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Carpinteiros do mar: figuras que dão vida às jangadas

Francisco Zacarias da Silva, 74 anos, faz embarcações artesanais na localidade de Salgadinho, em Icapuí, no Litoral Leste do Ceará
00:00 · 10.03.2018 / atualizado às 02:12 por Cristina Pioner (textos) / JL Rosa (fotos)

Contemplar a jangada à beira-mar, experimentar a sensação de um passeio, comprar tela, camiseta ou chaveiro com o seu desenho. Tudo isso é simbolismo, mas quem fortalece esse ícone da cultura cearense são os carpinteiros do mar. Esses artesãos, figuras simples e sábias, dão corpo e asas para as jangadas "voarem" até o destino almejado.

Com alguns metros de madeira, um pedaço de pano, ferramentas, pregos, parafusos e muito suor, esses trabalhadores, presentes ao longo de 573 km de área litorânea do Estado, ainda que anônimos, são os responsáveis por colocar em prática essa peça de "engenharia/arquitetura naval", sem precisar de esboços prévios. Baseados no conhecimento empírico, em geral, dispensam o uso de lápis, papel, calculadora e computador.

A maioria quase não frequentou a escola. É o caso do seu Francisco Zacarias da Silva, 74 anos, de Icapuí, no Litoral Leste. Ingressou no ofício para fugir do mar, pois sabia desde cedo que não tinha vocação para pescador. Na carpintaria, começou fazendo as tradicionais jangadas de piúba, depois vieram as de tábua, os botes, os paquetes, chegando aos barcos maiores, inclusive a motor.

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Francisco Zacarias da Silva, 74 anos, faz embarcações artesanais na localidade de Salgadinho, em Icapuí, no Litoral Leste do Ceará

Na Prainha, em Aquiraz, o carpinteiro e pescador aposentado Chico da Enedina deixou os dois ofícios por problemas de saúde, mas encontrou no artesanato uma alternativa rentável. Há cinco anos, dedica-se à feitura de minijangadas. Com saudade do mar e das embarcações, orgulha-se com a arte de produzir o símbolo que o representa, seja por meio da pesca ou da carpintaria.

Em Cascavel, outro artesão trabalha de forma semelhante e também se chama Chico, porém continua pescando, mas só nas pedras. Com delicadeza e paciência, investe parte do tempo fazendo réplicas perfeitas do modelo de outrora, num tamanho médio de 20 a 60 centímetros.

Pequenas em tamanho, mas não em importância, essas jangadas já deram até o título de Mestre da Cultura a José Pereira de Oliveira (1926-2013) cuja trajetória foi marcada pelo zelo e talento. Cada uma de suas jangadas em miniatura eram únicas, com características marcantes desse artista nato. Entretanto, em relação às embarcações maiores, ainda não há nenhum diplomado pelo programa Tesouros Vivos da Cultura, implantado pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult) em 2009.

São esses profissionais, dotados e um saber próprio, que ilustram este DOC batizado "Carpinteiros do mar", assim como ocorre com as embarcações, identificadas sempre por um nome, geralmente proposto pelo seu dono. Para tanto, percorremos as areias dos municípios de Icapuí (Redonda e Salgadinho), Aracati (Canoa Quebrada), Cascavel (Caponga), Aquiraz (Prainha) e, por fim, Fortaleza (Praia do Mucuripe), de onde as jangadas partem, diariamente, para pescar. Esses cenários são perfeitos, poéticos.

A estética e a simplicidade dessas jangadas já inspiraram, inclusive, diversos artistas de renome nacional e internacional, bem como o fotógrafo Chico Albuquerque, o pintor Raimundo Cela, o arquiteto e artista plástico Nearco Araújo, e os compositores Fagner e Belchior com a clássica "Mucuripe". Até o cineasta norte-americano Orson Welles esteve no Ceará na década de 1940, para gravar um filme sobre a história de uma jangada e quatro jangadeiros, o inacabado "It's all true" (É tudo verdade).

A dedicação de Nearco Araújo ao tema é um caso de amor. Seus desenhos, que ilustram as páginas internas desta edição, vão além das extensas pesquisas e revelam algo mais do que talentosos traços. Parceiro de Araújo no livro "Ventos, Velas e Veleiros - Embarcações Tradicionais do Ceará" (2014), o também arquiteto Romeu Duarte Junior escreve sobre o trabalho do artista: "A máxima de Le Corbusier continua mais atual do que nunca: 'Levar sempre consigo uma caderneta de desenho e deixar a máquina fotográfica em casa'. Aqui há, porém, algo mais que apuro técnico e talento: há o desejo e a paixão de comunicar, propor, transpor, lembrar denunciar. O registro é a posse, bem como um comentário sobre a vida e a morte dos barcos (...)".

Todas essas expressões artísticas, portanto, tiveram e ainda têm grande repercussão em torno deste patrimônio material e imaterial da cultura cearense. As mesmas jangadas que já desbravaram oceanos enchem os nossos olhos, despertam sentimentos, colorem o mar e trazem o peixe de cada dia.

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