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Ciclo de reinvenção

Ana Helena: do primeiro curso até o lugar garantido no mercado de trabalho, passando pela graduação, seu caminho foi de lutas e oportunidades
00:00 · 04.03.2017 / atualizado às 14:44 por Roberta Souza - Repórter

Das primeiras vezes que subiu o morro do Castelo Encantado, na periferia de Fortaleza, Ana Helena do Nascimento Barbosa - hoje com 28 anos -, ainda era criança. Ia acompanhada do pai, que tirava da venda do coco uma parte do sustento da família. Todos moravam em Trairi. Aliás, foi lá, mais precisamente na comunidade de Peixinhos, onde ela nasceu. E era lá também que competia com os três irmãos para saber quem viajaria de vez em quando até a Capital, em busca das "magias" do Castelo. Aquele lugar que, anos mais tarde, tornaria-se sua casa.

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Após breve passagem por São Paulo, Helena se fixou no bairro fortalezense que a magnetizava. "Criança é bicho besta, né? E pra mim realmente era encantado aquilo ali, porque lá eu encontrava muitas crianças, primos com brinquedos, gibis. Aprendi a ler com esses gibis, aos quatro anos!", recorda. Filha de mãe professora, a leitura logo se tornou sua atividade preferida, posto que a diversão, na maioria das vezes, era passar horas em bibliotecas. "Acho que isso começou a me guiar pela cultura, mas eu não refletia sobre", acredita.

E foi mais ou menos assim, com a leitura despretensiosa de um cartaz afixado numa bodega do Castelo, que Ana Helena deu um passo transformador. O papel anunciava a seleção de adolescentes para um curso de produção em vídeo, da ONG Encine, no bairro Papicu. "Não tinha ideia do que era produzir vídeo. Pra mim, naquela época, devia ser algo com fita VHS. Mas dava vale-transporte, bolsa-auxílio e encaminhava para o primeiro emprego. Então foi uma galera comigo", conta.

Durante um ano e nove meses, Helena ia "religiosamente" para o curso. As pessoas que se destacassem iam produzir um programa televisivo veiculado em canal aberto, e ela estava entre os escolhidos.

"Até hoje, 2017, ainda trabalho com as pessoas que me selecionaram naquela época, quando tinha 14 anos. Essas pessoas me indicaram para vários trabalhos, apostando realmente em mim, e tenho muito orgulho de hoje fazer parte da rede de contatos delas".

Empreitada

Trabalhar no Encine, naquele período, era também uma forma de garantir ajuda em casa. "Por menor que fosse o valor da bolsa, não era nem 100 reais, eu estava lá porque precisava daquele dinheiro. Sabia que aquilo era fundamental e estava orgulhosa de poder levar algum valor", lembra. Este apoio financeiro era fundamental para o percurso da jovem, que logo entraria de cabeça em uma nova seleção: a da primeira turma da Escola de Audiovisual da Vila das Artes.

Inicialmente, pairou a insegurança. Helena não conhecia ninguém do cinema; quem trabalhava com a linguagem à época não eram pessoas da mesma classe social que a sua, tampouco tinham a mesma formação. "Mas resolvi tentar com o apoio do pessoal do Encine", recorda. Em meio a um processo cirúrgico, ela estudou e passou na seleção. Ali, as portas se alargariam. A Escola lhe abriria o mundo.

"Comecei a ir aos ateliês, fazer produção. As pessoas que trabalhavam na Escola gostaram do meu trabalho e passaram a me indicar. Fui para o Festival de Cinema de Canoa Quebrada, a Feira da Música, aí desandou! Sempre trabalhando com produção. Entendi que aquele era meu perfil e resolvi investir nele".

Aos 19 anos, Helena voltou a São Paulo. Dessa vez para se especializar na área em que tinha se encontrado. Juntou uma grana e foi fazer um curso de produção cultural. De volta, outra inquietação: será que teria condições de entrar numa universidade pública?

Sua formação de base, sabia, não era das mais consistentes, mas o desejo de se inserir no ensino superior era grande. Para isso, fez alguns sacrifícios. Pegou muito serviço para garantir uma verba de sustento; aprovada em Ciências Sociais na UFC, ficou por um tempo só estudando e atuando como bolsista.

A passagem pela graduação teve momentos difíceis. Helena sofreu preconceito, mas, como na época do Encine, encontrou pessoas que lhe ajudaram. O Laboratório de Pesquisas em Política e Cultura (LEPEC), coordenado pelas professores Irlys Barreira e Danyelle Nilin, foi como uma nova casa.

"Quando entrei e participei das pesquisas, conheci muita gente importante. Quis desistir da universidade, às vezes pela arrogância de alguns, por não sentir que eu fazia parte daquele lugar, mas a professora Danyelle sempre falava: a universidade é um lugar de todos, você tem que se apropriar dela".

A formatura veio cinco anos depois. Grávida de sete meses do pequeno Belchior - hoje com seis meses de vida -, ela defendeu monografia sobre o bairro Vicente Pinzón. "Queria muito falar sobre onde eu cresci. Me incomodava as pautas negativas da região, quando sabia que essa não era a única coisa que ela podia oferecer".

Preocupada em deixar algo para a comunidade, Helena formatou um projeto cultural para uma das escolas do Castelo Encantado. Aprovada pelo Governo Federal, a iniciativa recebeu investimento de mais de 20 mil reais, utilizados na compra de materiais e para a realização de oficinas de fotografia. Ali Helena recomeçava um ciclo. Agora, porém, era ela quem dava as mãos para os jovens da periferia.

Em 2016, ela esteve imersa na reabertura do Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ) e, ao olhar para aquela comunidade, a comparação com o que viveu no passado é inevitável. "As secretarias de cultura têm que fazer uma articulação com outras áreas: educação, segurança, assistência social. As pessoas ali (na periferia) têm outras demandas, e para funcionar a gente tem que atender todas elas", defende.

Hoje ocupando cargo de gestora cultural no Instituto Dragão do Mar, Helena tem objetivos claros. "No que eu puder contribuir para que outras pessoas tenham suas vidas transformadas por meio da arte e da cultura, vou fazer. E da forma mais comprometida que tiver", afirma. "É claro que dentro da gestão pública há limitações, interesses, motivações específicas, mas vamos trilhando caminhos e fazendo o possível dentro do que está posto", acrescenta.

Entre o trabalho no escritório e a amamentação do filho, ela corre pela qualidade de vida. "Não é legal ser pobre. É foda! Não é bacana viver como uma parcela esquecida e isso tem que mudar", desabafa. Como quem desceu o morro sempre por algum descaso de política pública - fosse no âmbito da saúde, do trabalho ou da educação -, ela sobe de novo para garantir que essas pessoas não permaneçam na margem.

 

"A cultura me levou para uma ascensão mais intelectual do que social, que eu não teria tido se não fosse aquele cartaz na bodega do seu Zé. Eu não estaria sentada aqui". Buscando fazer das exceções a regra.

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