Reportagem Jaguaribe

Clássicos de futebol acontecem no campo do rio

00:00 · 03.02.2018

À beira do campo, se atleta 'embarcar' a bola tem que mergulhar para trazer de volta. Não que achem isso ruim. Em Arneiroz, no Sertão dos Inhamuns, está situado também o Alto Jaguaribe. A beira rio é o estádio de terra batida para centenas de jogadores de futebol, amadores e profissionais. Na extensão das margens que cortam o Ceará, é possível encontrar times como Flamengo, Palmeiras, São Paulo, Vasco e Botafogo, mas em Arneiroz é Grêmio a seleção. Num fim de tarde de domingo, bom para jogar quando o 'sol esfria', recebeu o visitante Cruzeiro, da vizinha cidade de Tauá.

O jogo é amistoso, mas já conta como prévias do confronto que poderá ocorrer no Campeonato Tauaense de Futebol. E no torneio de Arneiroz também, se a Associação Grêmio Desportivo Futebol de Arneiroz (Agredisa), que organiza, conseguir apoio suficiente para os fardamentos.

Seu presidente é Francisco Tavares da Silva. É também o guardião do sonho de mais de 80 crianças e jovens. Desde que começou a carreira de treinador em escolinhas de futebol, Francisco viu que o esporte consegue ser algo além de um simples prazer. Se antes se justificava a necessidade da prática esportiva para livrar os jovens da ociosidade, o tempo atual, tomado pelo tráfico de drogas, tornou-se ainda mais urgente.

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O futebol, uma ferramenta de sonhar com algo melhor no futuro, acabou sendo a própria realização no presente, tamanha a influência do narcotráfico nos municípios em que o rio faz margem.

"Todo final de semana é um movimento grande para envolver crianças, adolescentes. Hoje, a criminalidade tá grande. Se não envolver esse pessoal com o esporte, não se sabe o que acontece daqui pra frente", eis a tensão do presidente do Grêmio. O ano começou, já iniciou contatos por apoio e patrocínio local.

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Jogadores e equipe técnica do Grêmio de Arneiroz posam para a reportagem no intervalo do jogo contra o Cruzeiro, no campo da beira rio

Os meninos precisam de uniforme, um lanche após os treinos, afinal, são jovens em sua maioria carentes que em alguns casos caminham quilômetros a pé. Já não bastasse alimentarem o sonho de jogador de futebol, exatamente para ser o que querem precisam estar bem nutridos.

A notícia boa de 2018 para a Agredisa é que será parceira do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), um programa do Governo Federal que adquire produtos da agricultura familiar.

O uniforme nem precisa de outro desenho, já é totalmente inspirado no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, do Rio Grande do Sul. Essa semelhança transporta os meninos do futebol amador em Arneiroz para o outro time profissional da primeira divisão do Brasileirão.

Gabriel Oliveira de Sousa, 16 anos, fala sem pestanejo que não está ali só para diversão: "a gente treina pelo menos três vezes por semana. Fica confiante um dia participar de uma peneira. Se der tudo certo, e Deus puder dar a oportunidade, a gente quer levar pra frente".

O campo onde todos treinam é na beira do rio, mesmo assim é propriedade particular - pertence à família de um empresário local. Em tese, são terras da União, visto se tratar, automaticamente, de uma Área de Preservação Permanente (APP) - estava no Código Florestal de 1969 e tem na sua atualização de 2012. Nenhuma novidade, se em sua extensão há vários trechos do rio cortados por cercados de arame farpado.

Os atletas arneirozenses ficam com a parte em que são bem-vindos à beira-rio e fazem dela sua arena para a prática esportiva no campeonato de todos os anos, à exceção do ano de 2004, em que a cheia do rio fez subirem as águas e o campo foi uma beira que afundou.

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Se o Jaguaribe é o maior rio do Ceará, o Canal da Integração é o seu concorrente artificial e, ao mesmo tempo, um condutor de suas águas

"Num ano como esse, a gente é feliz se der pra jogar, ou se não der, porque o rio tá cheio demais. A gente tem que ver que de um jeito ou de outro Deus nos dá fartura, né", afirma Teobaldo Carneiro, 42, jogador do time adulto do Grêmio de Arneiroz.

Nunca pensou em disputar o futebol de elite, foi sempre agricultor, e hoje é pedreiro. "Nos tempos de hoje os mais jovens não têm medo de viajar, ganhar o mundo. Eu confesso que eu tinha. A gente sempre foi criado pra ficar na terra", esclarece o zagueiro gremista.

O "Campo do Rio" em Arneiroz não reina nas margens porque os terrenos ainda abertos e descampados de mato servem de tapete para o futebol comunitário.

Se o jogo é no fim de tarde, dependendo da localização, se Alto, Médio ou Baixo Jaguaribe, ainda dá para se banhar no vento Aracati, uma brisa fresca que vem do Oceano e se alonga por quase toda a extensão (seca e molhada) do rio - já foi pauta de nossa reportagem "Memórias das águas" quatro anos atrás.

A propósito do campo, o jogo Grêmio e Cruzeiro, no fim de tarde em Arneiroz, ficou em 1 a zero para o time da casa. O visitante cruzeirense de Tauá espera a revanche, mas vai ficar para o campeonato de futebol local, o único em que o Jaguaribe acompanhará todas as partidas.

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