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Certeza de continuar

Há um ano e meio, Clodoaldo passou por um transplante combinado de pâncreas e rins na tentativa de se curar da diabetes e da insuficiência renal. A cirurgia era opcional, mas ele afirma que foi a melhor escolha. ( Foto: Yago Albuquerque )
00:00 · 04.02.2017

Ser transplantado é guardar, em si, um pedaço de outro alguém. E, dele, tirar vida. José Cardoso, transplantado de coração, e milhares de homens, mulheres e crianças devem a sobrevivência ao afeto de pessoas que transformaram o fim de uma história no início de outra. Se, hoje, eles têm a certeza de que haverá amanhã, é porque alguém, mais que um órgão, doou a esperança de continuar.

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No ano passado, mais de 200 doadores permitiram que 1.864 pessoas fossem transplantadas no Ceará. E neste ano, até agora, outras 98. Dentre elas, Marly Pinheiro, de 40 anos. Neste sábado (4), a cirurgia que lhe trouxe um novo órgão completa um mês.

Mesmo com o novo fígado já começando funcionar, ela custa a acreditar que está transplantada. A memória ainda não apagou os quatro anos de dores, exames, hospitalizações, que precederam a cirurgia. Há três meses, quando entrou na fila pelo órgão, já estava no limite. Tivesse a espera sido mais longa, talvez não aguentasse.

Ainda morava em Roraima, seu Estado natal, quando começou a investigar o que a estava deixando de cama dia sim, dia não. Os diagnósticos vieram um atrás do outro: hepatite autoimune, cirrose, fibrose e ascite. Ao fim de um ano, tempo de evolução das doenças, todo o fígado estava comprometido.

Dor

As dores eram insuportáveis. Quando atacavam, o corpo todo sofria. Nem a morfina dava mais conta. No auge das doenças, a médica confirmou: "Marly, tu vai precisar de transplante". Mas não há transplante em Roraima. No Estado, assim como em grande parte do Norte e do Nordeste, a estrutura e as equipes médicas são insuficientes para fazer procedimentos de grande porte. Os pacientes precisam ser encaminhados a outras regiões, onde entram na fila e aguardam o transplante. Marly veio para o Ceará. Deixou casa, filhos e saudade em Roraima.

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Marly deixou Roraima, seu Estado natal, para fazer um transplante no Ceará. A cirurgia completa um mês hoje e ela já faz planos Foto: Fernanda Siebra 

Um doador surgiu com apenas três meses da chegada em Fortaleza. "Foi no tempo certo. No dia, virei para o meu marido e disse: 'Chegou a hora'", diz. O procedimento aconteceu dia 4 de janeiro, no Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC). Quando Marly saiu da cirurgia, já foi para viver de novo. "Foi como se eu morresse para o mundo e vivesse de novo. Tudo muda. Tudo o que você vivia, o seu passado, apaga da sua mente. Você vira outra pessoa, tem uma outra visão da vida", completa.

Marly sabe o que o transplante custou. Do doador, a única informação que possui é a de que tinha 17 anos e foi vítima de um acidente de moto. A família do adolescente vez por outra vem à mente. Lamenta que, para ter uma chance, houve perda e dor. "Eu sempre falava pra Deus me mandar só quando a esperança acabasse. Quando visse que não tinha mais jeito, que já tinha clamado até o último suspiro. Sou consciente de que tem uma parte daquela pessoa viva dentro de mim. É um presente de Deus e vou cuidar dele", afirma.

Volta para casa

Enquanto se recupera, começa a esboçar planos que silenciou anos atrás. O convívio com pacientes nas visitas quase diárias ao HUWC mostrou que é preciso haver apoio mútuo entre pacientes na fila de espera e entre recém-transplantados. No regresso a Roraima, quando ele acontecer, já pensa em reunir pessoas em ambas as situações e oferecer ajuda. "Aqui, aprendi muito a valorizar mais a vida, a ajudar o próximo. Tem muita gente nesse processo que fica perdido. Você segurar na mão, falar palavras positivas, vale muito".

