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Cérebro e coração

Na Área de Risco I do IJF, é identificado um paciente em estado grave, cujos indícios apontam para a morte cerebral. Com a confirmação do diagnóstico, ele passa a ser um potencial doador de órgãos ( Foto: Yago Albuquerque )
00:00 · 04.02.2017

Os dias não têm início nem fim dentro do Instituto Dr. José Frota. O maior hospital de traumatologia do Estado, que recebe a todo minuto demandas de alta complexidade, é também onde surge a grande maioria dos potenciais doadores de órgãos no Ceará. Pacientes em estado crítico de saúde, em geral vítimas de acidentes ou da violência urbana, cujos indícios já apontam para a morte encefálica.

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É na Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) da unidade que começa a história do primeiro transplante cardíaco de 2017 no Ceará, acompanhada pela reportagem no fim do mês de janeiro e que abre este caderno especial. Lá, o trabalho não para. Equipes atuam 24 horas visitante alas de internação e buscando identificar de forma precoce pacientes neste perfil. É a etapa inicial do longo e complexo processo doação-transplante.

 

Em uma quinta-feira pela manhã, um paciente em condição delicada é identificado por enfermeiras da CIHDOTT na Área de Risco I da unidade. Homem, 41 anos, vítima de traumatismo crânio-encefálico após uma crise convulsiva. Chegou ao hospital já em estado crítico e, em poucas horas, seu estado de saúde se agrava. Reflexos cerebrais caem, as pupilas param de reagir, a respiração começa a se esvair. Pela noite, todos os sinais indicam que a situação já não tem mais retorno. Os médicos, então, decidem que é hora de iniciar o difícil protocolo para o diagnóstico da morte encefálica.

Notificação

A Central de Transplantes do Estado logo é comunicada sobre o paciente, que passa a ser considerado um possível doador. Dali em diante, cada etapa de avaliações será acompanhada. O protocolo é rigoroso. Há intervalos mínimos que devem ser respeitados para a realização dos testes, três ao todo. Um processo que pode levar horas.

No paciente em observação, os dois primeiros exames dão positivo. O último confirma as suspeitas. A notícia chega à CIHDOTT com pesar. Conviver com a morte virou a cruel rotina dos profissionais que atuam na comissão. Quase diariamente, têm de lidar com a perda e o luto de uma família e, ao mesmo tempo, com a possibilidade de esperança para outra. É saber que a morte pode se transformar em vida para continuar no ofício. Precisam pensar no transplante que poderá ocorrer.

Nesse momento, contudo, CIHDOTT e Central de Transplantes sabem que cada minuto é precioso. O diagnóstico da morte encefálica já tomou horas de um tempo que, quando se precisa de um transplante, passa mais rápido. Depois que o cérebro para, os órgãos começam a entrar em falência, um a um. Para que o procedimento seja possível, é preciso correr.

Na beira do leito, médicos e enfermeiras trabalham para manter o coração do paciente batendo. Mesmo sem resposta cerebral, o coração permanece funcionando, mas de forma limitada. A preocupação é impedir, a partir de aparelhos e medicamentos, a parada cardíaca, responsável, no ano passado, pela perda de 69 doações de órgãos no Estado.

Todos os profissionais da Comissão e da Central se mobilizam para iniciar procedimentos que levarão ao transplante. Mas tudo ainda dependerá de um fator: o consentimento da família do potencial do doador.

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