Reportagem Bom Jardim

Ceia de leituras: projeto resgata o amor pelo livros

As próprias famílias dos estudantes, como os pais Felipe e Aparecida, cedem o espaço e oferecem lanche
00:00 · 23.12.2017 / atualizado às 17:12

Neste Natal, Luiz quer um livro. Quer ainda um celular, um tênis novo e um boné. Mas é a primeira vez que o garoto de 11 anos também pede um livro. Dizer o que ele deseja não revela toda a transformação até chegar a esse pedido.

A sua vontade por histórias é uma história à parte para o garoto do bairro Bom Jardim. Melhor dizendo, todos no bairro do "vixe" (é a expressão de quem pergunta 'onde você mora') têm uma história à parte. A de Luiz começou quando um senhor alto e vibrante chegou com uma grande mala vermelha carregada de curiosidades. Mas não era o Papai Noel nem estava no Natal. No entanto, lá vem o homem pelas ruas fazendo uso de seu único dia de folga: o domingo.

Um professor de português viu que seus alunos tinham fome, inclusive, de palavras. Não adiantava falar de gramática sem entender o que as palavras diziam. Antes de dizer que os meninos não leem resolveu se perguntar o porquê. Mas Gilson Franco, 48 anos, o educador inquieto de escola pública do bairro Bom Jardim, decidiu desentocar as histórias guardadas e encapadas em poeira nas estantes.

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Aparecida Rodrigues abre a casa aos domingos para a ceia de leitura no bairro Bom Jardim

Puxando a grande mala, sai da sala de aula e percorre o bairro sem biblioteca para ser recebido na casa de seus alunos na companhia dos pais e uma turma ávida por ler.

"Eu vi que eles poderiam ter interesse, bastava que fosse oferecida essa opção. A gente sabe que em sala de aula pode fazer a nossa parte, mas percebi que os alunos tendo outro estímulo, como a participação na leitura, eu poderia melhorar os resultados em sala de aula. Mas pode ter certeza de que vai muito além".

Luiz Gonzaga Neto, o garoto que quer um livro, é fã de Castro Alves e Patativa do Assaré. Declama poemas dos dois com a certeza de quem sabe o que diz. Essa querença surgiu ainda em sala de aula com a proposta de ensinar em versos de cordel a disciplina de literatura aos alunos do sexto ano da Escola Dom Antônio de Almeida Lustosa, homenagem ao nomeado bispo pelo Papa Pio XI (1924), arcebispo de Fortaleza (1951) e um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

O trabalho do professor Gilson foi homenageado em outubro deste ano no programa nacional "Escrevendo o Futuro, da Fundação Itaú Social".

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Professor Gilson Franco distribui os livros para ler com a criançada, uma ação que melhorou o rendimento escolar

Aparecida, mãe de Emilly, de 13 anos, amanhece o domingo organizando as mesas, cadeiras, e um tapete na garagem de casa. Na cozinha, prepara bolo, sucos e refrigerante. "Aqui, nossa ceia é o ano todo". São outros que preparam o prato principal: Clarice Lispector, Carlos Drummond, Patativa do Assaré, Jessier Quirino ou até Lewis Carol, de Alice no País das Maravilhas. Os autores só aumentam conforme as doações chegam.

A ceia literária, chamada "Mala da leitura", de tão movimentada na casa dos estudantes, é atração até para os bebês, que leem formas e cores, e assim têm o primeiro contato com os livros.

Vida real

A importância desse projeto torna-se ainda maior quando se constata a vulnerabilidade do local em que pessoas estão acostumadas à vida real e cruel: tráfico, chacinas, ausência do Estado.

"O professor Gilson diz que não faz nada demais, mas se todo professor fosse como ele, já pensou o que seria daqui? Faço questão de abrir minha casa pra essas crianças, é um lazer porque no bairro são poucas alternativas boas. Elas leem com gosto, uma oportunidade que eu não tive", explica a diarista e dona da casa Aparecida, que prepara o espaço de leitura com auxílio do esposo.

Está dando certo a estratégia de ensinar com versos, e assim despertar para todos os gêneros literários, dedicando algumas horas por semana para transformar a vida de crianças e jovens da região mais violenta de Fortaleza (além dos homicídios, a violência da exclusão social).

"A boa vontade eu levo, o resto eles dão. Essa diferença positiva são eles próprios que estão causando, eu só fiz dar o motivo. Como professor, meu trabalho não precisa ficar numa sala de aula. Aliás, eu não paro do obstáculo da escola. Tenho todo apoio e somos acolhidos lá, mas quando fazemos o ambiente de leitura o próprio lar deles, envolve toda a família. Isso mudou tanto o comportamento das crianças. Antes os alunos eram muito desobedientes, não prestavam atenção nas aulas, e o rendimento era lá embaixo. Mas de uma turma de 40 alunos, houve melhora em 38 deles", comemora Gilson Franco.

Serviço:

Projeto Mala de Leitura
Comunidade Condomínio Residencial Leonel Brizola
Contatos: (85) 9 88702373
Facebook: Gilson Franco

 

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