Reportagem

Ciência comprova benefícios do fruto

As propriedades do pequi são estudadas em na graduação de nível superior, em mestrados e doutorados
17:09 · 24.03.2017 / atualizado às 16:07 · 28.03.2017

Ciência comprova benefícios do fruto

Textos: Germana Cabral e Cristina Pioner Fotos: Fernanda Siebra

Segundo pesquisadores, propriedades do fruto são capazes de atuar no tratamento de artrite, na cicatrização e na prevenção de doenças do coração

Desde criança, Fábio ouvia dizer que o óleo de pequi era bom pra tudo: gripes, dores, inflamações. Sem falar das delícias do fruto quando utilizado na culinária. As lembranças da infância vivida em Juazeiro do Norte, sua terra natal, próxima à Floresta do Araripe, onde a colheita do pequi faz parte da cultura regional, foram suficientes para motivar o jovem na sua trajetória acadêmica. "Percebi que havia pouco estudo sobre o óleo de pequi. Então fui pesquisar sobre os seus efeitos farmacológicos no tratamento da artrite", comenta.

Quando já estava graduado em Fisioterapia pela Universidade Federal do Ceará, Francisco Fábio Bezerra de Oliveira ingressou no mestrado de Farmacologia, que deu origem à sua dissertação: “Efeito antinociceptivo e anti-inflamatório do óleo da polpa de pequi Caryocar coriaceum Wittm na artrite induzida por zymosan em ratos.

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A artrite, vale ressaltar, é uma doença inflamatória que afeta as articulações sinoviais. Os sintomas mais comuns são o aumento da sensibilidade à dor nas articulações (hiperalgesia ou hipernocicepção) e edema. No desenvolvimento da pesquisa, Fábio explica que a artrite foi induzida por meio de uma injeção intra-articular de zymosan, aplicada no joelho direito dos ratos. Alguns deles foram submetidos à ingestão, via oral, do óleo de pequi.

A partir desta combinação (artrite x óleo de pequi), o comportamento dos animais passou a ser analisado, levando em conta a incapacitação articular (hipernocicepção), edema articular, migração de leucócitos, liberação de citocinas e expressão de mediadores inflamatórios. "Nos animais que absorveram o óleo natural de pequi, constatamos que eles apresentaram menos dor e inflamação".

Verificou-se ainda que a ingestão do óleo não alterou o colesterol e não causou prejuízos nos demais órgãos dos animais em teste. Apesar disso, Fábio, do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamento da Universidade Federal do Ceará (UFC), ressalta que ainda são necessários mais estudos sobre o tema.

“Isso foi só o primeiro passo. A gente espera que isto sirva de pilar para que o óleo de pequi possa ser reconhecido como medicamento”, afirma Fábio. Por enquanto, o produto, extraído da natureza, só é consumido como “remédio caseiro” ou fitoterápico. A expectativa é que esse trabalho, apresentado em 2013, continue a inspirar outros estudiosos e pesquisadores.

Mestre em Bioprospecção Molecular e Diversidade pela Universidade Regional do Cariri (Urca), o enfermeiro obstetra Glauberto da Silva Quirino também despertou o interesse pela pesquisa sobre o óleo da polpa de pequi por meio da sabedoria popular, na qual o mesmo é indicado como anti-inflamatório e cicatrizante. “Há pesquisas etnofarmacológicas indicando que, quando consideramos o saber popular, temos maior probabilidade de encontrarmos moléculas biologicamente ativas, ou seja, que são capazes de ter ação farmacológica no nosso organismo”, explica.

Pesquisadores

Pesquisadores se dedicam a comprovar o conhecimento empírico dos nativos da Chapada do Araripe em laboratórios. Foto: Fernanda Siebra   

A partir do estudo, tendo como referência um modelo animal, Glauberto concluiu que a qualidade da cicatriz da ferida tratada com o óleo de pequi é maior do que aquela tratada com soro fisiológico. O óleo garantiu maior quantidade de colágeno e novos vasos sanguíneos formados, ressaltando que essas duas características são fundamentais no processo cicatricial.

Antes da pesquisa de Glauberto, já existiam outras sobre o assunto, entretanto, essa foi a primeira a utilizar a polpa do óleo de pequi típico da Chapada do Araripe, o Caryocar coriaceum. Ele destaca, entretanto, que trata-se de uma pesquisa pré-clínica e, para que o óleo possa ser considerado medicamento, ainda é necessário que sejam realizadas as quatro fases da pesquisa clínica, ou seja, desenvolver o estudo com seres humanos.