Por hora, seu desejo é o mesmo de todos os recém-transplantados: voltar para casa. Um retorno que ainda não tem data para ocorrer. Quem sabe no fim do ano, se a reabilitação correr bem. Todos os dias, quando a saudade da família e da cidade natal aperta, liga para os filhos. Trocam novidades, fotografias, mensagens. Mas entre eles não há pressa. A recuperação exige paciência e Marly diz que só volta "quando estiver tudo ok, organizadinho". "Saudade eu tenho, mas eles sabem que logo eu estarei lá. Vou ter muito tempo para passar com minha família".

Escolhas

O que Marly sente hoje, Clodoaldo da Silva, de 38 anos, viveu um ano e meio atrás, época em que passou por um transplante ainda raro no Estado, de rins e pâncreas combinados. A cirurgia surgiu para aliviar o penar de pacientes que, assim como ele, desenvolveram insuficiência renal a partir da diabetes. Diferentemente de Marly, o transplante, em seu caso, não era salvação. No entanto era a opção entre uma vida de privações e a independência. Hoje, quando olha para as marcas da hemodiálise no braço e das injeções de insulina pelo corpo, sabe que fez a escolha certa.

Descobriu-se diabético no auge da juventude. Tinha só 20 anos de idade. A doença era a herança cruel da família do pai. Apareceu precocemente, mas não era grave. Piorou com o tempo e a rebeldia do, na época, jovem Clodoaldo.

Se saía no fim de semana, era para beber. Pulava refeições, esquecia de tomar as doses diárias de insulina. A mãe suplicava: "Clodoaldo, não bebe. Clodoaldo, não esquece de se alimentar". Ele, como todo filho, não ouvia. Quando a taxa de glicose baixava - e ela sempre baixava - vinham as tonturas e os desmaios. Ficaram tão frequentes que, para onde ia, precisava de companhia, alguém para acudir em qualquer imprevisto. "A diabetes vai afetando os órgãos aos poucos. Eu fiz com que isso acontecesse mais rápido", assume.

Sobrecarga

A doença começou a afetar os rins e o restante do corpo. Também é a mãe quem lembra de cada vez em que achou que perderia o filho. A vez em que um derrame intraocular lhe tirou a visão por dias. A vez em que teve pneumonia e ficou sem respirar. A vez em que teve meningite e, segundo ela, "passou 10 dias no hospital quase morto".

Para a diabetes, havia a insulina, e a hemodiálise conseguia controlar o problema renal. Durante um ano, três horas de seus dias eram destinadas ao procedimento. Em certo momento, contudo, a sobrecarga foi alta demais e os órgãos começaram a falhar. Só o transplante poderia curar os dois males de uma vez.

Depois de uma tentativa mal-sucedida meses antes, por conta da inviabilidade dos órgãos, conseguiu encontrar um novo doador em 2015. "Ligaram dizendo que tinha um pâncreas e um rim que podiam ser meus. Mas tinha uma criança na minha frente, que era prioridade", lembra. "Fui para o hospital sem saber se ia dar certo. Quando disseram que o transplante ia acontecer, o coração acelerou".

Independência

Transplantando há mais de um ano, Clodoaldo ganhou de volta a liberdade. Está clinicamente curado da diabetes e da insuficiência dos rins. Recuperou a independência que perdeu na juventude, de poder andar sozinho pelas ruas e se desatrelar de máquinas. "Foi um alívio. Eu poderia ter continuado do jeito que estava, mas seria uma vida restrita. Só de parar de fazer hemodiálise e de tomar insulina todo dia, valeu a pena".

Ele, que não gostava de seguir regras, agora terá que tomar medicações para sempre, para evitar a rejeição dos órgãos. "Todo bônus tem um ônus. E esse eu nem considero", brinca.

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