia 26 de janeiro de 2013, aos 16 anos, durante o pré-carnaval do "Bloco Sai na Marra", do qual o mesmo era baterista.

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Inocente, em meio à folia, Igor foi lesionado na cabeça por um tiro disparado no meio da multidão, após uma discussão iniciada por excesso de barulho de paredões de som. Igor silenciou, mas o bloco "Unidos do Goiaba" - apelido pelo qual o adolescente era chamado - leva a empolgação tão característica do adolescente.

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Iniciativa

De acordo com Talita Duarte, 27, irmã de Igor, a ideia foi uma iniciativa da família em conjunto com a Comunidade Católica de Missão e Adoração Fanuel, um ano após o falecimento.

Na visão da vendedora, ocupar as ruas com o bloco é um modo de incentivar os amigos de Igor a serem resilientes. "Quando chega esse período, nós lembrávamos do acontecimento, e isso sempre foi muito difícil. Nesse tempo surgiu a ideia para homenagear, até porque ele fazia parte da comunidade católica e tocava bateria na igreja. Como ele gostava muito de tocar, era uma pessoa muito feliz, nós trazemos essa animação e fazemos um pré-carnaval diferente", diz.

Em paralelo à reprodução em ritmo festivo das músicas cristãs, também são realizadas paradas de reflexão e orações com intenções voltadas para a juventude do bairro, ao longo do evento.

Para Sibelle Rocha, 32, uma das participantes do bloco, a mobilização também serve para aproximar às pessoas da religião. "Essa comemoração também serve para evangelizar as pessoas e mostrar alegria do jovem que vive em Deus, que não precisa de outras coisas para se divertir. É ser alegre por ser, e nada mais, assim como era o Igor", afirma.

Em 2018, o bloco transitou pelas ruas em três oportunidades: nos dias 21 e 28 de janeiro e no dia 3 de fevereiro. Maioria do recurso que mantém a festa é arrecadado com a venda das camisas do bloco. Em todos os momentos, mãe, avó, irmão, irmã e Talita seguem no bloco. "O único que não vem é meu pai. Acho que ele não consegue participar porque é uma lembrança muito forte", comenta Talita.

Justiça

A vendedora aponta que, apesar de a proposta ser de exaltar a vida do irmão, a iniciativa também transformou-se, no início, em um modo de clamar pela responsabilização de quem cometeu o crime. "No começo era muito para lembrar a memória dele, mas naturalmente o pedido de Justiça veio como um dos gritos", conta.

Dois ex-policiais foram apontados como os responsáveis pelos disparos, após serem hostilizados pela população e terem sua viatura alvejada por objetos arremessados pelos próprios foliões, conforme consta na denúncia realizada pelo Ministério Público do Ceará (MPCE). No entanto, a dupla foi absolvida por unanimidade em júri popular, no último mês de novembro. Após a finalização de todo o processo, não se ouviu falar em outros suspeitos.

Apesar de não saírem durante o Carnaval, a perspectiva é que as atividades continuem nos próximos anos, segundo Talita, como em uma tentativa de seguir à risca um dos trechos da "música-mantra" entoada a plenos pulmões por aqueles que, agora e sempre, admiram Igor. "É alegria/que nunca acaba/são os amigos do Goiaba".

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