Pequi produz um óleo

A médica endocrinologista Patrícia Rosane Leite de Figueiredo, residente em Juazeiro do Norte, igualmente pesquisou sobre o óleo de pequi. Na dissertação de mestrado em Bioprospecção Molecular e Diversidade pela Universidade Regional do Cariri, ela atuou nos temas: óleo fixo do Caryocar coriaceum, dislipidemias, doenças cardiovasculares, ácidos graxos monoinsaturados e diabetes. Segundo Patrícia Figueiredo, estudos comprovam que a fração saponificável do azeite, que inclui os fitoesterois, tem importante papel na diminuição dos níveis de colesterol sanguíneo e, consequentemente, contribuem para a diminuição dos riscos das doenças cardiovasculares.

A médica ressalta que os ácidos graxos monoinsaturados (oléico) podem potencialmente estar envolvidos na prevenção da aterosclerose por inibirem a oxidação da LDL, diminuindo sua aterogênese e, consequentemente, o risco de doença arterial coronariana. O óleo do pequi apresenta na composição de seus ácidos graxos, predominantemente o ácido oléico, uma gordura monoinsaturada utilizada como coadjuvante no tratamento das dislipidemias, com potencial efeito cardioprotetor.

Entretanto, um estudo realizado por Aguilar, et al. (2012) mostrou que após seis semanas de ingestão de dieta suplementada com óleo de pequi (Caryocar brasiliense), as lesões ateroscleróticas na raiz aórtica tiveram aumento, mas foram reduzidas quando comparadas com as dos animais que ingeriram uma dieta com óleo de soja.

“Por essa razão, são necessários mais pesquisas para avaliar a presença dos fitoesterois no “azeite nordestino” e isso deve ser um objetivo para futuros estudos pré-clínicos”, completa a médica.

ENTREVISTA - Dra. Patrícia Rosane Leite de Figueiredo (endocrinologista)

“Óleo do pequi assemelha-se muito ao óleo de oliva” Mestre em Bioprospecção Molecular pela Universidade Regional do Cariri (2012), a endocrinologista Patrícia Rosane Leite de Figueiredo, de Juazeiro do Norte, é pesquisadora com com ênfase na Bioprospecção Molecular e Biodiversidade, e atua, sobretudo, nos seguintes temas: óleo fixo do pequi (Caryocar coriaceum), dislipidemias, doenças cardiovasculares, ácidos graxos monoinsaturados e diabetes. Confira, a seguir, a entrevista que ela concedeu ao Diário do Nordeste sobre o tema de estudo de sua dissertação de mestrado, na qual pesquisou as propriedades do óleo de pequi.

1- Por qual motivo decidiu pesquisar sobre o óleo de pequi? O pequizeiro é uma árvore originária do Brasil, a espécie Caryocar coriaceum WITTM. É encontrada na Chapada do Araripe, exercendo importante papel socioeconômico na nossa região, seu fruto é usado como alimento e na medicina popular, o óleo do pequi é utilizado como anti-inflamatório e cicatrizante (SARAIVA et al., 2010).

2- Quais os principais nutrientes encontrados no óleo de pequi? O teor da polpa de pequi é rico em compostos nutricionais, tais como os ácidos graxos, hidratos de carbono, proteínas, carotenos, vitamina E, e retinol. O óleo também tem níveis elevados de pectina e taninos, além de óleos poli-insaturados. Assemelha-se muito com o óleo de oliva e outros óleos vegetais, principalmente pela composição de seus ácidos graxos, predominando o ácido oléico, uma gordura monoinsaturada.

3- Como foi desenvolvida a sua pesquisa? Foi realizada junto ao Programa de Pós-Graduação em Bioprospecção Molecular da Universidade Regional do Cariri Universidade Regional do Cariri (URCA). As polpas para extração do óleo de pequi foram coletados na comunidade Cacimbas, no município de Jardim-CE. Ratos Wistar foram divididos em 5 grupos e tratados com óleo fixo em três diferentes doses, solução salina e uma medicação redutora de colesterol. Após 15 dias de tratamento, foi administrada tiloxapol, droga que eleva o colesterol, e após 48h foram dosados colesterol total, HDL-colesterol e triglicerídeos.

4- O consumo de óleo de pequi é capaz de controlar o colesterol ruim? A substituição isocalórica da dieta dos ácidos graxos saturados por ácidos graxos monoinsaturados reduz o colesterol ruim (JACKSON et al., 2006). Foi demonstrada atividade hipolipemiante após administração do óleo de Pequi (Caryocar brasiliense CAMB.), com redução nos níveis séricos de colesterol total (CT) e uma redução significativa do LDL-c (colesterol ruim), em pacientes atletas. Isto é explicado devido à sua estrutura química semelhante à do colesterol, dessa forma, interferem na absorção do colesterol, deslocando-os das micelas (COVAS, 2007).

5- Pode-se afirmar que o óleo de pequi possui ação antioxidante e que previne doenças a exemplo do câncer? Os efeitos dos antioxidantes naturais na redução de morbidades como o câncer, doenças cardiovasculares e outros problemas degenerativos associados ao envelhecimento são bem definidos. A polpa e a amêndoa (porções oleaginosas comestíveis do fruto) são fontes de lipídios e vitaminas antioxidantes (A e E). Alguns autores observaram atividades antioxidantes e preventivas de tumores (PAULA-JÚNIOR, 2004; KHOURI et al., 2007), efeitos contra o Sarcoma em animais e indícios de atividade proteásica e hemolítica do Caryocar brasiliense, uma espécie de pequi encontrada principalmente no Cerrado (PEREZ, 2004).

6- E quais os benefícios do óleo de pequi nas doenças do coração? Os ácidos graxos monoinsaturados (oléico) podem potencialmente estar envolvidos na prevenção da aterosclerose por inibirem a oxidação das LDL, diminuindo sua aterogênese e, consequentemente, o risco de doença arterial coronariana. O óleo do pequi apresenta na composição de seus ácidos graxos, predominantemente o ácido oléico, uma gordura monoinsaturada utilizada como coadjuvante no tratamento das dislipidemias, com potencial efeito cardioprotetor (COVAS, 2010).

7- Após a defesa da dissertação, você prosseguiu com a pesquisa? Sim. No projeto de doutorado, serão realizados estudos experimentais que avaliem as potencialidades farmacológicas do óleo do pequi, como adjuvantes na terapia contra aterosclerose, determinando o efeito do óleo fixo da polpa mesocarpo do pequi (Caryocar coriaceum WITTM) e dos ácidos graxos oléico e linoléico no diabetes e na dislipidemia.

Consumo do óleo de pequi pode prevenir o câncer no fígado

Testes realizados com camundongo

Testes realizados com camundongos na USP revelaram que  espécie do pequi Caryocar brasiliense Camb (Cerrado de Goiás) contém um óleo capaz de reduzir lesões pré-neoplásicas (que antecedem o câncer). FOTO: Nivaldo Ferr/ Emater Goiás

Característico do cerrado brasileiro, a espécie do pequi Caryocar brasiliense Camb contém um óleo capaz de reduzir lesões pré-neoplásicas (que antecedem o câncer) em até 51%, conforme revelou testes realizados com camundongos na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP. Os resultados destes experimentos estão descritos no artigo "Chemopreventive effects of pequi oil (Caryocar brasiliense Camb.) on preneoplastic lesions in a mouse model of hepatocarcinogenesis" recentemente veiculado na revista European Journal of Cancer Prevention.

De acordo com o professor Francisco Javier Hernandez Blazquez, do Laboratório de Estereologia Estocástica e Anatomia Química da FMVZ, além das reduções, o óleo do pequi conseguiu promover a regressão das lesões até a aparência de um fígado normal. Os testes foram realizados em animais onde o processo canceroso foi induzido.

Os camundongos que, ao mesmo tempo, foram tratados com o óleo de pequi por via oral apresentaram menos lesões, sendo que muitas estavam em processo de reversão, conta Hernandez Blazquez. A pesquisa teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).Ele descreve que os resultados vêm comprovar os efeitos benéficos deste fruto nativo do cerrado brasileiro.

O extrato do óleo do pequi possui propriedades anti-inflamatórias, antioxidante e anticâncer, entre outros. “O que nos levou a investigar os efeitos do óleo no tratamento do câncer de fígado foram os resultados obtidos em estudos realizados pelo professor César K. Grisólia, na Universidade de Brasília”, conta Hernandez Blazquez.

“Em seus estudos foram comprovadas reduções de lesões em tecidos de atletas, causadas por estresse oxidativo, entre os que consumiram este óleo rico em carotenoides”, descreve o cientista, ressaltando que o óleo de pequi já pode ser encontrado em cápsulas.

Mesmo com a comprovação dos efeitos positivos do óleo, os cientistas agora empreenderão estudos no sentido de conhecer as vias metabólicas pelas quais o óleo atua. “Tais resultados poderão nos permitir investigar os efeitos do óleo no câncer já estabelecido”, antecipa Simone Morais Palmeira, doutoranda do laboratório e que também assina o artigo recém-publicado.

Os estudos com o óleo de pequi acontecem desde 2012, quando a pesquisadora investigou tais efeitos em seu mestrado na FMVZ e utilizou a estereologia para avaliar o tamanho das lesões pré-cancerosas.

A estereologia é uma ciência que possibilita medir lesões teciduais por meio de cálculos estatísticos e matemáticos espaciais levando em conta altura, largura e profundidade (3D), além da quarta dimensão, o tempo (4D). A vantagem em relação à morfometria (análise em duas dimensões – altura e largura) é a grande acurácia e o fato de estimar o número e o volume total das lesões (entre outros). Já a morfometria mede apenas os contornos (perfis) das partículas analisadas.

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